Brasil

Aspectos da vida escolar de Pedro Ludovico

Redação DM

Publicado em 17 de dezembro de 2016 às 02:08 | Atualizado há 9 anos

Pedro Ludovico Teixeira deixa o leitor sabendo, em suas Memórias (1973),  que “uma parte interessante da minha infância deve ser registrada: a minha passagem pela Escola de Mestra Nhola. Alí estive quatro anos, dos seis aos dez.” O menino Ludovico ingressara alí no ano de 1897. Conforme informam suas Memórias, a mestra “era hábil, enérgica e cumpridora dos seus deveres, sobretudo justa. Exigia exercícios de várias espécies, entre os quais o de conjugar verbos. Colocava em fila quinze, vinte alunos e mandava que conjugassem o verbo tal. Iniciva com o primeiro da fila, passando ao seguinte. Se muitos não sabiam, eram castigados, com bolos de palmatória, por um dos que se tinham saído bem.” O leitor fica ciente de que “se alguém cometia uma falta grave, ficava de joelhos de trinta minutos a uma hora. Era inflexível. O seu curso era misto, isto é, para ambos os sexos, mas separados. Com as meninas ela era mais tolerante.”

“Naquele tempo, não havia grupos escolares, nem ginásios, pelo menos na minha terra.”

A gente completa que, naquele final do século XIX, estavam em voga as concepções pedagógicas do erudito  Abílio César Borges (1824 – 1891), o Barão de Macaúbas. Apesar dos castigos.

Mais ou menos nessa mesma época, a poetisa Cora Coralina frequentava as aulas de uma outra aclamada Mestre-Escola vilaboense, Silvina Ermelinda Xavier de Brito. A mestra Silvina.

Findo o curso primário, 1901, o jovem Ludovico matriculou-se, “aos dez anos, no Liceu de Goiás, para fazer exames parcelados de Português e Francês.”

O jornal Goyaz, cidade de Goiás, edição de quarta-feira, 19 de março de 1902, traz, página 2, conservando-se a ortografia original da época, o nome de Pedro na “lista dos alumnos matriculados nas aulas do Lyceu”. Matricularam-se, junto com Pedro, aqueles que iriam se tornar, mais adiante, personalidades eminentes da vida política e cultural da época. Dentre os quais, a gente destaca o poeta romântico Joaquim Bonifácio Gomes de Siqueira, Humberto Martins Ribeiro (futuro presidente do Estado), Jorge Cornélio Brom (um dos pioneiros do automobilismo em Goiás), o desembragador Benjamin da Luz Vieira, Felicíssimo do Espírito Santo Filho (tio avô do ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso) e outros.

O Pedro memorialista deixa claro que, além dos mestres desse estabelecimento de ensino, obteve aulas particulares com outros.

Deixa claro mesmo ter tomado aulas de matemática com o professor Francisco Azevedo, que saiu  grafado, na sua autobiografia, “Francisco Azeredo”, o grande filólogo do Dicionário Analógico da Língua Portuguesa e Ideias Afins, “que tinha prazer em explicar a teoria do máximo divisor comum.” Os alunos deliravam “quando o viam pegar o giz, dirigir-se ao quadro negro e desenvolver essa teoria.”

“Após dois anos, prestei os exames de Português e Francês. No de Português tudo correu normalmente, muitos examinandos sendo aprovados e alguns reprovados. Saí-me bem. Com doze anos de idade, conheci a primeira vitória da minha vida, no exame de francês. Eram vinte e um examinandos, todos mais velhos do que eu, havendo mesmo rapazes com mais de vinte anos. Na prova escrita, éramos obrigados a traduzir uma página de um livro em francês, sem auxílio de dicionário. Foi um desastre. Dos vinte e um candidatos, só passamos eu e um tenente da Polícia chamado Firmino.”

O êxito de Ludovico e Firmino saiu estampado no Semanario Official da cidade de Goiás, número 234, a 16 de abril de 1904, página 2. Leia só, na velha ortografia, a transcrição dele: “Francez/ Approvados plenamente/ Pedro Ludovico Teixeira/Firmino Pereira Guimarães.”

Já na disciplina de Português, consta alí, página 2, ter o rapaz sido aprovado “simplesmente”.

Só agora a gente sabe ter essa aprovação nos Exames Gerais Preparatórios do Liceu sido o salvo-conduto que permitiria, repetindo, que permitiria, ao menino Pedro cursar a Academia de Direito, se assim o desejasse. O que não se concretizará entretanto. Note só o que registra o Semanario Official, anno VIII, cidade de Goiás, 16 de abril de 1904, número 234, página 2: “Exames Geraes Preparatorios/Março de 1904/Lista dos candidatos inscriptos, conforme os cursos superiores ou especiaes em que pretendem matricular-se/Direito/12 Pedro Ludovico Teixeira.”

