Avanços sobre a causa e sintomas da esquizofrenia
Redação DM
Publicado em 10 de julho de 2017 às 23:51 | Atualizado há 9 anos
Esse artigo foi baseado na questão levantada por um amigo: Marcelo, é possível uma pessoa com transtorno bipolar vir a tornar-se esquizofrênica?
Vem bem a calhar pois estou com três casos desses no hospital nesse momento. Um deles é de um rapaz que por causa de ansiedade, depressão bipolar, começou a usar muita maconha , já aos 14 anos de idade. Nunca teve sintomas esquizofrênicos nessa idade. Hoje, já aos 29 anos, tem alucinações, acha que estão perseguindo, sente que “seu joelho foi trocado com o do seu primo”, acha que já não é uma pessoa única e sim uma pessoa múltipla ( “tenho várias cabeças, vários cabelos, as pessoas falam por mim”, etc ). Uma outra paciente , começou um quadro bipolar típico, aos 23 anos, abrindo com uma severa depressão pós-parto, depois melancolia. Seguiram-se episódios de depressão e mania, ou seja, típicos de doença bipolar. Infelizmente foi internada em uma clínica psiquiátrica onde aprendeu a fumar. Também tinha hipotiroidismo, nunca diagnosticado e nunca tratado. Tanto o tabagismo quanto o hipotiroidismo ( via dislipidemia ) deram nela graves problemas cerebrovasculares, identificados pela ressonância magnética nuclear de crânio. Esses problemas cerebrais produziram um quadro de “parafrenia esquizofrênica”, hoje ela fala como se fosse a vizinha que falasse através dela. Fala frases e palavras ininteligíveis, ou seja, neologismos, dislogia. Diz, por exemplo, que a vizinha fez “vidação” com a vida dela, diz que as pessoas mudaram seu corpo, que seu corpo não é esse, seu corpo é “vidrado” ( outro neologismo ) , o corpo era bem diferente antes das pessoas entrarem nele, etc. Diz que seu corpo foi modificado completamente, “eu não era feia assim”, mostrando que ainda tem sintomas depressivos , de menos-valia.
Um outro paciente é um marinheiro, até então normal, que teve um surto psicótico-ansioso de fundo bipolar em um submarino, mas ficou muitos dias sem tratamento, foi trancado num cubículo, e ao aportar em terra, já estava muito psicótico. Num ambiente de muita pressão, sem tratamento adequado para doença bipolar, sendo submetido à pressões militares extremas, várias juntas médicas, pessoas negando sua doença, pessoa o discriminando por ser um “fraco” ou um simulador, seus níveis de estresse ficaram muito altos. E isso o foi “esquizofrenizando” aos poucos; hoje fala que é “o rei da água”, que tudo é água, que sua mãe não é sua mãe, etc.
Então, como se pode ver, há vários fatores “esquizofrenizantes” numa pessoa, doença bipolar não tratada e acompanhada de estresse constante, tabagismo, hipotiroidismo, canabinismo ( maconha ), lesões cerebrais supervinientes.
Os três pacientes citados acima, se fossem vistos num corte transversal, seriam tidos como esquizofrênicos, no entanto, não o são. A esquizofrenia “vera” se inicia de modo precoce, quase sempre há um comprometimento cognitivo-escolar ainda na infância, algum padrão de disfunção no desenvolvimento neuropsicomotor. Há também um precoce “enfraquecimento do eu”, o paciente tem dificuldade para estudar , trabalhar, atividades laborais, sociais, conjugais, familiares, isola-se, há um “aplainamento afetivo, volitivo”, idéias muito bizarras , por exemplo , uma de nossas pacientes com 10 anos de idade : “trocaram minha cabeça, colocaram uma cabeça de boneca em mim”.
O que é bem complicado é que mesmo pacientes esquizofrênicos verdadeiros, como essa menina que descrevi acima, podem vir a ter sintomas de doença bipolar, p.ex., depressão, mania, obsessão, fobia, ansiedade generalizada, etc, uma vez que essas duas condições médicas aparentemente compartilham de um mesmo pool genético. Mas isso é tema para outra discussão.
Para deixar bem claro, no final, o que eu disse é que existe a “esquizofrenia verdadeira” ( “vera”) e doenças mentais que são “esquizofrenizadas” por uma série de fatores. Tais doenças esquizofrenizadas não são esquizofrenia; parecem esquizofrenia mas não são. É importante a diferenciação para o tratamento , que é diferente. As causas de “esquizofrenização” de doença bipolar também devem ser detectadas precocemente, pois isso pode impedir o avanço de uma doença mais leve para uma doença bem mais grave, às vezes intratável.
Tanto a esquizofrenia vera quanto as psicoses esquizofrenizadas são o fruto da desconexão entre determinadas áreas cerebrais, região frontal, cingular anterior, prosencefálica, talâmica, amígdalo-hipocampal. As desconexões entre essas áreas podem ser causadas por fatores adquiridos ( “psicoses esquizofrenizadas”) assim como por fatores do desenvolvimento cerebral intra-útero ( esquizofrenia “vera”). Doença bipolar da mãe/pai parece predispor a este tipo de neurodesenvolvimento anômalo. Taí o resumo de tudo. (detalhes mais técnicos serão discutidos em nosso livro Neuropsicologia dos Transtornos Psiquiátricos, a ser lançado em novembro , pela Editora Sparta, de São Paulo.
(Marcelo Caixeta, médico psiquiatra ( hospitalasmi[email protected] ). Artigos no Diário da Manhã, Goiânia ( gratuito em impresso.dm.com.br ) as terças, quintas, sextas, domingos)