Brasil

A malandragem reina apenas entre os políticos?

Redação DM

Publicado em 15 de março de 2016 às 22:03 | Atualizado há 10 anos

Uma antiga amiga minha, com a qual trabalhei alguns anos atrás numa mesma escola lecionando português, tem um filho que mora com ela. Além do filho, mora também a nora e um neto já adolescente de uns 14 anos. Certa vez conversei com esse filho dela, que me disse ter a maior “ojeriza” para com os políticos. Para ele, todo político é sem caráter.

Senti de imediato se tratar de um típico analfabeto político citado pelo filósofo Bertolt Brechet e assim tratei de mudar o rumo da conversa. Afinal, é mais fácil tirar leite de pedra do que conversar com alguém que, por total ignorância, desconhece que  “o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas”.

Recentemente encontrei com essa amiga, que me contou que o filho continua murando com ela e acomodado como sempre em sua casa, sem grandes preocupações em ajudar a coitada da mãe, que sobrevive de uma aposentadoria merreca. Segundo ela, a preocupação do filho e da esposa é apenas com o carro deles. “Faltam pouco lamber o carro”. Pelo seu relato, senti que o casal é mais o luxo do que o bucho. E este é a minha amiga cuida com o seu pequeno salário, que mal dá para ela.

Estou citando esse episódio para discordar das pessoas que andam descrentes com os políticos e que por isso acham que todos são iguais. Ou seja, nenhum vale o sal do batizado. Que existem muitos assim é verdade, mas todos não podem ser jogados na mesma vala. Há muita gente descendo a lenha nos políticos, mas sem condições morais de fazer isso, como é o caso do filho (folgado) da amiga. Ao escorar na aposentadoria da mãe, ele dá provas transparentes de que é uma pessoa sem caráter, de que é um aproveitador da pobre mãe. Era ela que deveria estar cuidando da mãe.

Recentemente alguém da minha relação de amigos postou na minha página do Facebook um vídeo, que me deixou chocado com a cena que vi: um motorista de caminhão preso nas ferragens do veículo, que talvez tenha capotado ou batido em outro carro, e pessoas saqueando a carga do caminhão, indiferentes ao sofrimento do homem (talvez até estivesse morto). Trogloditismo total a imagem! Indignado com o vídeo, fui ao Google buscar mais informações sobre o vídeo e acabei encontrando outros tantos repudiáveis.

Esse gesto abominável é algo de praxe em muitos brasileiros, mas nem todos brasileiros são praticantes de ações abomináveis.  A generalização é um gesto errado. Não é todo mecânico que inventa problema em nosso carro para morder em nosso bolso. Não é todo policial que em blitz inventa problema para nos extorquir. Não é toda cuidadora de idosos que maltrata idosos. Não é todo pastor que vive de explorar o rebanho de sua igreja. Não é todo jornal que não é compromissado com a verdade. Não é todo político que está na vida pública para se enriquecer. Há sim um grande número de políticos assim, mas generalizar é um raciocínio torto.

O país vive um momento sem igual em sua história no que diz respeito à corrupção, é lama e mais lama eclodindo a todo instante nos órgãos públicos. Fato que, portanto, aumenta ainda mais a descrença das pessoas para com a classe política. Só que essa descrença não pode afastar as pessoas da vida política. Ocorrendo isso, acontece o que Brechet disse: ” (…) nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais”.

A solução que os milhões de brasileiros foram cobrar nas ruas neste domingo passa exclusivamente por ações políticas. Se a Justiça está colocando muita gente graúda na cadeia por envolvimento com corrupção é porque existem leis no país que permitem tal coisa. O juiz Sérgio Moro, que foi muito citado elogiosamente nas manifestações de domingo,  estaria de mãos atadas sem estas leis. E as leis, vale ressaltar, não surgem sozinhas, elas possuem autores. Por trás da autoria delas, existem o Poder Legislativo, que é composto por senadores, deputados, vereadores. O critério na escolha é que permite ao eleitor uma melhor opção por um parlamentar.

Sinésio Dioliveira é jornalista e professor de português

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