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Advogada de Goiânia denuncia grupo xamânico por uso ilegal de veneno de sapo

Após viajar até São Paulo para participar de ritual, advogada acusa grupo xamânico de aplicar veneno de sapo proibido no Brasil sem aviso

Sapo Bufo (Foto: Reprodução/Wildfeuer/WikimediaCommons) Sapo Bufo (Foto: Reprodução/Wildfeuer/WikimediaCommons)

Gabriela Augusta Silva, uma advogada de Goiânia, decidiu viajar para São Paulo em 21 de outubro de 2021 para participar de um ritual xamânico. Durante a cerimônia, ela foi submetida a uma sessão envolvendo o uso de uma substância conhecida como Bufo alvarius, extraída de um sapo, com o intuito de aprofundar sua jornada espiritual.

Em uma entrevista ao G1, Gabriela compartilhou que, após inalar a substância, perdeu a consciência e acordou aproximadamente 30 minutos depois. Após o uso dessa substância, proibida no Brasil, ela passou a enfrentar crises de pânico, ansiedade, surtos psicóticos, problemas respiratórios e pensamentos suicidas.

Gabriela estava passando pelo processo de luto pela perda de seu irmão, que faleceu em um acidente de carro em 2017. Em busca de uma conexão mais profunda com o divino, ela foi encorajada por um dos membros do grupo a experimentar o veneno do sapo pelo preço de R$ 1.300 em uma sessão individual.

Ao compartilhar os problemas que estava enfrentando após o uso da droga psicodélica para o fundador do grupo, ele enviou um áudio pedindo para que ela não perdesse a confiança e sugeriu que acendesse velas e tomasse banho de ervas.

Anteriormente, Gabriela nunca havia enfrentado problemas de saúde mental, mas como resultado dessas experiências, ela foi hospitalizada em uma unidade neurológica, começou a consultar um psiquiatra e a tomar medicamentos controlados.

Foi apenas quando procurou um médico que descobriu que a substância utilizada, chamada 5-MeO-DMT, é um psicodélico listado como proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Após descobrir que a substância era proibida no Brasil, a advogada decidiu compartilhar sua experiência nas redes sociais. Para sua surpresa, muitas pessoas relataram vivências semelhantes, o que gerou uma ampla repercussão. Como resultado desse episódio, ela recebeu outro áudio do fundador do Xamanismo Sete Raios, pedindo desculpas por não conseguir estar completamente envolvido em todos os processos do grupo, incluindo aqueles relacionados ao bufo.

O veneno do sapo Bufo alvarius (agora chamado de Incilius alvarius), encontrado apenas no México e nos Estados Unidos. Para ser utilizado, ele é extraído e seco, sendo posteriormente fumado em rituais e cerimônias consideradas religiosas e espirituais tanto no exterior quanto no Brasil, liberando o 5-MeO-DMT e outras substâncias.

Grupo Xamanismo Sete Raios

O grupo Xamanismo Sete Raios, localizado em São Paulo, foi fundado por Felipe Rocha, autointitulado terapeuta holístico e xamânico. O grupo possui uma base significativa de seguidores, com mais de 200 mil no Instagram, 9,5 mil no Facebook e 2,5 mil no YouTube.

Em suas publicações, o grupo aborda temas como espiritualidade, autoconhecimento e cura, utilizando métodos utilizados pelos xamãs indígenas. Um dos métodos mencionados é a cura por meio da Ayahuasca. Além disso, eles promovem sessões terapêuticas presenciais que envolvem técnicas como defumação com ervas, orientação espiritual, tarô xamânico, harmonização energética, meditação com tambor, banho com ervas e uso de instrumentos vibracionais.

Entre seus cursos, retiros e vivências, o grupo promete proporcionar uma imersão na sabedoria ancestral e nos ciclos da natureza. Não há menção ao uso da substância do sapo, apenas à consagração de “plantas do poder”.

No entanto, conforme divulgado pelo G1, um membro do Xamanismo Sete Raios compartilhou uma foto com outros participantes, intitulando-a como “Família Bufo Alvarius”.

Relatos de participantes indicam que durante os eventos e nas comunicações virtuais, os integrantes do grupo se referiam ao veneno do sapo como "medicina". Eles também enviavam um panfleto explicativo sobre o "bufo" e afirmando que poderia curar doenças físicas, mentais e emocionais. Uma pessoa que utilizou o bufo relatou ter pago R$ 700 para participar de um ritual no qual a substância foi administrada em 2021.

