Afinal, quanto vale a Celg?
Redação DM
Publicado em 17 de agosto de 2016 às 03:19 | Atualizado há 10 anosÉ oportuno o debate sobre quanto vale as companhias energéticas no Brasil. Nesse contexto, a CELG Distribuição( de Goiás) pode ser a pioneira a ser privatizada no atual momento.A recente publicação do Edital de privatização da empresa sinaliza a vontade política do atual governo nessa direção. Veja-se, a seguir, uma análise técnico-política em torno da venda do maior ativo do povo de Goiás .
Modelos de projeção nada mais são que simplificações da realidade que a matemática quantifica. Os modelos contêm hipóteses que, se configuradas, expressam uma realidade.
O ideal no tocante aos modelos de projeção é que nestes sejam construídas duas realidades contrastadas para que se possa, assim, expressar com precisão situações otimistas e pessimistas da realidade que se deseja conhecer. Uma terceira situação aconselhável é que o status quo seja projetado para o futuro, o que significa que o futuro repetirá o passado.
No tocante ao cálculo do valor de uma empresa, a metodologia mais aplicada é a do fluxo de caixa descontado. Nesta, projeta-se as expectativas de receitas e despesas futuras. O modelo deduz as receitas dos custos, faz isso ano a ano e traz, através de técnicas de matemática financeira, para o ano de referência, este nada mais é do que a data que se deseja saber o valor da empresa. Ao somar ano a ano na data de referência, chega-se, enfim, ao conhecimento de quanto vale a empresa.
No caso do setor elétrico brasileiro, o horizonte de projeções coincide com o prazo de concessão que o governo permite aos proprietários para que possam, assim, explorar o insumo energia elétrica, insumo este de vital importância no mundo moderno. O valor da empresa será a soma da diferença entre receitas e custos no horizonte de 30 anos.
O acima exposto conduz a uma importante conclusão: a de que o valor de uma empresa será flexível. Se o cenário for otimista, terá um valor; se pessimista, o valor será completamente diferente.
Feita esta explanação, agora, podemos focalizar o assunto que interessa se discutir com a sociedade brasileira a respeito de uma pergunta que merece resposta: afinal, quanto valem as distribuidoras federais? Quanto vale a CELG? Para responder a essa última indagação se faz necessário que retornemos, via túnel do tempo, a um ano específico: 1998. Projetou-se os dados dos Balanços patrimoniais publicados da empresa para o futuro o mais próximo possível da data de vencimento da concessão.
Vale ressaltar que a importância, nessa época, era o rastro da hecatombe populista que já tinha manifestado um alto preço a pagar: o da privatização da Usina Hidroelétrica de Cachoeira Dourada. Como é do conhecimento de todos, a venda de Cachoeira foi o preço que a população pagou pelos sobreinvestimentos colocados no sistema elétrico e, como em economia não existe “almoço grátis”, o preço a pagar refletiu no valor da empresa que, na época, já era negativo.
Veio um novo governo e esperava-se uma mudança de rumo. É aí que esse escriba entra em cena. Naquela época, procurando fornecer subsídios ao novo governo que se iniciava, usei a metodologia do fluxo de caixa descontado com objetivo de calcular o valor da CELG, cujo desequilíbrio econômico-financeiro corroía diariamente o valor da empresa.
Utilizei uma metodologia de cálculo econômico-financeiro para chegar a conclusões consistentes. O ano de referência usava o balanço de 1998. Os fluxos econômico-financeiros originados do Balanço Patrimonial(de domínio público) projetavam as possíveis futuras intenções — das mais otimistas as mais pessimistas — para o governo que ora se iniciava. Portanto, a partir de 1998, o valor da empresa muito dependeria das ações que futuros governos implementassem.
Como realidade pessimista, as hipóteses que alimentavam o modelo presumiam que o futuro repetiria o passado. Ou seja: a empresa continuaria amarrada às politicagens que dilapidavam seu patrimônio líquido. Nesse sentido, continuaria a reinar o que sempre nela reinara: empreiteiros, pacotes tecnológicos, consultorias milionárias, terceirizações às avessas, enfim: coisas como essas expressando, no fundo, o que sempre expressaram: o preço que os financiadores de campanhas políticas viam cobrar.
Numa situação otimista, a realidade seria completamente diferente. Nesta, os futuros governos enfrentariam os lobbies, desse modo, mudando radicalmente a cultura da empresa rumo à profissionalização.
Traduzindo em números, na situação pessimista, o valor da empresa aproximadamente – 5 mil reais (ou o real simbólico que queriam pagar por ela). Era a face de anos e anos trabalhando no desequilíbrio financeiro que corria o valor da CELG e transferia renda para mãos de terceiros. Por sua vez, na situação otimista, o valor da empresa chegaria a exatos dois bilhões seis mil novecentos e quarenta reais. Ou seja, o valor refletiria nada mais que a vontade política de se trabalhar em equilíbrio econômico-financeiro. Posto isso, creio que agora seja possível extrairmos importantes conclusões:
Primeira: quanto ao valor da CELG estar estipulado em 2,8 bilhões de reais. Isso seria uma verdade numa hipótese extremamente otimista, caso o dever de casa, o qual não foi feito em momento algum pelos governos, fosse expresso em vontade política no sentido de mudar radicalmente a cultura da empresa. E mudar a cultura da empresa significaria, antes de tudo, enfrentar lobbies que e estabelecer valores eminentemente meritocráticos. Será que o Estado brasileiro, tão acostumado ao patrimonialismo, metamorfoser-se-á? Paguemos para ver.
Segunda: o valor de uma empresa varia de acordo com as hipóteses que condicionam os modelos. Não seriam os dois bilhões de reais calculados para empresa atingir o equilíbrio econômico, valor tão próximo do aporte que terá de fazer o governo estadual para equilibrar a empresa, o preço que a sociedade de Goiás pagará por não terem os políticos feito o dever de casa no passado?
Concluindo: se, por um lado, a federalização da CELG refletiu no enfrentamento tanto dos lobbies dos empreiteiros quanto na minimização da força política em torno da empresa; por outro lado, persiste algo fundamental que não foi implementado, como é o caso das significativas mudanças culturais no sentido de construir uma estrutura ágil e profissionalizada. Só assim a empresa poderá elevar sua produtividade e obter ganhos de gestão. Creiam: o leilão com um preço mínimo em torno de 2,8 bilhões não reflete a realidade uma empresa em desequilíbrio econômico-financeiro.
(Salatiel Soares Correia, engenheiro, bacharel em Administração de Empresas, mestre em Planejamento Energético e autor, entre outras obras, de A Construção de Goiás)