Brasil

Cansei de tanta mediocridade

Redação DM

Publicado em 14 de julho de 2016 às 02:32 | Atualizado há 10 anos

Em que pese todas as conquistas tecnológicas, todos os conhecimentos científicos, tantas descobertas nos mais variados ramos das ciências e outros avanços, considera-se pertinente um questionamento: e a vida humana em si, o que o homem (gênero) tem feito da própria vida? Entenda-se vida aqui em sentido além do material; vida no sentido existencial participativo, no sentido místico, considerada a natureza humana como diferenciada, dotada de elevada inteligência e capacidade criadora, construtiva e transformadora.

Assim, tendo estas premissas como de aceitação consensual torna-se melancólico afirmar que pelo que vimos e pelo que assistimos da sociedade, da rotina social das pessoas, temos uma mediocridade em quase tudo, na vida de quase todos. Nesse mar de coisas e de práticas medíocres salvam-se poucos, senão vejamos.

De início, o que vem a ser mediocridade? Seria uma qualidade contrária à virtude ou ao caráter construtivo e de progresso da pessoa, como animal superior. Seria uma quase renúncia de cada um aos seus pendores ou vocações morais e de ânimo em qualquer setor da vida. Ser medíocre é sempre contentar com aquilo que nivela a pessoa do grau médio (mediocridade) para baixo (minicridade). Tal ideia vale sobretudo para aqueles atributos que realçam a pessoa humana nos seus qualificativos cívicos (cidadania), éticos, morais e participativos. Bem assim as aptidões intelectuais, a formação escolar e o aprimoramento tecno-científico.

O oposto ou antagônico do medíocre é aquele sujeito competitivo, ambicioso, trabalhador, estudioso; que busca sempre uma ascensão como pessoa e na vida técno-profissional. Com todo esse conjunto de bens intelectuais e morais tem-se em geral como corolário uma elevação do status econômico e financeiro, embora não seja uma condição excludente das primeiras qualidades.

A par de tantos avanços tecno-científicos a mediocridade tem sido uma constante na vida de muitas pessoas, das famílias e da sociedade. Deixando a tese pura e simples da mediocridade de lado, vamos enumerar algumas práticas, hábitos, automatismos e costumes do jeito medíocre de ser de muitas pessoas.

Na alimentação e atitudes gastronômicas. Aqui podemos caracterizar como fútil e supérfluo os muitos hábitos “nutricionais’’ das pessoas. A busca e ingestão desregrada de alimentos, como alvo de gozo e prazer, mostra muito bem a inutilidade dessa tendência. Que efeito positivista e construtivo tem a deglutição de muitos alimentos insalubres no organismo de seus usuários? Um exemplo da mediocridade da sociedade na alimentação é a pessoa se empanturrar de tanta “porcariada” de comida e em seguida ter que tomar um medicamento para má digestão, para enxaqueca ou gastrite. Quando não têm-se casos de intoxicação alimentar, cólica biliar, pancreatite aguda e outros danos orgânicos por excesso alimentar. Excesso de sandice na forma mais genuína.

Outro encontradiço exemplo de mediocridade da sociedade está no gasto e gosto  musical de cada um. A insanidade nesse sentido é tanta que basta ver o que faz sucesso no meio artístico dos gêneros musicais. A primeira blasfêmia ou vulgaridade a se constatar está nas letras do que se toca e canta, depois a barulheira infernal  aos ouvidos das pessoas. O sucesso e faturamento desse ramo de entretenimento se dá pela atração que tem a sociedade por tanta mediocridade.

E não param por aí os exemplos de mediocridade na vida das pessoas que não pensam, não têm tino crítico, não leem, não criam. Aliás, leitura, cultura e capacidade pensante e crítica, parece que fazem mal às pessoas. Tocar nesses assuntos em rodas de amigos, hoje em dia, é desagradar, enfim, cutucar uma caixa de marimbondos. Melhor deixar como está e não se toca no assunto.

Temos mediocridade no consumo com cartão de crédito, naquela medíocre cultura: compro agora e pago depois; no financiamento de longo prazo do carro, da casa própria e de cirurgia plástica; e acreditem, tem-se mediocridade até na prática religiosa de muitas igrejas. As igrejas de  hoje, muitas evangélicas, praticam mediocridade “espiritual”, por exemplo, com a chamada teologia econômica ou do enriquecimento fácil. Algumas pedem sempre mais ofertais e doações com a promessa de um passaporte para o céu. Com isso enriquecem mais seus líderes e empresários. Outras têm os ensinamentos de como prosperar na vida, pura teologia de ascensão econômico-financeira, só mediocridade, que se fazem até com muitos milagres duvidosos  e falsas profecias.

Na política temos práticas medíocres aos milhares, aliás, aos milhões. Nesse cenário, sim, a mediocridade e a corrupção se fazem em profusão.

Por último o top 10 da mediocridade hoje está no usufruto da internet e das mídias digitais. O costume em cada família é: cada qual com seu smartphone e notebook interligado nas redes sociais. Ninguém mais fala com ninguém. Agora estou ocupado, dá um tempo, depois a gente se vê! Quando se fala em internet e mundo virtual há uma combinação mútua e solidária de muitos modos medíocres de ser. Tem-se mediocridade na comunicação, nos namoros, nas amizades, nas compras de futilaria on-line. Até sexo sem nexo e fútil, sem qualquer vínculo afetivo se acha pela grande rede. Êta mundão de gente desvairada e tresloucada esse em que vivemos e sobrevivemos. Julho/2016.

 

(João Joaquim – médico – articulista DM – www.drjoaojoaquim.com  face/ joão joaquim de oliveira)

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