“Olá, irmãos de jornada. Essa é uma das experiências mais poderosas que uma pessoa pode ter em nossa caminhada terrena e, muitas vezes, proporciona abertura e revelação de estados profundos de conexão com a Fonte, além de alinhamento de Eu Superior, coe reconexão com o propósito da alma. Uma sessão eficaz pode resultar na abertura de energias reprimidas e gerar uma variedade de sentimentos, como abertura, desapego, catarse, liberação, cura, lembranças, reunificação, confiança, amor e bem-aventurança, entre tantos outros. A jornada é individual, porém, Una. Não há objetivo, não há esforço, não há certo ou errado; a jornada de todos para a mesma verdade central é única. A melhor prática é confiar em si mesmo e no processo”, diz um trecho do panfleto enviado para participantes.

De acordo com uma reportagem do G1, que entrevistou pessoas que participaram de rituais com o uso da substância promovidos pelo Instituto de Vivências Xamânicas Xamanismo Sete Raios, os participantes não foram informados sobre a ilegalidade da substância, não assinaram nenhum termo de responsabilidade e não receberam acompanhamento após as sessões. O Instituto informou aos participantes que os efeitos adversos após o uso eram considerados “normais”.


		Advogada de Goiânia denuncia grupo xamânico por uso ilegal de veneno de sapo
Panfleto enviado pela Internet para participantes (Foto: Reprodução/G1). Sabrina Oliveira

Versão do grupo Xamanismo Sete Raios

O Instituto Xamanismo Sete Raios, por meio de seus advogados, declarou que nunca teve a intenção de incentivar ou promover o uso social, ou terapêutico de substâncias, nem substituir práticas de saúde. Eles afirmam que sua abordagem é exclusivamente ritualística e religiosa, com propósitos espirituais.

Segundo o instituto, no final de 2019, receberam a visita de um suposto líder espiritual que trouxe do México a substância 5-MeO-DMT, extraída do sapo Bufo alvarius, e conduziu dois rituais com a presença de membros do grupo Xamanismo Sete Raios.

Na época desses eventos, os representantes do instituto afirmam que não tinham conhecimento sobre a discussão da legalidade do Bufo alvarius no Brasil, conforme mencionado na nota.

O instituto nega qualquer associação com rituais desse tipo posteriormente. No entanto, relatos colhidos pela reportagem indicam realizar sessões com suposto uso do psicodélico em 2021.

A nota enfatiza que “alguns membros do instituto, de forma independente, prosseguiram com estudos e rituais individuais envolvendo o Bufo alvarius”, mas esses rituais não possuíam ligação com as atividades do Instituto Xamanismo Sete Raios, nem com suas práticas religiosas. O grupo também acusou Gabriela e outro participante de perseguição religiosa. (Veja nota no final da íntegra e esclarecimento publicado no Instagram)

Investigações

O grupo Xamanismo Sete Raios está sendo investigado pela Polícia Civil de São Paulo por suspeita de envolvimento com tráfico de drogas. O Departamento de Investigações sobre Narcóticos continua realizando diligências para esclarecer os detalhes dessa investigação em andamento.

Além disso, outro inquérito foi instaurado para investigar a prática de curandeirismo, mas acabou sendo arquivado por falta de provas substanciais.

Gabriela decidiu entrar com uma ação buscando reparação de danos materiais e morais contra o instituto. Seu advogado, Auro Jayme, alega que o grupo pode ter cometido crimes como charlatanismo, uma vez que anunciam curas por meio de um método secreto e infalível, e curandeirismo, por supostamente prescreverem, administrarem ou aplicarem a substância habilidosamente.

Conforme o advogado de Gabriela, o grupo manipula as pessoas mediante um discurso religioso presente nos rituais, no qual prometem curas. Além disso, ele ressalta a importância de investigar a origem da substância em questão. Há indícios de que essa substância ilícita seja proveniente do México, e é necessário averiguar se realmente vem desse país, quem a transporta, como ocorre esse processo e se há um possível envolvimento em tráfico internacional de drogas, de acordo com a entrevista cedida ao G1.

NOTA

O Instituto de Vivências Xamânicas Xamanismo Sete Raios, fundado em São Paulo, é uma associação religiosa, legalmente constituída e em respeito a Resolução n.5 de 2004, do Conselho Nacional de Políticas Sobre Drogas. Idealizado e fundado pelo Terapeuta Holístico Felipe Rocha (CRTH4074), o Instituto já realizou dezenas de encontros em contexto religioso e ritualístico, nos quais a cultura dos povos originários e as práticas tradicionais de autoconhecimento são enaltecidas dentro do ambiente urbano. A instituição jamais teve ou tem como objetivo incentivar ou promover o uso social ou terapêutico de substâncias ou, ainda, a substituição de práticas de saúde, tratando-se exclusividade de abordagem de caráter ritualística e religiosa, com finalidades espirituais.

