Brasil avança no combate à fome, mas desigualdade regional mantém insegurança alimentar
Léo Carvalho
Publicado em 15 de dezembro de 2025 às 16:00 | Atualizado há 6 meses
Uma família sem alimentos à mesa, em área urbana, cena que retrata a persistência da insegurança alimentar no país, apesar dos avanços registrados nos indicadores nacionais | Foto: Reprodução
O Dia Nacional de Combate à Pobreza, celebrado neste domingo (14), representa um momento de reflexão sobre os avanços e os desafios relacionados à desigualdade social no Brasil. Recentemente, foi anunciado que o país saiu do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU). Em 2025, segundo relatório internacional, o Brasil reduziu a prevalência de subalimentação para menos de 2,5% da população, o que representa uma conquista histórica.
Apesar desse avanço, a insegurança alimentar ainda é uma realidade para milhões de brasileiros. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do 4º trimestre de 2024, mostram que a proporção de domicílios em insegurança alimentar caiu de 27,6% para 24,2%, segundo a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA). Já os domicílios em insegurança alimentar grave, a situação mais extrema e diretamente ligada à fome, passaram de 4,1% para 3,2% entre 2023 e 2024. São avanços que precisam continuar.
Para a professora Tamiris Melo, mestra e professora do curso de direito da Estácio Goiás e doutora em sociologia, os avanços não anulam a urgência de políticas efetivas. “A insegurança alimentar está diretamente vinculada à pobreza estrutural. Mesmo com a redução da subnutrição, sem garantias legais mais fortes para segurança alimentar e políticas de proteção social, parte da população continua vulnerável”, explica.

A professora destaca que o fato de o Brasil ter deixado o Mapa da Fome não significa que o direito à alimentação digna esteja plenamente assegurado. “O Estado deve assegurar que a erradicação da fome seja acompanhada de medidas concretas para garantir alimentação decente para todos. É um direito constitucional, e ainda assim longe de ser cumprido na prática”, reforça a docente.
Ranking da Insegurança Alimentar
As regiões Norte e Nordeste, seguidas da Centro-Oeste têm as principais taxas de insegurança alimentar do Brasil, de acordo com os dados divulgados pelo IBGE, no módulo Segurança Alimentar da PNAD Contínua. Os menores percentuais estão no Sudeste e Sul. Os estados do Pará, Roraima e Amazonas estão no top 3.
Mato Grosso, que lidera o ranking no Centro-Oeste, é um dos estados com situação preocupante. Segundo o IBGE, mais de 1 milhão de pessoas no estado não tiveram comida suficiente ou adequada em 2023. Ao todo, 343 mil domicílios enfrentaram algum grau de insegurança alimentar, sendo 225 mil em nível leve, 69 mil moderado e 50 mil em insegurança grave, realidade que expõe como a fome e a má alimentação ainda fazem parte do cotidiano de muitas famílias mato-grossenses.
Fome de qualidade
A desigualdade entre os avanços nacionais e a realidade local também chama atenção para o cenário nutricional. Tânia Queiroz, professora de nutrição da Estácio FAPAN, aponta que sair do Mapa da Fome não significa que a população esteja se alimentando bem. “A conquista de sair do Mapa da Fome é simbólica e representa uma vitória importante para políticas públicas, mas não pode nos cegar para a qualidade da alimentação. Muitos brasileiros continuaram com dietas pobres em nutrientes, cheias de ultraprocessados ou com acesso limitado a alimentos adequados”, afirma.
A professora Tânia destaca que a insegurança alimentar de hoje é, muitas vezes, silenciosa. “O problema não é apenas a falta de comida, mas a falta de comida nutritiva. A longo prazo, isso compromete saúde, desenvolvimento infantil, imunidade e aumenta doenças como diabetes, hipertensão e obesidade”, argumenta.
Para Tânia, superar esse cenário depende de ações integradas. “É preciso fortalecer a agricultura familiar, ampliar programas de merenda escolar com critérios nutricionais e incentivar políticas que garantam alimentos frescos e acessíveis. Só assim conseguiremos romper o ciclo da pobreza alimentar”, finaliza.
