Araguatins: encontro no presente para resgatar o passado (2)
Redação DM
Publicado em 12 de janeiro de 2018 às 00:01 | Atualizado há 2 anos
Araguatins detém uma história interessante e seus filhos, como bandeirantes, saem em busca de trabalho e complementação dos estudos em outras cidades. Palmas, Goiânia, Brasília são as opções preferidas.
A Wikipédia registra que os seus primeiros moradores a família de Máximo Libório da Paixão, em 1867. No entanto, foi fundada por Vicente Bernardino Gomes no ano seguinte com o nome de vila São Vicente do Araguaia, em 9 de junho de 1868. Vicente Bernardino, que antes residia na Colônia Militar de São João do Araguaia, no Estado do Pará, resolveu subir o rio e procurar um local onde pudesse fundar uma povoação.
Aproveitou da existência de grandes pequizeiros, oitizeiros, entre outras árvores regionais dando início à sua exploração econômica. Para tanto, acolheu trabalhadores vindos de diversas regiões que passaram a fixar residência na localidade. A vila passa a categoria de município pela lei nº 426 de 21 de junho de 1913, que foi sancionada pelo Decreto nº 3.639 de 5 de março de 1914 e instalado em 12 de novembro do mesmo ano pelo Decreto nº 3.774. Em 1945, a sede do Município foi transferida para Itaguatins, pelo Presidente Getúlio Vargas.
Depois de três anos de transferência da sede, o Município foi criado pela segunda vez pela Lei nº 184 de 13 de outubro de 1948 tendo sido reinstalado em 1º de janeiro de 1949. Com a criação do Estado do Tocantins em 1989 o Município passa a integrá-lo, antes era parte do Estado de Goiás. O nome Araguatins nasceu da junção dos dois rios Araguaia e Tocantins por sugestão do Prefeito Antonio Carvalho Murici, tendo sido aprovado pelo Decreto nº 8.305 no ano de 1943.

Por iniciativa do Cafu Frutuoso, descendente de família tradicional araguatinense, hoje mora em Goiânia e achou por bem tomar a iniciativa de, num trabalho ingente, reunir os araguatinenses. A causa é comovente porque objetiva resgatar do passado no presente. As novas gerações desconhecem a própria historia de Araguatins. Para tanto, na primeira reunião marcou-se para o dia 21 de abril, na sede da AABB, na saída para Anápolis pela BR, o grande evento. Espera-se reunir cerca de 150 araguatinenses e seus familiares.
No artigo de ontem, publicado no caderno de Opinião do Diário da Manhã, teci considerações mais de ordem pessoal. Discorri como a minha infância sofreu influência dessa acolhedora cidade à margem do Araguaia, banhada pelos rios Araguaia e Taquari.
Meu pai foi um líder regional graças à sua administração como prefeito de Araguatins. Athanásio de Moura Seixas chamou muito minha atenção porque representou pioneirismo em muita coisa. Algumas obras que lembro: primeiro grupo escolar, que leva o nome de um dos pioneiros da cidade: Vicente Bernardino Gomes. A instalação do sistema de energia elétrica. Um motor Kanper, de origem alemã, gerou energia para a cidade, pelo menos em boa parte da noite.
O primeiro caminhão. Adquirido em Belém, representou uma epopéia aportar em Araguatins. Embarcado no porto da capital do Pará na proa do barco a motor, teve que desembarcar em Tucuruí por causa da cachoeira perigosa. O tio João Seixas, motorista profissional de grande gabarito, ficou como responsável pela operação inusitada. Para não sofrer os riscos de naufrágio nas bravias correntezas, improvisou uma estrada à margem do Tocantins. O barco passaria praticamente vazio e o caminhão seria novamente embarcado após a cachoeira. Assim foi o périplo. A cidade fez festa para receber a novidade. Com o veículo, a vida ficava mais maneira para os burros e jegues.
Athanásio construiu ainda estrada e pontes pelo interior do Município, entre as quais ligando ao povoado de Natal. Nessas alturas, já dispunha de um jipe, bastante apropriado para as estradas de chão, sobretudo areia. Construiu, ainda, um cais, por onde aportavam as embarcações de maior porte que os barcos movidos pelo Penta ou voadeiras, movidas pelos motores de popa das marcas Mercury, Evinrude ou Archimedes.
Lembro bem. O tio Floriano Gomes, além de assoviar bem, pilotar como poucos os motores de popa no Araguaia e no Tocantins, também construía barcos com maestria. Na minha vida pessoal de criança, me ajudou a andar de bicicleta. Sua filha Rita veio para Goiânia, na seqüência de parentes e conhecidos em busca de novos sonhos e realizações.
A pista de avião, outra obra de meu pai, atraiu linhas áreas da Cruzeiro do Sul e, posteriormente, da VASP. O avião saia de São Paulo, e completava o trajeto de Uberaba (MG), Goiânia, Aruanã, Porto Nacional, em Goiás, Conceição do Araguaia (PA), Araguacema (GO), Carolina (MA), Araguatins (GO), Marabá e Belém, no Pará. Era um dia inteiro de viagem.
Na inauguração da principal praça da cidade, até então um largo, onde situa até hoje a Igreja de São Vicente Ferrer, Athanásio de Moura Seixas conseguiu um triunfo. Levou para inaugurá-la o então prefeito de Goiânia, Iris Rezende Machado. O Iris representava a novidade política no Estado. E avalizara meu pai a tomar dinheiro emprestado do Banco Comercial para construir a praça.
A cidade recebeu em festa o Iris e sua delegação, então representada pelos deputados José de Souza Porto e Francisco Maranhão Japiassú e outras autoridades. Muito foguetório. Deu para tomar um banho no Araguaia, numa praia acima da cidade. Todo mundo queria uma maior aproximação do Iris. Coincidência: ele é novo prefeito de Goiânia. Lembrando meu pai que já se foi, digo: obrigado, Iris.
Amanhã, continuação da série.
(Wandell Seixas, jornalista voltado para o agro, bacharel em Direito e Economia pela PUC-Goiás, ex-bolsista em cooperativismo agropecuário pela Histadrut, em Tel Aviv, Israel. Autor do livro: O Agronegócio passa pelo Centro-Oeste)