As favas de Custódio
Redação DM
Publicado em 11 de maio de 2016 às 02:42 | Atualizado há 10 anosDaniel era um camarada que, chegante do Nordeste lá na minha cidade, mostrou-se muito esforçado e trabalhador, vivendo de fazer seus rolinhos na compra e venda de bezerros e agenciando gado para boiadeiros, de sorte que ia fazendo daquela rotina seu ganhame de vida.
Sempre de chapéu, Daniel era meio avermelhado, olhos claros, porte retaco, lembrando mais um camarada do Sul, não fosse seu sotaque que denunciava o falar da terra do Padre Cícero ou de suas rodeanças.
Amigueiro e ajeitado, ele cativou a amizade do povo de Dianópolis, onde fez um pezinho de meia que lhe garantia uma vidinha decente.
Anos depois de se estabelecer e angariar a simpatia dos locais, Daniel resolveu rever sua terrinha e para lá foi com um dinheirinho apurado na venda de uns garrotes.
Dias depois, retornou com sua caminhonete C-10 carregada de sacos de mantimentos, que depois se soube ser fava, cereal muito consumido na sua terra natal. Investira todo o dinheiro da garrotada em sacos daquele grão.
Chegou antegozando o lucro que teria com a venda da fava, que lhe custara barato no Nordeste, onde era a comida do dia a dia. E o alto consumo da fava fê-lo crer que aqui no Tocantins seria o mesmo, ou seja, venda garantida.
Ele encostou sua caminhonete debaixo das mungubeiras da porta lá de casa e ficou oferecendo a carga a quantos desciam a praça cabeça abaixo no rumo da Rua Benedito Póvoa. Ninguém se aventurou a comprar nem mesmo um litro, quanto mais quartas e mais quartas do já incômodo cereal.
Ocorre que, seja pela falta de costume, seja pelo gosto diferente do feijão, o tocantinense não come fava. Lá uma vez ou outra, alguém compra (quando acha) um litro para fazer um baião-de-dois, ou rubacão, prato que é quase a única serventia da fava.
Lá pelas tantas da tarde, já sol baixo, passa Custódio Cardoso, pequeno mas próspero comerciante, que, tal qualmente Daniel, fizera a vida destinando os lucros de sua venda na compra de bezerros, tornando-se forte fazendeiro, com um criatório respeitável na Fazenda Nogueira.
– Custódio, me compra essa fava! – quase que implorou Daniel.
Custódio olhou nas mãos e Daniel e não viu saco ou vasilha e até deu um alento no vendedor quando perguntou:
– Cadê a fava?
E deu um sorrisinho matreiro quando Daniel apontou a carga em riba da caminhonete e falou o preço:
– Taí a fava!
Custódio, exímio comerciante, nem tentou consolá-lo e bordou a situação:
– Moço de Deus, a gente vende fava é lá uma vez ou outra pra inteirar o de comer ou fazer um rubacão, que até hoje ninguém entrou na minha venda caçando fava, não! – e virou os calcanhares, subindo cabeça acima de volta a sua vendinha de secos e molhados ali na Rua Água Boa, antiga Rua dos Grilos, deixando de comprar na bacia das almas a mercadoria de Daniel.
Na praça, mais de vinte moleques disputavam uma pelada com bola de mangaba, e Daniel ficou invejando a alegria e despreocupação dos meninos nus da cintura pra cima, correndo atrás da bola, numa gralhada escritinho periquito na manga. Sentado no banco de cimento, com o queixo nas mãos em concha e os cotovelos enterrados nos joelhos, ele não imaginava como se sairia daquela situação.
Nisto, chega Edilton de Zé de Bento, camarada inteligente e que sempre foi cheio de armadas e começou a prosear com o inconsolável Daniel. E lhe disse:
– Vou vender sua fava! E é já!
– Como? – quis saber Daniel.
Sem falar palavra, Edilton chamou a meninada e arrebanhou-a debaixo da mungubeira, ali a distancinha de Daniel, e cochichou com a molecada, voltando para Daniel:
– Depois de vendida a fava, você dá um minréis a cada menino?
– Na hora! – alegrou-se Daniel, sem atinar com o plano de Edilton.
Daí a pedaço, estava Custódio palitando os dentes deitado no balcão, quando chegou um menino:
– “Seo” Custódio, tem fava? Se tiver, quero dois pratos.
– Tem não – respondeu indolente.
Mal o moleque sumiu, entrou outro:
“Seo” Custódio, minha mãe mandou dizer assim que o senhor me entregasse três litros de fava.
E o resto da tarde foi só menino chegando e encomendando fava, e Custódio clareou as vistas pra riba de um lucrozinho fácil que se mostrava na venda de fava. E saiu em desabalada carreira no rumo das mungubeiras, encontrando Daniel já enlonando a carga, ao lado de Edilton, e falou:
– Daniel, pensando bem, por aquele preço eu fico com a fava.
Já devidamente combinado com Daniel, Edilton, todo gesticuloso (como é do seu feitio), atravessou:
– É, Custódio, cê chegou tarde, pois acabo de fechar negócio com Daniel! Já tenho encomenda desta fava lá na Conceição e nas Taipas.
Custódio se desesperou e implorou que Edilton lhe passasse o carregamento de fava, sendo repelido, e voltando a insistir, até que Custódio aquiesceu em pagar-lhe um ágio, com o que concordou Edilton, mandando Daniel descarregar a fava na venda de Custódio, que escamou as notas novinhas da compra mais o ágio.
Depois de entregar o pagamento ao satisfeitíssimo Daniel, Edilton dividiu o “ágio” com a molecada, que foi, toda fagueira, chupar picolé no Bandeirante Bar.
O fato se deu há coisa de uns quinze anos. Da última vez em que estive na venda de Custódio, antes de ele se mudar para Redenção do Pará, ainda existia fava amontoada, forante a que se perdera de mofo, pois ele já enjoara de tanto comer fava pra não perder o dinheiro.
(Liberato Póvoa, desembargador aposentado do TJ-TO, membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina de Letras escritor, jurista, historiador. advogadoiberatopo[email protected])