Alergia de felicidade
Redação DM
Publicado em 3 de setembro de 2016 às 02:55 | Atualizado há 10 anosQuanto custa sua alegria? O que você tem feito para ser feliz? Estes dias me questionava sobre este aspecto, o grau de investimento que temos para ter ínfimos momentos de alegria. Os preparativos, as dificuldades, o esforço para que por alguns instantes possamos rir e nos permitir ter alegria. Todavia, a felicidade é um estado que para muitos é contraditório. Há quem sinta se bem, sentindo-se mal. Mais um paradoxo da existência nos meandros da consciência humana. Há quem viva com alergia de felicidade, não se permitindo ter alegria. Em um pequeno exemplo, há algum tempo ouvi de uma paciente: “…sem querer eu faço tudo pras coisas darem errado porque tenho medo de sofrer, então, eu me acomodo, saio de perto, evito, me isolo e com isso acabo fazendo com o que poderia dar certo, vire um fracasso. É um ciclo vicioso no qual reclamo, fico mal porque as coisas não dão certo e na sequência continuo agindo para que não deem realmente certo…” A consciência dolorosa do auto boicote na qual o sol sangra, e a vida vira puro pessimismo como no postulado por Arnold Bennett. “O pessimismo, depois de você se acostumar a ele, é tão agradável quanto o optimismo – Things that Have Interested Me, The Slump of Pessimism…” E dá-lhe reclamação, pragas, aborrecimentos, tristeza, melancolia, resmungos, apatia, impropérios… reclamar e mais reclamar. Há quem viva nos dias de hoje com alergia de felicidade, vai que é contagioso… como alguém pode se mostrar uma pessoa de bem sorrindo, com alegria, feliz? Há um hábito social extremamente nocivo que dá a quem tem cara feia, fechada, séria, ar de respeito, na imaginação de alguns seres de raciocínio limítrofe. Pessoas que vivem de forma rabugenta, a reclamar de sua sorte, que fazem por vezes da falta de educação seu alicerce de convívio, em que se não trata ninguém bem para não ser maltratado, e esta é a linha de pensamento que ocorre em quase tudo: “Não faço para depois não sofrer”; “não vou a festa porque ela vai acabar”; “não namoro pra não ser abandonado”; “não caso para não separar”; “não vou a praia pra não ter de voltar”… E assim segue o resumo da miséria humana do poder, mas não fazer em uma distorção do desejo em pleno auto boicote. Vários casos de pacientes que atendi como analista e psicólogo clinico retratavam nesta psicodinâmica um quadro de neurose intensa com vários complexos ativados negativamente, fobia afetiva, medo intenso de felicidade e profundo auto boicote. Como no dito por Miguel Esteves Cardoso: “ Ser feliz é poder fingir, convincentemente, que se tem razão para andar triste ou não.” Nestes casos, porém, o convencimento constante é para se provar diariamente que se vive bem na infelicidade, no resmungar… vitimismo crônico. Existe um componente na depressão menor, também conhecida por distimia, que pode influenciar neste estado neurótico de existência. Há como reverter este quadro se o paciente se cuidar e perceber sua intensa forma autodestrutiva que limita em muito sua existência. Sai mais barato e gratificante investir para ser feliz…
(Jorge Antonio Monteiro de Lima, analista,pesquisador em saúde mental, psicólogo)