Brasil

Ainda Confaloni: o pintor e o homem

Redação DM

Publicado em 24 de outubro de 2016 às 23:57 | Atualizado há 10 anos

Em função da comemoração do centenário de Frei Nazareno Confaloni (foto) objeto de cogitações de uma comissão adredemente preparada sob coordenação de PX Silveira, julgamos oportuno trazer informações e subsídios que contribuam para uma visão histórica da múltipla produção desse grande artista italiano-brasileiro considerado mestre e pioneiro das artes visuais em Goiás.

O artigo que se segue não é da lavra deste escriba, mas reprodução em parte, de uma entrevista concedida por este autor ao jornalista Antônio Lisboa, publicada sob o título em epígrafe, no jornal O Popular de Goiânia, em 29 de junho de 1995, a propósito de uma exposição realizada em Goiânia na galeria Confaloni instalada no Centro Cultural Marietta Telles Machado, por iniciativa da Fundação Cultural Pedro Ludovico.

A exposição reunia obras das diferentes fases de criação do artista, pertencentes (segundo se registrou), ao acervo da artista plástica Sáida Cunha, cedidas em homenagem ao Frei Confaloni, ao tempo em que completava 18 anos de sua morte. Reporta o jornalista Antônio Lisboa uma observação  deste autor, de que há artistas que se destacam como autores, da mesma forma que existem artistas que se sobressaem como personalidades. Frei Nazareno Confaloni se destacara nas duas dimensões.

 

Homenagem póstuma

– “Frei Nazareno Confaloni despontou sob ambos os aspectos. A observação é do crítico de arte e professor de História da Arte e de Estética Visual do Instituto de Artes da Universidade Federal de Goiás, Emílio Vieira. Na condição de contemporâneo e amigo íntimo de Confaloni, o mestre comenta aspectos da obra e da personalidade do pintor, que é homenageado com a referida exposição de alguns dos seus quadros”.

Presente na base de formação da pintura acadêmica em Goiás – a partir da fundação da Escola Goiana de Belas Artes, em 1952, depois transformada em Faculdade de Arquitetura da UCG –, Nazareno Confaloni liga-se a nomes como Gustav Ritter, Maria da Costa, Luís Curado e Sofia Stein, entre outros. Para Emílio Vieira (conclui) “Confaloni é considerado um clássico moderno que soube fazer um verdadeiro sincretismo pictórico entre a tendência europeia e a inovação brasileira no campo da pintura”.

 

Evolução estética

Continua o articulista: “Nos anos 70, Emílio Vieira publicou um estudo comparativo entre a produção artística de Confaloni e Siron Franco. Da mesma forma que vê traços comuns entre a temática de Bernardo Élis e de Hugo de Carvalho Ramos, na literatura, o crítico detecta semelhança nas abordagens de Nazareno Confaloni e Siron Franco. Assim anota Emílio Vieira: Em Confaloni, a estética expressionista se manifesta na fase telúrica de sua pintura, como em Portinari. Volta-se para o social, subsistindo o sentimento neorromântico de fraternidade, igualdade e liberdade”.

– Desta forma, a deformação de imagens na fase expressionista de Confaloni emerge como um recurso visual. “Mas não na condição do ver, como acontece em Siron Franco. A imagem deformada em Confaloni é, antes, de um ser cristão, não deformado, apenas nosso irmão marginalizado pelo capitalismo.” Para Emílio Vieira, a obra do frade deve ser vista numa escala evolutiva que vai do clássico ao experimentalismo moderno. Há trabalhos inscritos nas vertentes impressionista, cubista, futurista e, principalmente, expressionista. Esta última marcou o momento mais rico de Confaloni, porque está voltada para a condição social e existencial do brasileiro.

 

A tendência expressionista

– Ao retratar Jesus Cristo agonizante e sendo retirado da cruz, Frei Confaloni buscou exprimir a opressão e a falta de liberdade vivida pelo povo brasileiro durante o período mais violento da ditadura militar. Da mesma fase, que vai de 1964 a 1970, é também a Madona com a qual Confaloni simboliza a mulher pobre, desesperançada e sofredora com seu filho nos braços. Outros quadros remetem ao homem simples do campo, flagelado e oprimido pelo sistema político então vigente. Por último, veio a fase das bonecas.

– “Ao compor suas personagens, Confaloni faz uma alegoria das crianças, portadoras de graça e inocência. Essa fase reflete a serenidade do artista propondo um momento de reflexão, referindo-se ao lado contemplativo da vida. Este é também um instante de grande riqueza da arte do pintor. Ele retoma as tonalidades clássicas das cores suaves, demonstrando um estado de espírito ao mesmo tempo sereno e poético” – conclui Emílio Vieira .

 

Museu que não surgiu

Ao despedir-se de Nazareno Confaloni, no dia do enterro deste – em 5 de junho de 1977 –, Emílio Vieira propôs a criação do Museu Frei Confaloni. Ressaltou que nos últimos anos de sua vida, o frade dizia que não gostaria de dispor dos seus quadros. “Parece que ele vinha tendo a intuição de que deveria deixar sua obra preservada para mostrar o que pensava e fazia pela humanidade, como homem criador e realizador de obras de arte e de obras sociais”, lembra Emílio Vieira. Para o professor, era o momento histórico de se criar uma instituição que reunisse “o legado de uma síntese de conhecimentos e de lições de amor, para se enriquecer a história cultural e artística de nossa Capital”.

Segundo conclui o jornalista, para nossa frustração e de uma legião anônima de admiradores de Confaloni, o acervo “evaporou”. Não é bem assim: parte do acervo artístico deixado por Frei Confaloni e que ainda não evaporou, e que continua flutuante à procura do seu domicílio definitivo.

 

(Emílio Vieira, professor universitário, advogado e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa. E-mail: [email protected])

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