Os denominados “exames gerais preparatórios” eram pré-requisito fundamental para o seu futuro assentamento no curso de Direito.

Foram suas concorrentes, nesse concorrido pleito, dentre outros ilustres nomes, a poetisa Leodegária Brazília de Jesus, considerada a primeira mulher a publicar um livro de versos em Goiás, e a acadêmica Eurídice Natal, primeira mulher a integrar uma academia de letras no país.

Essa autobiografia dá conta ainda que “instalado o curso ginasial no Lyceu, por força de lei regulamentadora, fui forçado a fazer, novamente, os exames das mesmas matérias. Repetiu-se o quadro. Passei normalmente em Português e, em Francês, fui o único aprovado na prova escrita, em que recebi a nota 1, indo para a oral, em que obtive a 10.”

Resta frisar serem bem diferentes os critérios das notas dadas à prova escrita e à oral. Note que Pedro obtivera “1” na escrita; e “10” na oral.

Resta mesmo frisar que para ascender ao então ensino ginasial, era necessária a realização de um exame de admissão, depois de finalizado o primário. Por isso é que o aprendiz Pedro Ludovico fora forçado a repetir toda aquela sequência.

Ludovico menciona, a par de Francisco Azevedo, com carinho, alguns lentes dessa fase, como, Joaquim Craveiro, álgebra e trigonometria; Augusto Ferreira Rios e Henrique Péclat, mestres de Francês; e Sebastião Ferreira Rio, matemática. E alguns saudosos colegas como “Túlio Jaime, Odilon de Amorim, Lambertina Póvoa, Benedito de Albuquerque Pereira, Ildefonso de Almeida, Diógenes Pereira da Silva…”

Eis senão, aos 18 ou 19 anos, “desobrigado do meu curso básico, achava-me em plena juventude, diante de uma encruzilhada: marchar para um emprego público ou continuar os estudos. Decidi. Resolvi ser engenheiro, dada a minha vocação para matemática.”

Mas, mas, ora as Parcas, oras as altas senhoras do destino, haviam decididamente de intervir a fim de torcer essa firme resolução do jovem Pedro, no sentido dele abraçar uma outra carreira.

“Em Goiás não existia nenhum estabelecimento de ensino superior. Seria forçado a ir para o Rio ou São Paulo.”

“Mas ir, como? Não tinha condições financeiras para fazê-lo. Há todavia sempre um pouco de sorte em tudo. A minha tia Antônia Ludovico Coelho auxiliou-me com 400 mil réis, para empreender a viagem.”

“E meu irmão, João Teixeira Álvares Júnior, residia no Rio, já ligado pelo casamento, para cuja casa pretendia ir até que conseguisse colocação.”

Já no capítulo “Ida Para o Rio”, Pedro informa que “para a Capital Federal me dirigí, percorrendo 75 léguas a cavalo, de Goiás a Araguarí. Fomos eu e Idelfonso Gomes de Almeida, meu primo, que havia terminado o curso do Liceu comigo.”

Aí está o que noticia o jornal Goyaz, anno XXV, sabbado, 9 de abril de 1910, numero 1110, primeira página: “seguiram para o Rio, onde vão continuar seus estudos os bachareis em letras Ildefonso Gomes de Almeida e Pedro Ludovico Teixeira Alvares, filho e sobrinho do nosso amigo Domingos Gomes. Boa viagem e muitas felicidades.”

Pedro relata, em sua autobiografia, que não obstante o ano letivo já estivesse em curso, conseguiu, por meio de um deputado de Minas Gerais, amigo do seu irmão, matricular-se na Faculdade de Medicina da Praia de Santa Luzia, única unidade existente alí na cidade Maravilhosa.

A ajuda do tal parlamentar mineiro parece ter sido oportuna a fim de que Pedro se matriculasse, ainda que o ano letivo se achasse em curso, uma vez que “o sr. ministro da justiça permittiu que se matriculem na Faculdade de Medicina desta capital os estudantes Benedicto Marcondes Senna, Joaquim Ferraz Junqueira e Pedro Ludovico Teixeira Alvares. ”, confome registra o jornal O Paiz, Rio de Janeiro, domingo, anno XXVI, número 9367, 29 de maio de 1910, página 4.

 

(Pedro Nolasco de Araujo, mestre, pela PUC-Goiás, em Gestão do Patrimônio Cultural, advogado, membro da Associação Goiana de Imprensa – AGI)

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