A loucura da insatisfação
Redação DM
Publicado em 12 de janeiro de 2016 às 23:46 | Atualizado há 10 anosA nossa época é uma especialista em inspirar insatisfações, pois ela é a maior autoridade em promover ilusões: qualquer pessoa pode ser e ter qualquer coisa.
A loucura da insatisfação é tão grande na “sociedade moderna” que o indivíduo chega ao ponto de não aceitar não apenas a sua aparência física, mas também o tempo vivido por ele sobre a terra, e a velhice passa a ser algo revoltante; assim, além de estar sempre almejando ser mais atraente, ele também quer sempre ser mais jovem: existe na verdade uma grande insatisfação com a vida vivida, mas os insatisfeitos não pretendem deixar essa vida porque eles são incapazes de propor uma alternativa ou uma saída capaz de frear a insatisfação que toma conta da sua existência. Controlado pelo sentimento de insatisfação, o indivíduo se torna incapacitado não apenas para viver uma vida plena, mas também para tra&cc edil;ar metas e objetivos reais. A loucura da insatisfação não permite ao indivíduo ter a consciência da satisfação, e mesmo que ela esteja presente em sua consciência, ele não consegue experimentá-la; a insatisfação doentia é sinal de fracasso e rendição, e aqueles que acreditam que ela simboliza libertação, não conseguem enxergar o quanto estão submersos na escravidão e sob a obediência de normas pertencentes a um mundo imaginário que só existe em suas próprias cabeças.
O indivíduo constantemente insatisfeito é um destruidor de si mesmo, pois é incapaz de ver a verdadeira realidade que o cerca e, por isso mesmo, incapaz de traçar objetivos reais e consistentes, pois ele se transforma em um ser que se afasta de si próprio. A insatisfação doentia, por ser algo de difícil discussão e definição, acaba provocando constrangimento para o próprio insatisfeito, afinal, ser totalmente insatisfeito não representa nenhum tipo de conquista ou contribuição, apenas sinal de descontrole do próprio indivíduo insatisfeito que caminha para lugar nenhum. O insatisfeito doentio não consegue propor e nem ver solução em parte algum, pois ele vive em torno de si mesmo e do mundo fictício que criou para contrapor e fugir do mun do real. A loucura da insatisfação transforma o indivíduo em um ser preguiçoso preocupado apenas consigo próprio, todas as ou-tras coisas que, ao seu modo de ver, não têm nenhum papel no sentido de alimentar a sua insatisfação são totalmente descartadas, para ele, o importante é estar totalmente submisso à insatisfação, sem qualquer espaço para a ideia de satisfação. Por isso é necessário renascer para enxergar novos encantos: os olhos precisam ter a chance de ver com mais clareza; a mente precisa pensar com maior lucidez e o coração necessita sentir com mais força.
(José João Neves Barbosa Vicente, filósofo, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e editor da Griot: Revista de Filosofia)