Brasil

Agricultura dadivosa, dadivosa agricultura

Redação DM

Publicado em 9 de julho de 2016 às 02:27 | Atualizado há 10 anos

Mesmo com todos os percalços decorrentes do atoleiro econômico, escândalo do “Petrolão”, política agrícola de meia tigela, aumento da poluição afetando o clima, a agricultura prossegue dando provas sobejas de sua generosidade. A prova dessa generosidade pode ser constatada nas exportações, contribuindo com 40% do valor global exportado pelo país, numa época em que está a carecer de divisas, internação de capital, superávit financeiro, para equilibrar seu orçamento e voltar a crescer.

Tudo começou, na década de 70 do século XX, com a incorporação do cerrado no processo produtivo da nação. Constituído por dois terços das terras agricultáveis do país, jazia intocável, asfixiando as cidades por falta de progresso, servindo, apenas de pastoreio para o gado, na época da seca, após as queimadas, mormente os campos e veredas. Às vezes, se encontrava algum criador inovador teimoso, cultivando o capim-gordura, ou meloso, consorciado com arbustos do cerrado, no entanto, a produtividade era baixíssima. Todavia, a agricultura existente era de subsistência, feita nas terras férteis, onduladas, vendia para o mercado o que sobrava do consumo. As rodovias ou estradas acanhadas, inibiam o comércio, limitando as exportações. Ferrovias quase não existiam, quando presentes, eram de bitola estreita. Algo inovador tinha que acontecer para promover o aproveitamento da maior área de terras agricultáveis, planas, que é a região Centro-Oeste.

O que não passava de vago anseio, esperança, veio com a eleição de Juscelino Kubitschek à presidência da república, em 1955. Peregrinando país afora fazendo sua campanha, ao discursar na cidade goiana de Jataí, recebe de um genuíno filho da terra, o ainda hoje vivo e altivo, intimorato Chiquinho, a sugestão: Por que você não muda a capital do Brasil para o planalto central, já demarcado desde o Império? O discurso virou história, com o compromisso ali firmado, perante todos, de promover a mudança. Juscelino venceu logo em seguida as eleições e assim que empossado passou, de corpo e alma, a lutar pela consumação do compromisso, feito na cidade de Jataí, em resposta à pergunta do altivo e genioso Chiquinho, sentindo certamente, no âmago de seu espírito, a grandiosidade da obra, objeto da sugestão.

Brasília foi erigida e inaugurada pelo próprio presidente, cravando um marco indelével em nossa história. Para gaudio da grande maioria do povo brasileiro, ira de seus renitentes opositores, adversários implacáveis, rompia ele com a secular civilização do caranguejo, orla marítima, promovendo a segunda marcha para o oeste. A primeira, apenas de ocupação, também heroica, pois alargou nossas fronteiras do atlântico aos contrafortes dos andes, do arroio Chuí ao rio Oiapoque, fronteira com as Guianas, tornando-o o terceiro maior gigante das Américas: Pela ordem, Canadá, Estados Unidos e Brasil. Diversa da primeira, a segunda se realizava na segunda metade do éculo XX, com as imensas rodovias abertas, em caráter pioneiro pelo governo, até hoje inigualável, imbatível, sem sombra de dúvida, por tantos outros que o sucederam.

Não bastasse a construção num só governo na imensidão do planalto central, imortalizadora obra, consubstanciado a ela, começava algo inesperado, a incorporação do cerrado no processo produtivo do país. Enquanto a agricultura das terras de cultura, onduladas, de subsistência, era realizada de forma braçal, monocultura de baixa produtividade, a de ocupação dos cerrados, brotava fundada na mecanização agrícola, calagem do solo, adubação química, diversificada e alta produtividade, agregada a labuta do heroico produtor rural e a tecnologia coadjuvada pela pesquisa despontava uma agricultura moderna, sofisticada, que nada tem a dever ao primeiro mundo.

Com efeito leitor, de forma bastante diferente de miríade de políticos contratados pelo voto para bem servir a pátria, fazem o contrário, como lobo em pele de cordeiro, quase todos mamando no maior escândalo de corrupção do mundo, sujando nossa imagem lá fora, a agricultura do cerrado medrou ao longo de décadas, mesmo molestada por atos políticos mesquinhos, conduzida por pequenos, médios e grandes empresários altivos, de sobeja temperança, batendo recordes de produção e produtividade, erigindo o Agronegócio, contrapondo aos lobos, inimigos da república, projeta ele o pavilhão nacional, imagem límpida, sobranceira, perante as outras nações, aproximando, a cada ano, do anseio legítimo de maior celeiro do globo terrestre, ultrapassado, na atual conjuntura, apenas pelos EEUU, estes, há quase um século, liderando a produção mundial de alimentos. Houvesse os sucessivos governantes do “muda Brasil”, que mudou muito mais para eles, ocupantes do poder, do que para o sofrido povo brasileiro, adotado uma política agrícola como aquela dos idos de setenta, século XX, nosso país já teria alcançado a liderança, condição de maior celeiro do planeta terra.

