Ana do Pano de Prato
Redação DM
Publicado em 15 de julho de 2016 às 02:07 | Atualizado há 10 anosAs ruas estreitas da pequena cidade às vezes amanhecem tristes. Por muitos motivos acontece. O maior de todos é quando alguém falece. Ficam cinzentas, sem graça, insossas, pesadas, pinceladas de lonjuras e melancolias. As pessoas comentam o acontecido nas portas das casas. As circunstâncias. Quase todo mundo entristece, conhecendo ou não o falecido. Comoção. As ruas choram quando o imenso pássaro nebuloso arranca da vida, com suas garras afiadas, algum de seus moradores. Choram as ruas, choram as casas e, mais ainda, bem mais, chora uma certa Ana, a Ana do Pano de Prato. Conto.
Ela tem uns 50 anos, talvez um pouquinho menos. Vive ziguezagueando pelas ruas o dia inteiro. Com os panos de prato, cuidadosamente dobrados no antebraço esquerdo e outro aberto na mão direita, caminha sem pressa, com os pés suados sobre os chinelinhos tortos e desgastados.
– Olha o pano de prato! Baratinho e bonitinho!
– Não, Ana, agora não!, diz uma.
– Quanto é a peça?, se interessa outra.
– Cinco reais. Três por dez.
– Deixa pra outra hora.
De porta em porta, quadra em quadra, incansavelmente solene, ela segue com a tarefa árdua que lhe rendeu há anos a transformação de seu nome: de Ana Clemência Castro de Lima Pereira para Ana do Pano de Prato. Baixinha valente ela é. Valente e determinada.
Com tais atributos, é de se espantar que ela tenha o coração mais mole do mundo. Pois tem. No peito dela há um coração de manteiga se o assunto é velório. Não perde um. Desata num choro. Existem velórios e velórios, sabemos. Não maquiemos que alguns geram mais e outros menos comoção. Para Ana não, todos os velórios são iguais. Não há defunto sem choro para ela. Ao saber de um, estando na labuta pela cidade vendendo seus panos de prato ou fazendo qualquer outra coisa, suspende tudo e lá vai ela chorar junto aos enlutados. Independentemente se conhece ou não o defunto, chega devagarzinho, com lágrimas já minando no canto dos olhos, cumprimenta um a um, discretamente, com a feição de enorme consternação e pesar, segue para onde está caixão, debruça-se no corpo e derrama as mais sinceras lágrimas.
– Oh, meu Deus! Oh, meu Pai! Por quê? Por quê?
Passado um tempo chorando debruçada no corpo gélido, afasta-se um passo e fica olhando o rosto do defunto meticulosamente. E parece começar a se lembrar, ou fazer ideia, de suas bondades em vida, de algumas peculiares. Como se lhe ocorresse uma memória mais comovente, reaproxima-se novamente do caixão, volta a se debruçar e repete a ação condoída com o mais sofrível dos prantos. Chorado e elogiado o morto por incontáveis vezes, ela se senta em uma cadeira ali próximo, conversa com os parentes, confortando-os com sinceras e significantes palavras. Em seguida, ela vai até a cozinha ajudar nos afazeres, fazer e servir café aos demais e, de repente, quando pensa que não, volta a chorar. Ana desperta a curiosidade de alguns, sobretudo dos que não a conhecem.
– Quem é ela?, pergunta um curioso.
– É a Ana do Pano de Prato!, responde outro.
– E o que ela é do falecido?
– Nada! Irmã de dor deve ser!
Após o enterro, volta à rotina, corre até sua casa, passa uma água no rosto, numa tentativa de tirar as restingas de choro, apanha os panos de prato e sai, de rua em rua, casa em casa. Vida que segue, enquanto o imenso pássaro nebuloso tem as garras recolhidas.
– Olha o pano de prato! Baratinho e bonitinho!
(Hailton Correa, agente prisional, Graduado em Letras pela UEG campus Inhumas e escritor. Contato: [email protected])