Brasil

As bombas previdenciárias

Redação DM

Publicado em 7 de maio de 2016 às 02:18 | Atualizado há 10 anos

A pre­si­den­ta Dil­ma che­gou a in­sis­tir na im­plan­ta­ção da ida­de mí­ni­ma na Pre­vi­dên­cia So­ci­al. Não é tu­do o que a Pre­vi­dên­cia ne­ces­si­ta.

Nos­sos es­pe­cia­lis­tas em Pre­vi­dên­cia (phds, mes­tres, ana­lis­tas, tem­po­rá­rios, ter­cei­ri­za­dos, fis­ca­lis­tas e fa­zen­dá­rios) que só pen­sam na re­la­ção da Pre­vi­dên­cia x PIB – ago­ra di­fun­dem o ter­ror se­gun­do o qual, sem re­for­ma, os gas­tos da Pre­vi­dên­cia che­ga­rão a R$ 1 tri­lhão em 2050 – sem­pre tor­ce­ram na­riz co­mo se re­cu­sa­ram a en­xer­gar o um­bi­go on­de o ca­os da re­cei­ta pre­vi­den­ci­á­ria es­tá con­su­min­do os ati­vos da Pre­vi­dên­cia.

Ig­no­ram in­clu­si­ve a dí­vi­da his­tó­ri­ca do Es­ta­do pa­ra com a Pre­vi­dên­cia, pois usou e abu­sou da li­qui­dez da Pre­vi­dên­cia (quan­do as en­tra­das eram mui­to mai­o­res do que as saí­das) pa­ra fi­nan­ciar a in­fra­es­tru­tu­ra e o de­sen­vol­vi­men­to, bem co­mo hos­pi­tais, ca­sas po­pu­la­res, ali­men­ta­ção. Era o di­nhei­ro dos tra­ba­lha­do­res pa­ra apo­sen­ta­do­ri­as e pen­sões.

Te­nho por de­ver, por ser pre­vi­den­ci­á­rio, de aler­tar que há uma bom­ba de vá­rios me­ga­tons que não é men­ci­o­na­da pe­la tur­ma que aca­bei de ci­tar que, nem a pre­si­den­ta Dil­ma nem o mi­nis­tro da Pre­vi­dên­cia sa­bem de­la, mas que de­vo co­lo­car em evi­den­cia pa­ra que se­ja com­pre­en­di­da, co­mo a ida­de mí­ni­ma, co­mo a de­mo­gra­fia e a de­gra­da­ção da Re­cei­ta Pre­vi­den­ci­á­ria pe­la Re­cei­ta Fe­de­ral, que ame­a­çam o fu­tu­ro, a es­ta­bi­li­da­de e o equi­lí­brio da Pre­vi­dên­cia.

A Pre­vi­dên­cia que era um so­nho vi­rou um pe­sa­de­lo.

Te­mos na Pre­vi­dên­cia ho­je vá­rios re­gi­mes: o Re­gi­me Ge­ral de Pre­vi­dên­cia So­ci­al = RGPS com 55 mi­lhões de con­tri­buin­tes e 33 mi­lhões de be­ne­fi­ciá­rios (sen­do que des­ses, 9,5 mi­lhões de­ve­ri­am es­tar fo­ra, os ru­ra­is pois não con­tri­bu­í­ram) ; a Fun­presp, dos ser­vi­do­res fe­de­ra­is, que ras­te­ja; a dos ser­vi­do­res fe­de­ra­is ci­vis do Re­gi­me Ju­rí­di­co Úni­co pen­du­ra­dos no Te­sou­ro (1,3 mi­lhão, sen­do 705,5 mil ati­vos, 387,5 mil apo­sen­ta­dos e 254,1 mil pen­si­o­nis­tas); a dos mi­li­ta­res fe­de­ra­is tam­bém pen­du­ra­dos no Te­sou­ro (359,2 mil ati­vos, 149,2 mil apo­sen­ta­dos e 148,2 pen­si­o­nis­tas), que não con­tri­bu­em e ine­xis­te con­tri­bui­ção pa­tro­nal; a dos es­ta­dos e mu­ni­cí­pios bra­si­lei­ros que ain­da é um es­que­le­to .