Os milhões de agricultores brasileiros, seja do braço forte lavourista, seja do braço forte pecuarista, ao construírem, com maestria, determinação, o Agronegócio contribuíram, também, sobejamente, para a construção desse imenso parque industrial, criando mercado crescente, a cada dia mais sofisticado, de máquinas e equipamentos agropecuários, bem como, veículos transportadores da produção agrícola, silos, graneleiros para armazená-la, indústrias de processamento de toda a matéria-prima produzida e outra, ainda mais sofisticada, de refino, acondicionamento, embalagem para o mercado consumidor, tornando-a, na condição de geradora da riqueza, a galinha dos ovos de ouro, mola propulsora do progresso nacional, embora, por falta de uma política agrícola baseada na lei, realidade rural, burocracia esfaimada, venham eles, produtores, ainda hoje, plena aurora do terceiro milênio, sendo esbulhados pela intermediação gananciosa, por falta de ação dos mecanismos de controle afins.

Ao tornar viável, como compradora de bens sofisticados deste grande parque industrial, gera emprego, serviços em profusão, neste sentido passa a constituir o carro chefe do crescimento econômico, ora estagnado, com PIB abaixo de zero, outra vez, por culpa dos maus governantes, exercitando, praticando teimosamente, a subcultura patrimonialista. De forma que, em vez de pechinchar para multiplicar os benefícios a sociedade, faz o contrário, infra, superfatura, para abarrotar seus caixas dois.

Portanto leitor, a agricultura, mesmo castigada pela sujeira atmosférica, decorrente, principalmente, da queima de petróleo, o mais sujo do mundo, não bastasse a poluição do ar que respiramos, infernizando o meio ambiente, aduz-se a ela à sujeira moral de maus governantes, por falta de ética na política, em meio a todo este descalabro, é ela, sobranceiramente dadivosa como exaltava, já nos idos de nosso descobrimento, Pero Vaz Caminha em sua missiva carta ao Rei de Portugal: “A terra é boa, em si plantando tudo dá”, mesmo com o imenso rombo na camada de ozônio: 25 milhões de km², agora reduzidos, segundo cientistas, a serviço da ONU, em aproximadamente, 5 milhões de km², prossegue generosa com safras recordes, embora neste ano, tenha arruinado com a frustação da chamada safrinha, miríade de produtores de grãos, bem como a pecuária leiteira, prejudicando as plantações de milho e sorgo, para silagens.

Variando o assunto, caro leitor, os nossos Ministérios, no lugar de ocupados por deputados e senadores, que foram eleitos pelo povo para legislar, ludibriando a boa ou má-fé (no caso, voto subserviente-leniente) dos eleitores, tomam conta de todos, ou, quase todas as pastas, e ali, em sua maioria, passam a exercer suas funções, em busca da reeleição, contrariando princípio sagrado da democracia, de alternância, segundo Rousseau, filósofo mor do movimento Iluminista que levou a república indireta, diferente da original, direta, que lhe deu fama universal, quanto mais se alterna o poder, mais benefícios são carreados a sociedade eleitora, quanto menor a alternância, mais benesses são auferidas por eles, representantes eleitos pelo povo.

Fundado no artigo 14 da constituição, alínea III, a sociedade eleitora, como na lei ficha limpa, pode mudar tamanho abuso de poder, determinando aos governantes, na formação dos ministérios, a indicação de pessoas identificadas com a atividade de cada ministério, dotadas de cultura, mais ainda, cultura política ou técnica, integridade moral, garra, disposição para, certeiramente, ajudar o governante a governar com maestria, portanto, bem diferente do que vem ocorrendo, na atualidade, qualquer burro preto, desde que seja da mesma patota, ou partido de cooptação, indicado por aquela ou este, é nomeado ministro.

Continuando a agricultura dadivosa, saudemos, pois, eleitor, o agronegócio e os milhões de produtores que mourejam no sol, chuva, poeira e lama, verdadeiros heróis anônimos, carreando divisas, produzindo alimentos para a sociedade consumidora. Brasil, Brasil do Agronegócio, mesmo esbulhado, pelos corruptos, prospera graças a determinação de sua gente, em sua maioria, ainda, laboriosa e ordeira, parte integrante dela, formada de lavouristas, pecuaristas abnegados avivando a esperança de todos brasileiros.

 

(Josias Luiz Guimarães, veterinário pela UFMG, pós-graduado em Filosofia Política pela PUC-GO, produtor rural)

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