Alba Dayrell, poética e realista, entre razões e emoções
Redação DM
Publicado em 27 de abril de 2016 às 00:36 | Atualizado há 10 anos
“Razão e Emoção”, novo livro de crônicas de Alba Dayrell, possui o verdor da escrita, a naturalidade e a graça fortuitas; a beleza acerba, a gritante verdade em cada uma de suas páginas, a revelar segredos, poéticos ou não, na singularidade de uma mulher. Intenso e denso, o livro está sustentado na perspicácia de uma nobre senhora, na madureza da vida, na consciência de si mesma e do mundo, a revelar-se inteira em cada letra, em cada parágrafo; a derramar emoções, mas com os pés sustentados o chão do mundo, altaneira.
Há, no livro, de forma tocante, a sensação de frescor que nos comunica cada página, a franqueza imperturbável, a poética dos sonhos, as sublimações, pois somos um misto de rosa e pedra, verdade e sonho, idealização e concretude. Há uma dualidade constante nesse chocante paradoxo que se assemelha o título. Como encontrar um elo entre a realidade e o sonho? Eis um milenar questionamento que lança raízes nos tempos imemoriais.
Nesse jogo de sentidos, reais ou imaginários, oníricos ou verdadeiros, cada crônica vai, docemente, a tecer filigranas douradas de sentidos, a levar o leitor ao doce emaranhado linguístico proposto pela autora. Nela, há um resgate do insuperável afeto, como se a vida fosse pouco a pouco sendo descoberta com olhos mais sensíveis, aqueles nascidos da alma enternecida.
Há um esforço contínuo de compreender com ternura o mundo, de criticar com agudeza as contradições e os desacertos; daí a razão do título paradoxal. Mas, por trás de cada crítica, velada ou contundente, há, também, a reconquista lírica do cotidiano, que transforma o livro num tom rosáceo entre o bucólico e o comovido, de uma opacidade translúcida. Há transcendência e, ao mesmo tempo, pés firmes no chão dolorido do mundo, com suas tramas e sofrimentos.
Pelos olhos dessa grande dama, refinada e culta, vemos e amamos o que ela amou, soprado pela genialidade da palavra eternizadora. Há, nela, a apreensão do mundo. Reconquista do mundo. Ternura do mundo. Daí, também, nossa cumplicidade com o que escreve, a identificação do nosso eu derramado na tessitura narrativa.
É um livro para ser lido sem pressa, numa tarde de sol esmaecido. Produto de horas de lazer e entretenimento. Feito para se pegar e se deixar sem mais aquela, de se deliciar em cada linha na impressionante verdade, na fluência remansosa da narradora, que manipula o seu material com certeira e indescritível singeleza, naturalmente, com a presença de espírito lúcido e coerente, sem deixar os ramos poéticos que se entrelaçam em diversas descrições profundas e belas.
Na obra, coexistem mundos diferentes, conflitantes ou não, tecidos por uma exata e espirituosa análise de mundo. Esse universo da coexistência também íntima da autora se contrasta com os divergentes do viver externo e social, ao criar ou elucidar uma agudeza crítica aos errados do tempo. Nesse ponto centra-se a perspectiva da crônica como um retrato imediato do fato, visto no tempo presente, na “dor ou na delícia” do momento.
Nesta obra há todo um universo de minúcias que reconstitui em mosaico, a dimensão concreta de uma cultura genuína, consciente dos seus vigorosos laços e valores científicos e, ao mesmo tempo, populares. Há uma evocação do mundo antigo, mas, também, uma lucidez na concepção do mundo atual, com seus medos e conflitos.
A autora se expressa de maneira acorde, reconstrói saudosamente, fora da corrente do irrecuperável, o avoengo sentimento de solidez e tudo parece estar impregnado de eternidade, mesmo que se assemelhe destruído, há uma acentuada reconquista pelo imaginário e pela expressão de beleza da palavra. E por esse jogo mágico, o leitor alcança, de manso, quase imperceptivelmente, certo clima encantatório inexplicável.
