Animais
Redação DM
Publicado em 28 de julho de 2016 às 21:33 | Atualizado há 10 anosCerta manhã, o mundo dos humanos acordou ao avesso. Do nada, todos os homens tiveram a consciência de serem animais estressados. Qualquer barulho, ainda que um ínfimo ruído, ou proximidade de vulto, poderia ser uma grande ameaça.
Dentro de um bosque, alguns pássaros admiravam as vozes que julgavam felizes de uma família de humanos enjaulados. Ficavam por ali admirando seus berros e súplicas de socorro, acreditando que eram sinfonia em coro, um alegreto, um chamarisco para atrair uma fêmea e entabular uma cópula. Traziam água e alimentos para satisfazer suas necessidades básicas. Vez por outra o substrato bor baixo da gaiola era trocado por conta do acúmulo das fezes. Aos pássaros era um passatempo bom cuidar de humanos num espaço reduzido. Podiam vê-los andar, pular e escalar de forma tão magistral. Era incrível como podiam ser vendidos a preços parcialmente tabelados e escalonados por raça, sexo, estirpe, idade e porte físico.
Rinocerontes e elefantes costumavam fazer armadilhas para a captura de seres humanos, com o intuito de retirar suas peles, suas orelhas e narizes, algumas partes também como órgãos genitais e partes de suas carnes e peles para fazerem tecidos. Às vezes, alguns deles davam trabalho e eram mortos, ainda que fossem retiradas apenas as cartilagens de suas orelhas. Afinal, haviam vários no mundo e mesmo que estivessem ameaçados de extinção, a necessidade das peles justificaria os abates.
Ursos, lobos, leões e outros felinos caçadores costumavam ter em suas casas algumas cabeças de seres humanos emolduradas nas paredes, peles espalhadas no chão como tapetes e apreciavam a arte da taxidermia, empalhando muitos deles para que parecessem vivos, ali imóveis como estátua, peças chiques para adorno.
Muitos seres humanos eram castrados e adotados como bichos de estimação. Infelizmente a maioria deles fugiam, eram vendidos no mercado negro, ou eram recapturados. Outros tantos eram adestrados para instigar suas habilidades incríveis de malabarismo, equilíbrio etc. Eram muito apreciados nos palcos dos circos. Entretanto, havia um movimento de conscientização para circos sem homens. O intuito era no futuro existir somente espetáculos de animais, pelas denúncias de crueldades cometidas pelos domadores e tratadores. Outras denúncias também eram as touradas e rodeios, onde bois, touros e bezerros chifravam, matavam, atropelavam e laçavam esses pequeninos seres humanos. Já foi dito por aí que antes de soltarem humanos nas arenas, era costume confiná-los com muito estresse e apertar com cordas os seus testículos e seios, para que entrassem enfurecidos nas arenas!
Não se sabe a origem dessa superstição de carregar chaveiros de pés ou mãos de seres humanos para trazer sorte aos animais. Por falar em sorte, os animais se consideravam sortudos por terem humanos como objetos de estudo para suas doenças. Coelhos e ratos cientistas costumavam usar seres humanos como cobaias nos laboratórios, causando… coisas impublicáveis (por causa dos eventuais jovens leitores). Nos açougues e restaurantes eram comprados facilmente carnes de pessoas. Muitos animais preferiam humanos assados ou cozidos, mas os tubarões eram mais adeptos às comidas e tradições orientais. Preferiam humanos ao ponto menos ou simplesmente cru. Nada mais natural, já que a vida se alimenta da morte. São bichos, plantas e tudo o que é vivo, normalmente: devorado e deglutido para reciclar o ciclo diário da vida e da morte.
Pelas ruas civilizadas, quadrúpedes entravam em charretes conduzidas por vários humanos. As madames e socialites dos coelhos, guaxinins, focas, raposas, chinchilas, jacarés e linces (aquelas mais requintadas) costumavam usar peles de mulheres (por serem mais lisas) como cachecóis e casacos. Afinal, sacrificar seres humanos apenas para alimentar a vaidade alheia dos animais é um velho costume desse novo mundo.
De repente, como se estivesse acordado após um pesadelo, um leitor desavisado encontrou esse texto e está lendo essas palavras. Agora! Uma reflexão consciente lhe toma ao ímpeto rompante. Clímax, mergulho e mudança. Quem sabe (vai que…)?! Até a próxima página!
(Leonardo Teixeira, escritor, escreve às quintas-feiras neste espaço. Contato: [email protected])