Antigo, o ódio badala os sinos modernos
Redação DM
Publicado em 7 de junho de 2017 às 02:35 | Atualizado há 9 anos
“Todos os preconceitos e estereótipos da sociedade de classes e das ideologias dominantes tecem o fio dessas relações.” (CHAUÍ, 1985)
A globalização expõe a arapuca das loucuras modernas pós-guerras; pós-invenção do jeans e vinil; pós-epidemias criadas e controladas por laboratórios da guerra; pós-santos de instituições tocadas por diabos; pós-sexo, drogas e rock’n roll a mover o mercado do ego; pós-hipocrisias perpetuadas pelo voto de cabresto; pós-quase tudo num planeta redondo–mundo quadrado que imagina poder tudo, incapaz de compreender quase nada. Açoitado no habittus e locus da (des) humanidade o homo sapiens dá as caras enquanto “pessoas que vão à igreja pelos mesmos motivos que vão à taverna: para estupefazerem-se, para esquecerem sua miséria, imaginarem-se, de algum modo, livres e felizes” (BAKUNIN).
Uma população assustada, esparramada em mais de cinco continentes explorados por ingleses, franceses e americanos, a partir da Revolução a vapor, caracteriza a maior parte da massa acomodada e que aceita conviver em meio ao mal viver das nulidades, da ignorância inconsequente mãe da facilidade dos absurdos. Do funil veloz da alienação e exploração sistêmicas, escorrem absortos indivíduos que se permitem deleitar na vala estreita das ilusões onde a ousadia de num exército formado a meia dúzia de insanos ousa lutar contra a ordem estabelecida pelo capital. O parto das iniquidades é doloroso, torna o pensamento não reflexivo em iniquidades do Estado. Menos assombroso, o chicote da quermesse acomoda na cesta das mentiras, a amante, o padre, a esposa e o coronel, dá destino ao sujeito e percevejos num mesmo antro, numa mesma cama, corredor e lugar. A pena resoluta é, segundo os alienados cristãos a janela ou porta de saída da cela aberta que fede em dor, traz fôlego ao fugitivo contemporâneo da antiga caverna, coloca no banco dos réus o santo atrelado ao diabo, instiga o velho à sombra do novo e reza à morte vestida em falácias que contam da (in) segurança da comunidade perdida a fugir das bestialidades numa arena onde, um dia, “a vida foi uma harpa cujos tons mudavam a natureza do ritmo, conservando, todavia, a mesma sonoridade.” (Sabedoria 19, 18)
O pecado capital, “impensável” ao Ocidente, aconteceu. Há um movimento surdo, cego e mudo à direita espalhado pelas urbanidades a ameaçar democracias em meio a uma intensa luta por parte de algumas entidades internacionais que enfrentam, de lua a lua, os donos do mundo senhores da guerra. Dois milhões de pessoas assinaram carta aberta do mundo para e contra Trump. A notícia já virou água na lucrativa imprensa virtual, manipuladora e moderna. Em forma de manifesto o documento percorre Cortes em becos burocráticos, mundo afora, numa luta contra a proposta da eugenia e invasão de territórios, culturas e povos, em pleno século XXI, peleja para os próximos quatro anos. O anúncio publicitário, exposto em páginas cheias dos grandes jornais, foi projetado na Trump Tower, em Nova York alertando o resto do planeta (em extinção) sobre o homem branco cheirado, irado e louco racista, milionário, poderoso que pode vir a destruir o futuro das gerações inocentes sem ao menos tocar em armas nucleares, bastando para tanto cumprir sua promessa de derrubar o Acordo do Clima de Paris, e, fazer com que outros grandes países poluidores, como a Índia e a Rússia, também o façam.
Longe da Terra desolada “um objeto novo acaba de fazer seu aparecimento na paisagem imaginária da Renascença, e, nela, logo ocupará lugar privilegiado, é a Nau dos Loucos, estranho barco que desliza ao longo dos calmos rios da Renânia e dos canais flamengos” (Foucault, em História da Loucura, p. 12-13). É a caravela das ganâncias a singrar e transformar a natureza, não em busca de sobrevivência, mas no fomento da riqueza cumulativa dos ricos que mata os oceanos responsáveis por metade do oxigênio que “ainda” respiramos. A pesca excessiva, a poluição e as mudanças climáticas destroem com intensa voracidade o planeta, fenômeno que poderá causar a extinção em massa da criação de 55 milhões de anos. Desde 2015, reservas oceânicas vêm sendo criadas por meio de organizações não governamentais e campanhas populares de largo alcance. Seguindo umas das profecias de Raul Seixas que alertava ser “o hoje apenas um furo no futuro, por onde o passado começa a jorrar”, urge reforçar que os mares e oceanos cobrem cerca de 71% do planeta–até pouco tempo azul–lar de milhares de espécies que ainda nem foram “descobertas” pelo capitalismo selvagem. Responsável por sustentar a vida na Terra, o milagre e maravilha dos oceanos resilientes não detém a força capaz de curar a si próprio da destruição causada pelo homem egocêntrico.
Segundo a mídia “Obvious Magazine” as realidades apresentadas no mundo das artes (ficções, que ironia) “refletem a nossa própria realidade […] temos preferido viver vidas fantasiosas, cercadas de superficialidade e aparências determinadas pelo hedonismo da sociedade de consumo e, consequentemente, o nosso egoísmo ganancioso buscando galopantemente realizar todos os desejos que impedem de acordarmos de um sonho ridículo” (http://obviousmag.org/genialmente_louco/2017/o-medo-de-ser-livre-provoca-o-orgulho-em-ser-escravo.html). Há quem considere que de fato é melhor ser escravo feliz que ser livre, triste, inconformado, amedrontado.
A problemática ganha corpo na medida em que se entende que a loucura da liberdade só pode ser bebida pelo sujeito livre, uma vez que a gaiola estrutural limita desejos intrínsecos, latentes, engendrados pelo ser verdadeiro, desmascarado no orgasmo. Por mais que a escravidão e alienação ao sistema traga nova ereção à fantasia do consumo que “transforma” as liberdades, carece ela de alçar voos a fugir da limitação dessas gaiolas, hospícios modernos denunciados em clínicas ilegais a tratar “drogados”; instituições da boa nova ou salvação das almas; prisão terceirizada a esconder nas celas as responsabilidades estatais e outras mercadorias, dentre elas, o ser (anti) social. Ainda que tardia, a condição escrava consumista apreende o sujeito sem face a fugir da locomotiva ultramoderna.
Longe da sacanagem tupiniquim de delações premiadas bem pagas, mas não da culpa, Prometeu, ao entregar o fogo aos homens, causou-lhes também grandes danos. Do mesmo modo as falácias políticas, a serviço do poder de produção e guerra contemporânea, local globalizada, tão evidenciado na miséria da razão. Se a técnica possibilita a dominação, sem controle, uma sociedade tão desigual acaba por afastar-se, um dia, do idealismo cristão-hierárquico a prometer vida boa noutro mundo, e acaba por encontra a salvação na proposta da explosão do homem como aviso à tranquilidade da comunidade de que o medo, hoje, saiu do confessionário e habita as torres que abrigam os sinos modernos.
E o pulso, ainda pulsa!
(Antônio Lopes, escritor, filósofo, mestre em Serviço Social/doutorando em Ciências da Religião/PUC-Goiás, mestrando em Direitos Humanos/UFG)