Brasil

A verdadeira escala da ameaça

Redação DM

Publicado em 28 de junho de 2015 às 08:15 | Atualizado há 11 anos

Nos últimos anos, os efeitos do choque se tornaram familiares. Há a descarga inicial ao ouvir a notícia de outro ataque terrorista, seguida por uma sensação de pavor: quantas pessoas perderam suas vidas desta vez? A velocidade com a qual as imagens aparecem na TV e nas redes sociais significa que mal temos tempo para nos preparar. Conforme os detalhes começam a emergir, é impossível não sentir uma mistura de emoções, incluindo raiva, medo e uma espécie de simpatia impotente pelas vítimas.

O choque que muitas pessoas sentem diante de eventos como esses é justificado: é o que nos divide dos indivíduos que cometem tais atrocidades. Mas o choque também pode ser paralisante, criando uma sensação de impotência. Medo e paralisia são o objetivo desses ataques: eles têm como meta destruir nosso senso de proporção, exagerando o poder de organizações como o Estado Islâmico e a al-Qaeda. O Estado Islâmico reivindicou a responsabilidade pelos ataques de sexta-feira, mas essas alegações devem ser tratadas com cautela: o grupo também assumiu a autoria do massacre no Museu do Bardo em Túnis em março, mas o governo tunisiano acredita que uma facção da al-Qaeda seja a verdadeira responsável.

Organizações terroristas islamistas se assemelham a franquias a quais indivíduos podem aderir em níveis diferentes. Alguns seguidores são recrutados em mesquitas ou pela internet, mas a ideologia de violência sádica também atrai psicopatas e pessoas rancorosas.

A empatia é uma das razões pelas quais nos sentimos tão abalados pelas histórias das vítimas dessas ações horrorosas. Mas a empatia é exatamente o que os jihadistas tentam destruir, apelando ao lado negro da natureza humana que as sociedades civilizadas se esforçam para suprimir. Em agosto passado, quando o vídeo da decapitação de um jornalista americano surgiu na internet, sugeri que a imprensa não deveria publicar imagens dele. Estava convencida de que o EI estava engajado num exercício calculado de choques visuais cada vez maiores, o que provou ser verdade desde então. A outros vídeos de decapitação se seguiram o de um piloto jordaniano sendo queimado vivo e uma gravação debaixo d’água de homens desesperados se afogando em uma jaula.

O EI continuará produzindo esse tipo de propaganda do horror enquanto ela tiver audiência. E entre os espectadores estarão jovens que se excitam tanto com violência sádica quanto com extremismo religioso.

Não acho que devamos nunca deixar de nos horrorizar por ataques como o de sexta-feira, mas devemos manter claridade sobre a natureza e a escala da ameaça. Os jihadistas odeiam todo mundo, mas eles não são a Alemanha nazista. Eles vão fracassar porque tudo que têm a oferecer é crueldade e morte.


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