Chá das cinco em Londres
Redação DM
Publicado em 6 de outubro de 2015 às 21:40 | Atualizado há 11 anosO ano, 1972, mês? Provavelmente julho ou agosto!
Marília e eu morávamos, desde o começo do mês de maio, na “Casa do Brasil”, situada na Lancaster Gate, 49, e que era uma extensão da Embaixada do Brasil em Londres, cuja finalidade era a de abrigar estudantes brasileiros que estavam fazendo estágios naquela cidade. Heitor Rosa e sua esposa Consuelo chegaram, com a mesma finalidade que a nossa, como havíamos combinado aqui em Goiânia, no mês de junho.
Era diretor da Casa o prof. João Lourenço, um advogado carioca que, pelo tempo que ali morava, já havia adquirido alguns dos costumes dos ingleses; era um perfeito “gentlemen”, vestia-se com bom gosto, na maioria das vezes ternos escuros. Nunca o vi, fizesse chuva, calor ou nevasse, sem o traje completo (terno e gravata).
Com o tempo passamos, Heitor e eu, a desfrutar da intimidade da sua casa (último andar do prédio de 4 andares, onde vivia na companhia da sua esposa dona Luiza e de uma filha solteira, porém, já “balzaquiana”). Éramos os únicos médicos da casa e, algumas vezes, fomos solicitados a dar atendimentos para ele ou para sua esposa (ambos já idosos).
Quando escrevi o livro Couto de Magalhães, o último desbravador do Império, “hospedei” Couto de Magalhães naquela casa quando da sua chegada em Londres em 1876 e ali descrevo, em rápidas pinceladas, a sua sala de recepção, mostrando com isto, o quanto aquele ambiente deixou marcas nas minhas movimentações.
À medida que o tempo passava, observávamos que o Prof. João nos tratava, os dois casais, com atenção extremada e em duas oportunidades fomos distinguidos com convites oriundos da Embaixada brasileira, porém, intermediado por ele, mostrando, com isto, o carinho com que ele nos tratava: uma vez por ano, a Rainha da Inglaterra promove, nos jardins do Palácio de Buckingham, um chá a ser oferecido às esposas dos diplomatas que representavam seus países junto à Corte de Saint James.
Marília e Consuelo foram convidadas a comparecer, na companhia de dona Luiza e da sua filha; nossa penúria econômica era tão grande, que não fomos capazes de comprar, (como exigia o protocolo) chapéus para as duas, tendo em vista que, após aquela tarde de “glamour”, nunca mais teriam oportunidade de usá-los e havia outras prioridades no nosso dia a dia, portanto…
Até hoje não nos perdoamos, seria a oportunidade das duas estarem bem perto da rainha da Inglaterra, provavelmente com registro fotográfico!
Outro convite, agora Heitor e eu foi quem recebeu do prof. João, para acompanhá-lo na visita a um “Gentlemen Club´s – Clube somente para homens”, onde deveríamos tomar o famoso chá das cinco, como sabemos, costume arraigado na vida dos ingleses; o nome do clube era Boodle (localizado na St. James Street), foi fundado em 1762 e como o prof. João nos alertara, este clube é o segundo mais antigo do mundo em funcionamento (existem outros semelhantes em Londres) é privativo de frequentadores do sexo masculino e é famoso por contar no seu quadro de sócios grande número de membros da aristocracia londrina e notáveis políticos (seu fundador, Marques de Lansdowne, foi primeiro ministro da Inglaterra, assim como outro dos seus membros, Sir Winston Churchill).
Outra característica destes “Gentlemen Club´s’, explicou-nos o prof. João, é o fato de que a privacidade dos seus frequentadores deve ser mantida até as últimas consequências. Se você encontrar ali, por acaso, um amigo, é proibido “puxar” conversa com o mesmo, a não ser que vocês tenham marcado, previamente, um encontro; é levado em consideração o fato de que, talvez, este seu amigo tenha ido ao clube para refletir sobre algum assunto ou não esteja interessado em conversas.
Não precisa dizer que o silêncio no ambiente é rigoroso, no máximo pode-se ouvir o barulho da mudança de páginas do jornal que alguém esteja lendo.
