Brasil

Chacrinha

Redação DM

Publicado em 15 de novembro de 2016 às 00:30 | Atualizado há 10 anos

Fomos assistir – eu e minha esposa – a um espetáculo musical, no Teatro Rio Vermelho, de bastante sucesso no país. Trata-se do Chacrinha. Já há dois anos em cartaz, o espetáculo é estrelado pelo ator goiano Stepan Nercessian. O texto, do jornalista Pedro Bial, é dirigido por um dos mais talentosos diretores da nova geração do cinema brasileiro: Andrucha Waddington.

Falecido há quase duas décadas, Chacrinha marcou época na televisão brasileira não só pela sua irreverência, mas, sobretudo, por sua inegável capacidade de comunicação. Criou ele bordões que se tornaram célebres. É dele o “quem não se comunica se trumbica”, bem como a verdade mais que verdadeira de que “na televisão, nada se cria, tudo se copia.”.

Amado por todas as classes sociais, o programa do Chacrinha fez a alegria da minha geração naquelas tardes de sábado. Pelo seu programa passou a maioria dos artistas da música brasileira. Do “cigano de araque” Sidney Magal, passando por Benito de Paula e chegando ao pequeno grande cantor Nelson Ned; dos roqueiros Titãs ao maior cantor romântico do Brasil: Roberto Carlos.

No programa do Chacrinha foi lançado o movimento tropicalista liderado pelos baianos Caetano Veloso e Gilberto Gil (que o imortalizou na música “Aquele Abraço.” Nesta, Gil canta: “Chacrinha continua balançando a pança e comandando a massa. Alô, Alô seu Chacrinha, Aquele abraço”).

Abelardo Barbosa (o Chacrinha) popularizou jurados como a exuberante Elke Maravilha aos rabugentos Pedro de Lara e Araci de Almeida. Todos caíram no gosto popular pelas mãos do “velho guerreiro.” Por trás daquelas roupas extravagantes e de suas chacretes de pernas de fora, Chacrinha imortalizou uma época na televisão brasileira. Abelardo Barbosa fazia de seu programa uma “zona” original.

O espetáculo soube sintetizar com maestria e leveza o Chacrinha como ele foi e como será lembrado: um grande comunicador, um “velho palhaço”.  A constante interligação do jovem Abelardo, representado por um ator de talento, com o Chacrinha na sua fase adulta, materializado pela competência de Stepan Nercessian, conectaram o presente ao passado de forma leve, mas, às vezes, trágica, como o acidente que deixou seu filho paraplégico. Esta interligação foi, a meu ver, o ponto alto do espetáculo.

Tudo estava ali: a infância vivida na pobre pernambucana Surubim, os primeiros passos nas rádios do Recife, o trabalho na pequena rádio localizada numa chácara em Niterói (daí vem o nome Chacrinha), a ida para a televisão, as brigas com José Bonifácio (o poderoso Boni, da Globo), tudo retratado no espetáculo musical. Musical que provocou, não só em mim, mas em todos que estavam lá no Rio Vermelho, um déjà vu daquelas tardes de sábado em que o programa do Chacrinha divertia milhões de pessoas. O enorme poder de comunicação do “velho palhaço” balançava as massas por este Brasil afora. Chacrinha foi-se deixando saudades de um tempo que não volta mais.

 

(Salatiel Soares Correia, engenheiro, bacharel em Administração de Empresas, mestre em Planejamento Energético. É autor, entre outras obras, de Cheiro de Biblioteca)

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