Há um amplo painel que reproduz com emoção e perspicácia, limpidamente, o território humano alcançado na prosa de Alba Dayrell. Um amplo painel que reproduz, limpidamente, o território humano alcançado na dimensão telúrica e onírica desse importante livro às letras de Goiás, fruto da observação de uma mulher segura de si e de seu papel num mundo em frenética mutação.
E nesse mosaico de emoções e realidades, Alba Dayrell, mineira da bela cidade de Araguari, há quase sessenta anos reside em Goiânia, pois aqui chegou em 1957, ainda bem jovem, há tons de rara beleza. Viveu a fase áurea da jovem cidade, do tempo da “capital brotinho”, das festas, do teatro, dos flamboyants floridos da Avenida Tocantins, da Rua 23, do Grupo Escolar Modelo, do Teatro Goiânia, da música; lembranças estas tão bem relatadas em sua obra A descoberta de um mundo encantado, publicada em 2012.
E toda sua existência vem tecida nesse alumbramento diante dos fatos, diante das paisagens que se descortinaram ante seus passos. Menina, moça, mulher, esposa, mãe, avó, escritora, professora, acadêmica. Uma miscelânea de atividades em que sempre pautou por êxito e por coerência, ao misturar realidade e sonho, Razão e Emoção, continuamente.
A bela menina/moça poetizando paisagens desde Araguari, acolhida no resfolegar da Estrada de Ferro Goyaz, até Goiânia nascente, soube escolher suas estradas, na completude do ser. Buscou no amado companheiro, Carlos Leopoldo Dayrell a herança poética, que lança raízes na velha Diamantina, em que, nos longes idos do século XIX, seu ascendente maior, de idêntico nome, foi comerciante em Santa Maria de São Félix e acompanhou o explorador Richard Burton, em 1867, na viagem exploratória, de canoa, de Sabará ao Oceano Atlântico; padrinho da não menos famosa Alice Dayrell Caldeira Brant, a Helena Morley, do diário Minha vida de menina, de reconhecimento mundial.
Nesse cadinho se fez Alba Lucínia de Castro Dayrell, no entrechoque de tantas emoções frutificadas em doce prosa, poética e arrebatadora. Professora de francês e piano na UFG, na Aliança Francesa e, de forma gratuita no Tribunal de Contas e na Brigada de Operações Especiais do Exército; vivenciou décadas de formação de jovens talentos; ela mesma, que bebeu da fonte imorredoura que foi Belkiss Spencière Carneiro de Mendonça, um ícone da música goiana. Na UBE secção de Goiás e na Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás empresta o brilho de sua vivência e sua experiência musical e literária.
Razão e Emoção vem tecido por dezenas de crônicas, a maioria enfeixada e colhida de um ramalhete precioso que é o Caderno Opinião Pública do Jornal Diário da Manhã, da capital goiana. Estas produções retratam o seu lúcido posicionamento diante da vida e dos fatos cotidianos, amarrados com recordações de tempos idos que “assim ela eterniza”, como o fez Cora Coralina.
Os assuntos das crônicas de Alba Dayrell são variados, múltiplos, coloridos; que formam uma colcha de retalhos de sentimentos. Pautam por temas como a natureza, as pessoas, os eventos, as entidades, os momentos, as cidades, as reivindicações, a poesia, a cultura, o místico e o sensorial. Identificam, todos eles, juntos, a autora diante do mundo, na contemplação embevecida das estações da vida, sem, contudo, ser meramente passiva; assumindo sua posição num ambiente de rápidas transformações.
A obra, densa e profunda, apresenta divisões internas. Na primeira, intitulada “Reflexões”, a autora constrói crônicas de elevado valor, ao colocar-se em atitude questionadora e evocativa sobre os mistérios e ocorrências do mundo. São crônicas de grande profundidade espiritual.
Na segunda parte do livro, intitulada “Religião” a autora muda o foco da produção, antes de opinião, quando passa ao estilo literário narrativo, em que enfeixa a crônica “Um homem desiludido”, ao narrar a história de um homem no banco da praça, e, por meio de um flash back narrativo, faz uma análise da ação daquele homem e tece comparações com a parábola do “Filho pródigo”.