Fomos recebidos na porta, com toda a fidalguia, por uma “figura inglesa”, parecendo um dos personagens do romance Orgulho e Preconceito, da escritora Jane Austen: um senhor idoso, trajando fraque e cartola e, após as identificações, pegou nossos capotes e levou-nos à uma mesa situada em um canto do salão. O ambiente era aquecido (lá fora a temperatura deveria estar ao redor de 12 graus) e um piano era tocado com muita discrição, na surdina. De vez em quando, Heitor e eu, trocávamos olhares e pensávamos: será verdade que estamos aqui?
O maître se aproximou da nossa mesa e, com toda a mesura, apresentou-nos a listagem de chás e os respectivos acompanhamentos; prof. João, dando provas da sua familiaridade com o ambiente, pediu um tempo para decidirmos; o maîre fez outra mesura e se afastou.
Vocês sabiam, fala o prof. João, que o chá chegou na Europa em meados do século 17, ao mesmo tempo que outros dois exóticos “drinks”, o café e o chocolate e que tinham algumas características que os aproximavam: – Eram consumidos quentes, psicoativos e possivelmente deixavam as pessoas viciadas no seu uso e cada um deles veio para Europa de diferentes partes do mundo – o café veio da Arábia, chocolate do continente americano e o chá da China.
Volta o maître e o prof. João dá as ordens: chá preto quente (cuja marca, obviamente não me lembro), alguns biscoitos, pães e croissants; dali a pouco ele volta, agora na companhia de dois outros garçons e esparrama a parafernália por sobre nossa mesa: – jogo de xícaras de porcelana de cor branca com desenhos, feitos à mão, nas suas bordas, “bule” de prata e uma grande variedade de “gosssips”, dispostos em arranjos, semelhantes a torres; um garçom permaneceu ao redor da nossa mesa até o final do ritual, “adivinhando” a hora de servir-nos outras porções de chá.
Ficamos ali cerca de duas horas e o prof. João. à medida que o ritual do famoso “5 o´clock tea” seguia seus trâmites, explicava aos dois “goianos de pés rachados” todo o glamour que esta experiência diária transmite aos ingleses; podemos dizer, explicita o prof. João, que esta cerimônia a que estamos presenciando agora, com todo o requinte e sofisticação que ela exige, é superponível, para os ingle-ses, à imagem e o simbolismo do Big Ben e da família Real.
Prof. João, ao ser servido pelo prestimoso garçom, faz uma prova inicial e, provavelmente, respondia para si mesmo: (mais açúcar? Menos açúcar? A temperatura está adequada?), segurando a asa da xícara com as pontas dos dedos indicador e polegar; o garçom, imóvel, aguardando algum sinal que lhe permitiria servir-nos (Heitor e eu), um simples olhar que fosse, seria suficiente; após mais alguns segundos de expectativa, o prof. João passa o imaculado guardanapo de linho branco sobre os lábios, olha mais uma vez para o garçom e balbucia a palavra salvadora: ok! Estava desencadeado a sequência do ritual!
Ouvíamos, atentos, os ensinamentos do prof. João: a primeira prova leva-nos, semelhantemente ao que fazemos com a prova do vinho, a viajar na companhia dos nossos sentidos, procurando a presença da “teina” substância presente no chá, em níveis muito baixo e que substitui ao “tanino” no vinho; o habituado a tomar chá, descobre, ao primeiro gole, o seu corpo, que é a percepção do seu paladar e o seu aroma que é o seu perfume.
Algumas vezes, ao tomar uma chávena de chá, relembro de algum encontro que tive há muitos anos na companhia de alguma pessoa agradável; ainda agora estou me lembrando da presença da minha mulher Maria Luiza, que sempre me acompanha neste ritual das 5 horas, finaliza o prof. João, olhando-nos, como se fosse o maestro que dirigiu a orquestra em uma ópera e que aguarda o aplauso da plateia.
Heitor e eu não o aplaudimos, porém, aquele encontro deixou-nos marcas indeléveis que o tempo não apaga!
(Hélio Moreira, membro da Academia Goiana de Letras, Academia Goiana de Medicina, Instituto Histórico e Geográfico de Goiás)