Brasil

Até que a desonra os separe

Redação DM

Publicado em 13 de novembro de 2016 às 01:06 | Atualizado há 10 anos

Os melhores filmes são aqueles capazes de nos colocar diante de um conflito que nos revele quem de fato somos. Um perfeito exemplar do gênero é estrelado pelo grande ator Joaquim Fênix, e conta a história de três americanos que se conheceram em férias na Malásia e passaram a explorar o país. Os três compraram um pacote de maconha que fumavam juntos e juntos descartaram no lixo antes da volta aos Estados Unidos. O personagem de Joaquim Fênix fica na casa que os três alugaram, o voo dele sairia no dia seguinte.

Dois anos depois, os dois amigos que retornaram mais cedo recebem a visita de uma advogada. Antes de deixar a Malásia, o parceiro de férias foi preso porque encontraram o pacote descartado no lixo. A questão era simples: Se os dois voltassem e assumissem que dividiram a compra da maconha, a pena de cada um seria de 3 anos numa prisão imunda, mas os três estariam livres após o cumprimento da pena. Caso não retornassem para assumir sua cota de responsabilidade, o personagem de Joaquim Fênix seria executado, já que a lei do país prevê sentença de morte para traficantes.

Eis aí um belíssimo conflito humano: Eles estavam fora do alcance da lei, ninguém podia obrigá-los a assumir sua cota de responsabilidade, era  só e puramente uma questão de justiça, ou de honra.  Qualquer pessoa dotada de um mínimo de honestidade percebe o desafio, um teste da índole própria. Ambos eram bem sucedidos, um estava noivo, prestes a se casar, deixariam seus apartamentos, carrões e empregos invejáveis por um… conhecido, alguém com quem conviveram por alguns dias e nem se lembravam mais. Era deles a escolha de entrar voluntariamente numa prisão infecta com boas chances de nem mesmo escaparem de lá vivos em razão da precariedade do lugar.

Mas chega de cinema. Há histórias iguais no mundo real. Assistimos algo muito semelhante nos noticiários políticos, um caso que teve início em 2002 quando o PT  elegeu o presidente da república para a alegria dos companheiros. Mas eis que chegou em seguida o Mensalão, um “crime” de caixa dois que envolvia campanhas de um número cada vez crescente de partidários e aliados, como reza a tradição. Embora o partido mantivesse prestígio em razão do avanço econômico, e isso atraísse os que queriam ser eleitos ou ocupar um cargo público, as constantes denúncias veiculadas na imprensa que caíam na boca do povo geravam um constrangimento para quem carregasse a estrela vermelha no peito.  A estrela atraía votos e a importância do partido abria as portas dos financiadores de campanhas, mas a sombra das acusações, que logo ficou claro que afetaria apenas o PT, pairava sobre suas cabeças.

Como todos sabem, Dirceu foi preso não por receber ou acumular dinheiro. É um homem de vida pacata, sem mansões nem carrões, mas acusado de ser conhecedor do esquema que pagava campanha de aliados. Obviamente eram muitos os beneficiados, eram todos. Se cada um assumisse seu quinhão e partisse para o confronto mostrando que campanhas com financiamento de empresas possuem um rito próprio e imutável, que esse era o sistema que vigorava no Brasil desde a primeira eleição direta após a ditadura, que caixa dois não era indício nem prova de corrupção, que assim como nos demais países o enriquecimento ilícito, as contas secretas na Suíça, a vida cara e hábitos sofisticados é que deveriam ser investigados… No lugar da mera aceitação haveria não uma briga contra os acusadores, mas uma boa luta, termo mais apropriado para questões justas e pertinentes.

Porém, o que se viu foi constrangedor. Candidatos tanto ao legislativo quanto ao Executivo preferiram se manter afastados, embora tivessem levado o seu quinhão para eleições de onde muitos saíram vitoriosos, outros derrotados, mas não por falta de santinhos, adesivos, cabos eleitorais e outros badulaques que compoem o arsenal usado para a caça aos votos no Brasil. Mantinham o companheirismo no que dizia respeito aos recursos para disputarem pleitos, mas não se via um único deles disposto a fazer da campanha, do tempo de televisão, do corpo a corpo nas ruas, um meio de furar o bloqueio da mídia e defender o partido a fim de derrotar a demonização em curso. Faziam campanhas sem querer conspurcar a própria imagem. Afinal, estavam fora do alcance da lei, assumir sua cota de responsabilida era apenas e somente uma questão de justiça.

Enfim… Todos conhecem o desenrolar desta trama em que Moro distingue como dinheiro sujo todo aquele usado por quem atravessa o caminho ou não serve de ponte para construir o futuro império tucano no Brasil.

E o fato é que Dirceu está preso, Vaccari (outro viabilizador de campanhas para os candidatos do PT) também está preso, Dilma (chegou a ter 78% de aprovação do seu governo) que também foi um dia tratada com o honroso título de companheira, foi para o exílio. Ninguém os conhece, ninguém se lembra deles.

Mas nem tudo está perdido. O partido se divide agora entre a fulgurante ideia de “companheiros” que planejam diluir a legenda em “frentes” com novos nomes e “companheiros” que planejam mudar de partido ou formar novas e límpidas legendas onde inevitavelmente começarão tudo de novo. O barco, antes abarrotado, vai se tornando cada vez mais vazio de companheiros. Os ratos pularam primeiro.

E assim termina a história,  com Dirceu, Vaccari e Dilma onde estão. E até mesmo Lula, ícone maior da estrela, já tem apoio cada vez mais condicionado, muitos preferem não tê-lo no palanque que a esquerda conquistou através do seu prestígio.  No mundo real, a escolha feita pela grande maioria foi a menos honrosa.

Para quem ficou curioso e quer assistir a ficção estrelada por Joaquim Fênix para descobrir se lá o final foi mais feliz, o nome do filme é “Pela vida de um amigo”. Mas não misturem as coisas, “amigo” é um termo forte demais. No mundo real, o termo “companheiro” combina mais com o enredo.

 

(Míriam Moraes, jornalista especializada em Política, escritora e pedagoga, autora do Livro “Política – como decifrar o que significa…” e do curso online “Política – por Míriam Moraes”)

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