A terceira parte da obra se intitula “Natureza” e, nesta, evoca diferentes lugares pelo prisma geográfico e ecológico como “Aruanã e seus nobres rios”, ao ressignificar a beleza do cerrado e da natureza de Goiás; o que se evidencia também nas crônicas “Araguaia, meu rio querido”, “o entardecer no Rio Vermelho” e “Acampar no Rio Araguaia”. Em todas, o evocativo canto de amor à história, ao cerrado, às belezas naturais e à preservação de nossas riquezas mais preciosas.
A quarta parte da obra intitula-se “Viagens”. Nela, de forma diacrônica, a autora vai tecendo suas considerações pelos lugares onde passou. Em “Viajar é viver”, comenta sobre a qualidade de vida no ato de viajar, do conhecimento e do prazer também do retorno ao lar.
A quinta parte da densa obra de Alba Dayrell intitula-se “Pessoas”, em que traça importantes perfis de personalidades goianas em diferentes tempos. Em “Um homem de bem” evidencia a figura singular de seu sogro, Carlos Dayrell, que quase chegou ao centenário de existência. Destaca sua história e sua importância para a família e para a comunidade goiana.
A sexta parte da obra intitula-se “Artes”. Nela, Alba Lucínia destaca, em acurados estudos, as grandes exposições de arte itinerante pelo Brasil; destaca sobre os grandes compositores clássicos na música mundial em “O Romantismo na música”; relata sobre o Movimento Impressionista na arte e recorda, numa revivescência cultural, os 45 anos de existência da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, entidade cultural fundada por Rosarita Fleury.
Já na sétima parte da obra denominada “Eventos”, a autora relembra espetáculos ocorridos em Goiânia como o de Maria Betânia, por ela intitulada como “Musa da Música Popular Brasileira”, o show de Paul MacCartney em Goiânia e o seu brilhantismo; a presença de Caetano Veloso no show no Centro Cultural Oscar Niemeyer (que minha filha Elisa me obrigou a ir); destaca sobre o concerto de Ana Flávia Frazão e Fábio Presgou em Goiânia, no Projeto “Concertos na cidade”, por meio da crônica “A música em Goiânia”.
Na oitava e última parte da importante obra, Alba Lucínia revela-se crítica e severa nos apontamentos relacionados aos erros do presente. Intitulando-se “Reivindicações” a referida parte da obra destaca as aspirações do povo brasileiro em relação aos desmandos políticos e as manifestações de insatisfação por todo o País.
E a obra se fecha, como identificado no título, num sonho, numa aspiração, num desejo, idílico, mas forte, com uma sociedade mais séria, ética, solidária e convida o leitor a uma profunda reflexão de quem somos nesse mundo.
Razão e emoção nos convida a uma acurada análise de variados assuntos. Visão real e crítica, mas comovida e poética de uma ilustre dama de nossa sociedade, versátil e inteligente, bela e sensível, trazendo a lume sua singular visão dos fatos e dos acontecimentos, dos lugares e das pessoas, da história e da atualidade; firmando-se no seu verdadeiro lugar, de honra em nossas letras e em nossa cultura, guardiã de valores imperecíveis que o tempo não pode apagar.
Nesse livro, as crônicas também se diluem e se misturam, entre razões e emoções, como fragmentos de uma longa narração sine fine, a vida, a morte, a singeleza, a grandeza, a miséria, a dissolução, a construção, o fluxo ou a duração dos seres perdidos num tempo irremediável. Grande beleza!
É ela o coração de mulher como uma chama viva e pulsante, entre razões e emoções, que entrelaçam infinitas sensações em sopros de vida e ternuras carregadas de cintilações outonais.
E ao evocar Piaf, é preciso lembrar que todo esse livro foi feito por amor à vida e a uma causa maior, que é a cultura imperecível e atemporal, pois “c’est l’amour qui fait qu’on aime/C’est l’amour qui fait rever/C’est l’amour qui veut qu’on s’aime/C’est l’amour qui fait pleurer”.
E tudo cai para a eternidade. Toujours.
(Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado, graduado em Letras e Linguística pela UFG, especialista em Literatura Comparada pela UFG, mestre em Letras e Linguística pela UFG, mestre em Geografia pela UFG, doutor em Geografia pela UFG, professor, escritor, pesquisador e poeta)