Já me ocu­pei da bom­ba de­mo­grá­fi­ca. Ho­je me pre­o­cu­po com a bom­ba da Pre­vi­dên­cia dos mi­li­ta­res fe­de­ra­is, dos es­ta­dos e dos mu­ni­cí­pios (guar­das mu­ni­ci­pa­is) e dos ser­vi­do­res ci­vis de es­ta­dos e mu­ni­cí­pios.

So­bre os mi­li­ta­res, o Tri­bu­nal de Con­tas da Uni­ão tem co­bra­do re­cor­ren­te­men­te uma so­lu­ção, mui­to di­fí­cil fa­ce o atu­al des­ca­la­bro fis­cal. A si­tu­a­ção de­les nos es­ta­dos e mu­ni­cí­pios é ca­ó­ti­ca.

So­bre os Re­gi­mes Pró­prios de Pre­vi­dên­cia So­ci­al dos Es­ta­dos e Mu­ni­cí­pios-RPPS, cri­a­dos pa­ra os es­ta­tu­tá­rios com um con­tin­gen­te de 4,8 mi­lhões de ser­vi­do­res ati­vos, 1,8 mi­lhão de ser­vi­do­res ina­ti­vos e 665,7 mil pen­si­o­nis­tas. Em out de 2013, as apli­ca­ções eram de R$ 172, 6 bi­lhões e dis­po­ni­bi­li­da­des fi­nan­cei­ras de R$ 1,8 bi­lhão nos RPPS!

Ou­tro re­la­tó­rio dos RPPS, de out de 2013, me dei­xou pre­o­cu­pa­do. A abran­gên­cia não che­ga a 50% do to­tal de mu­ni­cí­pios. Na Ba­hia, ape­nas 25, Ce­a­rá, 42; Mi­nas 226; Rio Gran­de do Sul 124, San­ta Ca­ta­ri­na, 90; Pa­ra­ná 188, Rio de Ja­nei­ro, 70; São Pau­lo 369!  Com apli­ca­ções ze­ro-Go­ver­no dos Es­ta­dos de Go­i­ás e Ma­to Gros­so – e com dis­po­ni­bi­li­da­des ze­ro Go­ver­no dos Es­ta­dos da Ba­hia, Go­i­ás, Mi­nas Ge­ra­is e Ma­to Gros­so e as ca­pi­tais For­ta­le­za, Re­ci­fe, Boa Vis­ta, Por­to Ale­gre, Flo­ri­a­nó­po­lis, Ara­ca­ju. Uma boa quan­ti­da­de de mu­ni­cí­pios es­ta­va com apli­ca­ções e dis­po­ni­bi­li­da­des ze­ro!

Do­cu­men­to da Se­cre­ta­ria de Pre­vi­dên­cia Com­ple­men­tar, do MPS, de abr de 2015 in­for­ma que exis­tem 47 fun­dos de pen­são es­ta­du­ais e dois mu­ni­ci­pa­is. A si­tu­a­ção des­ses fun­dos é dra­má­ti­ca.

Te­me-se que pa­ra ca­da ser­vi­dor es­ta­tu­tá­rio dos es­ta­dos e mu­ni­cí­pios exis­ta um ser­vi­dor avul­so, com o fu­tu­ro em ris­co!

Os es­ta­dos per­de­ram seus ban­cos es­ta­du­ais, por­que os trans­for­ma­ram em emis­so­res de mo­e­da, com ges­tões te­me­rá­ri­as, de al­to ris­co, não pro­fis­si­o­nais e po­lí­ti­cas.