A título de esclarecimento, no final do ano de 2019, o Instituto recebeu a visita de um líder espiritual mexicano que trouxe a substância 5-MeO-DMT, extraída do sapo Bufo Alvarius, utilizada tradicionalmente em rituais religioso naquele país e sendo uma substância também presente na Ayahuasca, cuja prática ritualística e religiosa é devidamente reconhecida pelo Estado brasileiro. O referido líder espiritual conduziu então dois rituais com a substância mencionada com a presença de membros do Instituto, sendo que à época dos eventos, os representantes do Instituto não tinham conhecimento da discussão acerca legalidade do Bufo Alvarius no Brasil. Após esses encontros e o aprofundamento do estudo sobre a substância, o Instituto não teve mais qualquer associação a rituais como esses.

É fundamental esclarecer que alguns membros do Instituto, de forma independente, deram continuidade aos estudos e rituais individuais com o Bufo Alvarius, cujos efeitos terapêuticos vêm sendo amplamente estudados pela comunidade científica, no Brasil e no mundo. Esses rituais não tinham vinculação com as atividades do Instituto Xamanismo Sete Raios, tampouco com suas práticas religiosas.

Na sua posição de estudioso das substâncias psicodélicas e do seu reconhecido potencial terapêutico, o dirigente do Instituto se utiliza do termo “Medicina” para se referir às substâncias naturais utilizadas em contexto ritualístico. Inclusive, o termo “medicinas da floresta” é o termo largamente utilizado pela comunidade indígena e seus estudiosos e por grupos religiosos ligados ao Xamanismo.

O Instituto está ciente das descabidas alegações feitas por um grupo específico de pessoas, que, vale mencionar, possuem todos vínculos amorosos e/ou familiares e que participaram ativamente e voluntariamente não só nos rituais mencionados, como em outros e nas próprias atividades do Instituto. Inclusive, as pessoas citadas já haviam participado de rituais com Ayahuasca anteriormente à relação com o Instituto, sendo descabidas as alegações de desconhecimento.

A pessoa de Gabriela Silva, que agora pretende se apresentar como vítima, era cliente do dirigente do Instituto, na sua condição de terapeuta integrativo devidamente credenciado e habilitado. Por esta razão, após a alegada experiência da denunciante como Bufo Alvarius, Felipe entrou pessoalmente em contato com ela para orientá-la, postura que foi validada e agradecida pela advogada. Vale ressaltar que qualquer argumentação de desconhecimento da Lei por parte dela deve ser rechaçada, uma vez que, como mencionado, é advogada, devidamente habilitada pela OAB/GO, com especialização na renomada Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e diante de sua profissão e especialização, jamais poderia alegar desconhecimento da Lei. Seu companheiro, Rafael Verçosa, foi membro e facilitador de rituais, inclusive, sendo fato que conheceu Gabriela durante um dos rituais e foi a pessoa que a incentivou a participar da prática religiosa como Bufo Alvarius.

O Instituto afirma que as pessoas mencionadas deram início a uma lamentável perseguição religiosa contra as práticas de fé do Xamanismo Sete Raios, e que essa atitude criminosa será oportunamente denunciada à Justiça. Há provas de que tanto a Gabriela quanto seu companheiro, Rafael Verçosa, aderiram a um conservadorismo religioso feroz, que culminou com uma série de acusações inverídicas contra o Instituto e suas práticas religiosas. Além disso, há indícios também de uma tentativa de concorrência empresarial - que vale dizer, é inexistente, tendo em vista a diferença entre a natureza jurídica das organizações -, uma vez que o casal possui uma empresa - com fins lucrativos - que explora vivências na Amazônia, com povos originários, denominada “Retiros com Propósito”. Nesse sentido, eles também procuraram um dos membros do Instituto para levar o Bufo Alvarius para essas vivências, em Goiás, tudo conforme provas produzidas e que serão oportunamente apresentadas à Justiça.

O Xamanismo Sete Raios é uma fundação religiosa que reverencia e apoia diretamente a cultura originária e os povos da Amazônia, num trabalho de fortalecimento da sabedoria ancestral - há séculos perseguida e vilipendiada pelo conservadorismo religioso. A denunciante claramente está utilizando a estrutura judiciária e os veículos de mídia para empreender uma cruzada pessoal contra uma instituição religiosa, motivada por questões de ordem pessoal e por restrições de crença. No mais, toda e qualquer falsa acusação será tratada devidamente perante à Justiça."


		Advogada de Goiânia denuncia grupo xamânico por uso ilegal de veneno de sapo
Foto: Instagram/XamanismoSeteRaios. Sabrina Oliveira


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