Brasil

A razão e a loucura dão máscaras à alma

Redação DM

Publicado em 31 de maio de 2017 às 03:00 | Atualizado há 9 anos

“O espírito moderno, com sua inquietude e ódio aos limites chegou ao domínio de todos os planos, desenfreado pela Revolução, retomando o freio pelo medo e o horror de si próprio” (Nietzsche)

 

O homem ainda se percebe enquanto espécie animal que resiste ao planeta. Montado em matéria, nasce, desaparece da realidade exposta na ilusão perecível que este mundo velho o é. Move-se a fagulha de luz iluminado por sua sabedoria abstrata. Coletivizado, estrutura-se a partir de grupos – quando alcança o status sociopolítico de homens – os quais se tornam, a cada dia, torres urbanas a impor no horizonte da existência a sombra fria de uma moral escondida na arte da camuflagem de retratos e máscaras a brincar no varal da ética. Estas expõem manchetes rostos em jornais que alardeiam incontáveis histórias de vidas à sombra das vaidades e na beira do precipício destes tempos hediondos e modernos. Sujeitos esbeltos e midiáticos, mentirosos e gestores, engravatados e ariscos, santos e diabos a dar fôlego ao sacerdote ao tempo que ignoram, (in) capazes de (re) pensar a (re) cria das mazelas sociais, o profeta que anuncia a revolução: “Sou apego pelo que vale a pena e desapego pelo que não quer valer” (Clarice Lispector).

O perigo em carne e osso, ou profeta, é aquele que em terra de iletrados propõe escrever uma verdade que caiba na metade de um parágrafo esboçado a mentiras. É rei, mesmo que a partir de sua falácia maior exposta ao mundo moderno na forma da existência formal-abstrata, sem doce nem sal, fria ou ao calor do macho que bebe o sexo da fêmea. Ao banhar a alma na fonte límpida da razão, lava seus pecados trazidos do poço de um inconsciente extraordinário. Irreal, sua (in) consciência mal caminha por entre sonhos e pesadelos dos mortos vivos moldurados em meio ao mosaico da covardia que dá forma e coragem aos famintos delatados no espelho da ética de centavos e conchavos a espalhada corpos feito conchas na areia da praia urbana, a qual, em cada esquina, alimenta o mercado, perfila a trupe consumista alucinada nas mãos tinhosas do sistema. São senhores que marcham num pé só e sem rumo, perdidos, a buscar – sem saber – a esperança perdida no Oriente.

A exclusão nasce na fronteira da fome antropofágica da carne crua lavada a realidade, sonhos, sangue e suor. “Para os homens da tribo, as palavras são como a água que deve passar de mão em mão, com o maior cuidado, para que nem uma gota se perca” (RIESMAN). A força da vida simples recarrega suas baterias na fonte da energia cósmica, efêmera, abastece a alma no fluído das culturas nativas roubadas na forma de fruto, folha, caule e raiz. Os forasteiros falastrões, ainda hoje, descobrem, colonizam e matam – por meio da guerra – continentes inteiros, suas mentiras tornam-se verdades expostas a mais que duas línguas, como a do alimento transgênico consumido que consome o corpo. Desde os primórdios, a boca banguela voraz e faminta clama a baixo tom por justiça, equidade e igualdade. A máquina a vapor revolucionou o escambo, produziu a exclusão em série, na pós-modernidade encarrega-se de dar cova rasa ao destino de egos vazios.

Cego e ao longe o transgressor prescreve a agressão, varia com febre no funil das crueldades: “Não havia em mim nenhuma vontade. Não havia nenhum significado. Apenas a existência. O vir-a-ser e o ser eram a mesma coisa” (FOWLES). A sociedade dá mais que um sentido à palavra sem cuspe, disseca e torna vil a multidão transfigurada, engrossa o cordel da massa trabalhadora desempregada, ameaça atirar na cisterna rasa a crença no algo a partir da gota de vontade a alavancar a força de vidas sem pulso. A carretilha da moral, emperrada, traz à tona da existência um balde vazio em ética a derramar ilusões e reflexões pós-modernas eletrônicas, tão antigas como a cantiga da roda d´água a mover o monjolo do pensamento abandonado numa gaiola por medo de voar.

Sem saber de que lado opera, anêmico, o Estado de Bem-Estar pretende o “band aid” social a tampar feridas expostas de um coletivo deserdado no berço em seus direitos, alguns deles humanos. A corrupção alimenta de sua própria falácia, promove o “evento de organização hierárquica que não passa de simbolismo, que a rodeia, não se exprime, reforça-a, aumenta-lhe a rigidez, contribuindo para aperfeiçoar a subtileza” (ROCHER, 2004). A máscara do sistema burguês esconde a verdade da produção a reter e acumular riquezas de um dono só. O velho bolo neoliberal proposto na década de 1970 – a miséria da razão – realiza o milagre da antropofagia social, a sociedade carcomida sobrevive de migalhas e favores das elites. Cresce a desilusão e enganação a espalhar pela periferia a fé caolha, a luta de classes conjuntural que favorece as castas.

Desde a primeira revolução industrial, ferro, gente e fogo dão cheiro às chaminés que queimam seus restos no calor malcheiroso da irresponsabilidade social, imoral, latente. A ilusão eletrônica cabe, assim como a esmola, na palma da mão. Matar um leão a cada dia – mesmo sem forças para enfrentar a fome – é tarefa do homem armado do estômago a roncar, sujeito social que sobrevive numa arena limitada, à égide de um mundo global e estranho, definido pelo tribunal do poder de fato e do não poder de consumo. A incógnita dá conta, a cada segundo e nas redes sociais, da próxima façanha (des) humana viral nas telas frias de computadores, TV’s, telefones e mídias que falam e contam ao resto do mundo da solidão acuada no prozac e da cegueira rentável que toca a promessa a partir dos templos de R$ 1,99.

O mundo ideal, em desuso, travestiu-se em moderno quando a opção do ter menos, ser menos, desejar menos do que a realidade atribui à boa pessoa de caráter cabe na mala daqueles que (não) representam a Nação, ou, os politiqueiros da vida fácil imaginada às elites a partir do roubo do milhão, a definir as qualidades enfraquecidas de um povo o qual busca nas profundezas da mente a possibilidade de um milagre a fazer renascer um titã como Mirabeau.

E o pulso, ainda pulsa!

 

(Antônio Lopes, escritor, filósofo, mestre em Serviço Social/doutorando em Ciências da Religião/PUC-Goiás, mestrando em Direitos Humanos/UFG)


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