A pretexto de um inventário existencial
Redação DM
Publicado em 7 de janeiro de 2017 às 01:29 | Atualizado há 10 anosA certa altura da vida é preciso manter em dia nosso calendário existencial. Principalmente quando nos aproximamos da idade provecta e assim passamos a ocupar a sala de espera a fim de viajarmos para o além. Talvez essa viagem definitiva signifique para o ser humano a almejada felicidade, passando deste mundo caótico à ordem cósmica que já está insculpida no seu espírito como reflexo da harmonia reinante no universo.
Objeto de espólio
Enquanto vivemos (e agimos) como sujeitos de nossos próprios atos, temos o direito de fazer nossas escolhas, tanto objetivas quanto subjetivas. Depois que nos transformamos em objeto de espólio, talvez só interessemos aos nossos semelhantes como autor ou autores de uma herança conforme os bens materiais que tenham ficado em nosso nome. Segundo Maquiavel – célebre autor de “O Príncipe” – o ser humano esquece antes a morte dos pais do que os bens por eles deixados.
Bem- aventuranças
Seria feliz aquele que pudesse herdar também do mesmo autor da herança, os valores da subjetividade ou da espiritualidade, representados nas lições de Cristo, que elegeu como bem-aventurados os pobres de espírito, os puros de coração, os brandos e pacíficos, os misericordiosos, enfim os aflitos que, nesta experiência terrena – expiando o seu passado existencial – evoluem espiritualmente para angariar o prêmio da bem-aventurança na vida futura.
Inventário de ideias
Seria o caso de fazermos, também, o inventário de nossas idéias, para as deixarmos a quem pudessem interessar, mas a experiência existencial é personalíssima e aparentemente não se transmite a ninguém. Dessa forma, não pretende este inventariante passar lições de vida – já que a vida é uma aventura de cada um – até porque nossa existência é cíclica e só vale para cada qual segundo os valores do seu próprio tempo.
Lírica desordem
O que significa, então, colocar em dia o nosso calendário existencial? Seria fazer, em tempo hábil, tudo aquilo que deixamos de fazer em cada fase de nossa vida? Carregamos débitos com nós mesmos, ao passarmos da infância para a adolescência e da juventude para a maturidade. O fato é que vivemos anarquicamente nossas emoções, indiferentes ao sentimento do bem e do mal, afetando a nós mesmos ou ao nosso próximo. E a vida quase sempre nos usa como personagens de suas singularidades, nessa lírica desordem. E por que não usamos a própria vida em função da nossa ordem interior, já que nosso destino final é a ordem cósmica?
O estado de graça
De qualquer forma, deixamos algum legado material ou imaterial aos nossos sucessores, já que no processo evolutivo herdamos uns dos outros influências positivas ou negativas que passamos a cultivar na nossa trajetória existencial. No universo harmonioso e múltiplo, não estamos sós: somos todos herdeiros uns dos outros como parte do existente em conjunto. Quando nos elevamos do mundo imanente ao mundo transcendente, tudo o que desejamos é a paz de espírito. Da paz de espírito vem o nosso estado de graça. Esse estado de graça, que chamaríamos de poesia como expressão do nosso ser, é o melhor legado que podemos deixar aos nossos semelhantes.
Herança espiritual
A espiritualidade bate à nossa porta
e insinua que é a dimensão maior da vida .
Apesar dos prazeres do mundo,
apesar dos apelos do corpo,
apesar dos amores da vida.
A espiritualidade vem pelas mãos de nossa mãe,
assim como a vida vem pelo ventre de todas as mães.
Apesar do acaso das vidas,
apesar dos desvios do ser,
apesar da incerteza de tudo.
A espiritualidade nos convida a contemplar o tempo,
a contemplar o espaço, a ouvir as divindades ocultas.
Apesar das ruínas da história,
dos escombros das guerras,
da estupidez dos homens.
(Emílio Vieira, professor universitário, advogado e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa – E-mail: [email protected])