Ansiedade é principal causa de incapacidade entre jovens e crianças no Brasil, diz estudo
Aline Drumond - Estágio DM
Publicado em 7 de agosto de 2026 às 11:32 | Atualizado há 1 hora
Ansiedade e depressão ocupam os dois primeiros lugares entre as causas de incapacidade a partir dos 15 anos no Brasil | Foto: Reprodução
Antes mesmo de completar dez anos, uma criança brasileira já tem mais chance de conviver com algum grau de incapacidade provocado por ansiedade do que por qualquer doença física. O dado faz parte da mais abrangente análise já realizada sobre a saúde mental de crianças, adolescentes e jovens no Brasil.
Publicado na The Lancet Regional Health – Americas, o estudo utiliza dados do GBD 2023 (Global Burden of Disease, ou Estudo da Carga Global de Doenças) e aponta que mais de 15 milhões de brasileiros entre 5 e 29 anos convivem com pelo menos um transtorno mental. O número corresponde a 20,91% de toda a população nessa faixa etária no país.
Outros 2,5 milhões, equivalentes a 3,36% do total, preenchem critérios para um transtorno por uso de substâncias. A pesquisa apresenta, pela primeira vez, um detalhamento da situação por faixas etárias divididas em intervalos de cinco anos.
O trabalho é liderado pelo psiquiatra Christian Kieling, da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Para o pesquisador, separar infância, adolescência e início da vida adulta é fundamental para a formulação de políticas públicas adequadas a cada fase.
Kieling explica que tratar todas essas idades como um único grupo pode levar à criação de serviços inadequados para determinadas faixas etárias. A depressão, por exemplo, existe entre crianças, mas é muito menos frequente antes dos dez anos. A partir dos 14 ou 15 anos, a prevalência aumenta, principalmente entre meninas. Já no caso do consumo de álcool, o padrão se inverte e a ocorrência é maior entre os meninos.
O levantamento também aponta um problema na divisão dos serviços de saúde mental. Segundo Kieling, o corte aos 18 anos separa o atendimento destinado a crianças e adolescentes daquele oferecido aos adultos justamente em um período de grande demanda. Para ele, a mudança abrupta de serviço ocorre no momento em que o adolescente passa por importantes transformações e pode acabar dificultando o acesso ao cuidado.
Entre 5 e 9 anos, mais de 10% das crianças brasileiras já preenchem critérios para pelo menos um transtorno mental. A proporção cresce ao longo da infância e da juventude e chega perto de 25% entre pessoas de 25 a 29 anos.
Em São Paulo, as internações por transtornos mentais e comportamentais entre crianças e adolescentes foram as que mais cresceram entre 2020 e 2025. O maior aumento percentual entre todas as faixas etárias ocorreu justamente entre crianças de 5 a 9 anos, com alta de 98,3%.
Ansiedade lidera impacto na saúde dos jovens
Na comparação com mais de 300 condições de saúde acompanhadas pelo GBD no Brasil, os transtornos de ansiedade aparecem como principal causa de incapacidade em todas as faixas etárias analisadas. A partir dos 15 anos, ansiedade e depressão ocupam, respectivamente, o primeiro e o segundo lugar no ranking geral, superando qualquer doença física. O impacto é maior entre meninas e mulheres.
A partir dos 20 anos, álcool e outras drogas passam a apresentar maior prevalência entre os homens. Kieling ressalta ainda que o termo ansiedade reúne diferentes transtornos, que podem mudar conforme a fase da vida. Na infância, são mais comuns os quadros de ansiedade de separação. Na adolescência, destaca-se a ansiedade social. Já posteriormente aparecem com maior frequência a ansiedade generalizada e o transtorno de pânico.
Entre mulheres de 20 a 29 anos, os números de ansiedade chamam ainda mais atenção. O mesmo padrão já havia sido identificado em uma análise global anterior realizada pelo grupo de pesquisadores. Segundo Kieling, os índices brasileiros se destacam internacionalmente, principalmente devido à prevalência elevada entre as mulheres.
O estudo também analisou a mortalidade por suicídio entre jovens brasileiros. São estimadas 5.402 mortes por ano entre pessoas de 10 a 29 anos, sendo 77% das vítimas do sexo masculino. A taxa por 100 mil habitantes passa de 1,24 entre 10 e 14 anos para 13,43 entre 25 e 29 anos.