Com a per­da dos ban­cos, vol­ta­ram-se pa­ra os fun­dos de pen­são, já trans­for­ma­dos em emis­so­res de mo­e­da, com ges­tões te­me­rá­ri­as, de al­to ris­co, não pro­fis­si­o­nais e po­lí­ti­cas. Qua­se to­dos fre­quen­tam as pá­gi­nas po­li­ci­ais, com des­man­dos de to­dos os ti­pos.

A gen­te não vê ne­nhum fun­do de pen­são pri­va­do nas pá­gi­nas po­li­ci­ais, co­mo não se vê ne­nhum pla­no pri­va­do de pre­vi­dên­cia.

Os fun­dos de pen­são es­ta­tais, al­guns da Uni­ão e to­dos dos es­ta­dos e mu­ni­cí­pios vi­vem nas pá­gi­nas po­li­ci­ais, com a mal­ver­sa­ção de seus re­cur­sos.

O TCU não se me­te com a Pre­vi­dên­cia dos Es­ta­dos e Mu­ni­cí­pios. Quan­do fis­ca­li­za­va a Re­cei­ta Pre­vi­den­ci­á­ria acom­pa­nha­va o en­di­vi­da­men­to cres­cen­te dos es­ta­dos e mu­ni­cí­pios pen­du­ra­dos no RGPS. Sa­bí­a­mos do pas­si­vo que era ro­la­do ano a ano, con­si­de­ran­do as elei­ções es­ta­du­ais e mu­ni­ci­pa­is. Ho­je a di­vi­da dos que ain­da es­tão no RGPS bei­ra os R$ 20 bi­lhões, com um Refis de 20/30 anos, pa­ra ser não pa­go.

Os fis­ca­lis­tas ar­gu­men­tam que os fun­dos de pen­são de­vem dei­xar o te­to da Pre­vi­dên­cia e pas­sar à Fa­zen­da, por te­mor à mal­ver­sa­ção tão en­dê­mi­ca e pan­dê­mi­ca co­mo a den­gue e a zika. Pen­sam que se­ria uma so­lu­ção. Afir­mo que não, pois é de­sas­tro­sa a ad­mi­nis­tra­ção da re­cei­ta pre­vi­den­ci­á­ria pe­la Re­cei­ta Fe­de­ral. Não há fis­ca­li­za­ção, o com­ba­te à so­ne­ga­ção, eva­são, eli­são, co­bran­ça e re­cu­pe­ra­ção de cré­di­to é ze­ro. Às ve­zes, ze­ro al­gu­ma coi­sa!

Co­mo as coi­sas es­tão pos­tas, de­sar­ru­ma­das, a ca­da dia, os ati­vos es­tão se re­du­zin­do e os pas­si­vos au­men­tan­do ex­po­nen­cial­men­te.

Os pro­fe­tas do ca­os to­dos os di­as vi­su­a­li­zam um de­sas­tre. O Exe­cu­ti­vo vai nas águas dos fis­ca­lis­tas que não tem uma vi­são so­ci­al da Pre­vi­dên­cia.  O Le­gis­la­ti­vo só se im­por­ta em le­var van­ta­gem em vo­ta­ções e o Ju­di­ci­á­rio tei­ma em fa­zer da ex­ce­ção a re­gra, quan­do ju­di­cia­li­za a pre­vi­dên­cia com to­ne­la­das de man­da­dos de se­gu­ran­ça pa­ra pa­gar be­ne­fí­cio a quem não con­tri­bu­iu.

Re­fli­tam se­nho­res, an­tes que se­ja tar­de. Ain­da te­mos tem­po pa­ra co­lo­car a Pre­vi­dên­cia no seu ru­mo.

 (Pau­lo Ce­sar Re­gis de Sou­za, vi­ce-pre­si­den­te exe­cu­ti­vo da As­so­cia­ção Na­ci­o­nal dos Ser­vi­do­res da Pre­vi­dên­cia e da Se­gu­ri­da­de So­ci­al-Anasps)

 

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