A tocha olímpica e o mito de Prometeu
Redação DM
Publicado em 6 de maio de 2016 às 03:24 | Atualizado há 10 anos
Nos últimos dias 4 e 5 de maio, o Estado de Goiás recebeu a tocha olímpica em sua capital e em algumas cidades do interior, num evento que simboliza a pré-abertura dos 31º Jogos Olímpicos da Era Moderna, que terá lugar na cidade do Rio de Janeiro no próximo mês de agosto. Dentre as simbologias possíveis do ato de carregar-se a tocha olímpica, está o da união dos povos sob um único ideal de fraternidade acima de ideologias e crenças que têm, sobretudo nos últimos tempos, dividido o mundo e o Brasil de forma bastante intensa e antifraterna. O gesto, portanto, tem como simbologia máxima nesse momento o retorno a essa perspectiva mais fraterna em prol de um bem comum.
A história mitológica desse cerimonial tem suas raízes na riquíssima composição de mitos da Grécia Antiga. Mais especificamente, no mito de Prometeu. Igual à maioria dos mitos, a narrativa em torno dessa personagem possui variações. Dois autores helenistas clássicos, Hesíodo e Ésquilo, escreveram sobre Prometeu. Tanto em Os Trabalhos e Os Dias, do primeiro autor, quanto em Prometeu Acorrentado, do segundo, o titã Prometeu é apresentado como o personagem que roubará o fogo do Olimpo, a morada dos deuses sob a égide de Zeus, para doá-lo à humanidade.
A partir dessa doação, os homens passam a diferenciar-se dos animais, apresentando um desenvolvimento cognitivo extraordinário em relação a eles, desenvolvendo com a nova habilidade as mais variadas técnicas conducentes à civilização. Zeus, o mais poderoso deus olímpico, resolve punir a ousadia de Prometeu, acorrentando-o a um grande penhasco. Ao longo dos séculos, o titã conhecerá o suplício de ter o seu fígado bicado todas as noites por um abutre gigante. Como punição, o órgão se recomporá durante o dia para voltar a ser ferido na noite seguinte, num suplício interminável.
Curiosamente, numa estranha articulação entre mito e realidade, o fígado é o único órgão vital que tem o poder de regenerar-se, o que faz pensar na genialidade que caracterizou o período helenístico da civilização. Em Os Trabalhos e Os Dias, Hesíodo apresenta outra faceta da punição de Zeus através da criação de Pandora. Como uma forma de compensação pelo fogo roubado, o maioral do Olimpo dá um mal aos homens na forma de uma belíssima mulher que leva à humanidade uma caixa que quando aberta espalha todas as mazelas possíveis de sofrimento, que são acrescidos ao mal maior, a mortalidade humana.
“Do mito ao símbolo”
A passagem da tocha olímpica em qualquer localidade, simboliza, pois, toda a saga humana em torno do mito de Prometeu e o fogo roubado aos deuses e doado ao homem. Os atletas que ao longo das várias edições dos jogos olímpicos correram segurando a tocha são pequenas representações simbólicas do titã Prometeu, pois representaram com aquele gesto as vitórias, através da superação, de verdadeiros deuses do atletismo, cujas performances sempre estiveram, estão e vão estar muito acima da média do comum dos mortais.
No entanto, um olhar mais aproximado sobre aqueles que empunharam e empunham nesse momento o fogo sagrado, representativo da competitividade máxima do esporte internacional, revelará simbolismos muitas vezes insuspeitos. É o caso, por exemplo, de um dos participantes encarregados de empunhar a tocha das Olimpíadas em Goiás. No último dia 4, o ex-atleta da Seleção Brasileira de Futsal de Surdos, Hiram Alcântara, foi um dos 448 convidados pelo Ministério do Esporte para percorrer o trajeto evocativo da superação da humanidade sobre as limitações impostas pelos deuses, que nos dias atuais responderiam pelo nome de destino.
Bicampeão Pan-Americano e Sul-Americano pela modalidade a que dedicou duas décadas de sua vida, Hiram Alcântara representa um instigante exemplo de superação de condições adversas apresentadas pela vida, simbolizadas nas mazelas contidas na malfadada caixa de Pandora que Zeus enviou à humanidade com a finalidade de puni-la. Servidor da Procuradoria-Geral do Estado de Goiás, Alcântara soube servir-se do fogo que Prometeu tirou dos deuses para doar aos homens para compensar os males de Pandora e sua caixa, ou jarra, conforme a tradução disponível. Assim, empunhar a tocha olímpica é um gesto carregado de significados simbólicos profundos, que vão muito além do esporte meramente competitivo. Pode ser, sobretudo, uma grande lição de vida.
(Gismair Martins Teixeira, doutor em Letras e Linguística; professor do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte, da Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esporte)