A partir dos 15 anos, o suicídio aparece como a terceira principal causa de morte prematura entre todas as condições monitoradas pelo GBD no Brasil.
Para Claudia Buchweitz, pesquisadora e primeira autora do estudo, a diferença entre homens e mulheres exige políticas específicas de prevenção voltadas aos jovens do sexo masculino, historicamente menos alcançados pelos serviços de saúde mental. Entre povos indígenas, as taxas de suicídio chegam a mais que o dobro da média nacional, cenário que também evidencia uma grave deficiência na produção de informações e na formulação de políticas públicas.
Kieling afirma que até mesmo números absolutos baixos de suicídio entre crianças pequenas deveriam ser considerados inaceitáveis. O pesquisador também aponta que o aumento expressivo dos casos durante a adolescência acompanha a elevação da ocorrência de transtornos mentais e representa uma oportunidade para ações preventivas antes que os problemas se tornem crônicos.
Para os pesquisadores, a identificação precoce e o acesso a um atendimento efetivo estão entre as principais prioridades. A maior parte da população brasileira, porém, não consegue acessar esse cuidado de maneira adequada. Segundo Kieling, a busca por ajuda costuma ocorrer tardiamente, quando o quadro já se agravou e, em muitos casos, chega às emergências após uma tentativa de suicídio.
Falta de dados dificulta diagnóstico nacional
Apesar da dimensão dos números, o estudo também identificou uma limitação importante na produção de dados sobre saúde mental entre crianças e jovens no Brasil. Para estimar a situação da população de 5 a 29 anos, o GBD utilizou apenas 66 fontes de dados nacionais, concentradas quase totalmente nos estados de São Paulo e Rio Grande do Sul.
As regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste têm participação praticamente inexistente nas bases utilizadas. Para Buchweitz, essa quantidade limitada de informações é, ao mesmo tempo, reflexo e consequência da falta de atenção dada à saúde mental dos jovens no país. A pesquisadora afirma que, mesmo diante da limitação, as análises seguem critérios rigorosos e reforçam a necessidade de medidas imediatas.
O GBD utiliza modelos estatísticos para estimar a prevalência de doenças mesmo em áreas classificadas como “vazios epidemiológicos”. Para isso, considera fatores como renda e estrutura demográfica regional. Kieling defende o uso da metodologia, mas reforça que o país precisa ampliar a produção de dados locais.
O pesquisador também avalia que a ausência de informações não deve ser usada como justificativa para adiar medidas de prevenção e atendimento. Para ele, é pouco provável que novos números apresentem uma realidade muito diferente da identificada no estudo e esperar por dados mais completos antes de agir poderia prejudicar crianças e adolescentes.
Os pesquisadores defendem que os resultados sejam utilizados para incluir de maneira mais efetiva a saúde mental nas políticas públicas voltadas à infância e à juventude. Segundo eles, esse tema ainda não aparece de forma explícita em marcos como o Estatuto da Criança e do Adolescente.
A equipe também ressalta que problemas de saúde mental nem sempre apresentam inicialmente características suficientes para receber um diagnóstico formal. Por isso, identificar sinais precoces seria fundamental para evitar que eles evoluam para transtornos estabelecidos.
Entre as propostas estão a ampliação das portas de entrada para atendimento, para além dos serviços tradicionais, com participação de escolas e estruturas comunitárias, além de maior transparência na utilização de recursos do SUS (Sistema Único de Saúde) destinados à saúde mental.
A escola é apontada por Kieling como um espaço estratégico para identificar sinais precoces, mas o pesquisador ressalta que a responsabilidade não pode ser concentrada exclusivamente nas instituições de ensino.
Como referência, ele cita o Headspace, serviço australiano de atendimento aberto a jovens de 12 a 24 anos que também foi adotado em países como Irlanda, Canadá e Dinamarca. Para Kieling, ainda existem poucas experiências de grande escala em países de baixa e média renda, apesar de a maioria dos jovens do mundo viver justamente nessas regiões.
O pesquisador também aponta problemas na Raps (Rede de Atenção Psicossocial), que atualmente estaria concentrada no atendimento de pacientes com quadros mais graves. Na avaliação dele, há pouco espaço para pessoas com problemas leves ou moderados, o que faz com que muitos casos precisem se agravar antes que o paciente consiga atendimento.
O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que atua no apoio a iniciativas voltadas à promoção da saúde. (FOLHAPRESS/CLÁUDIA COLLUCCI)