Coisa botada e situações incompreensíveis
Redação DM
Publicado em 5 de agosto de 2015 às 22:11 | Atualizado há 11 anosHá coisas que a gente fica sem entender por muito tempo. Uma delas é a faculdade que – dizem – certas pessoas têm de prever situações futuras, uma espécie de premonição, como o velho Severiano, que morava às margens do córrego Itaboca, lá no sertão de Conceição do Tocantins.
Para tentar fazer meu cunhado, Moreno, largar a pinga, levaram-no até o velho Severiano para, como curador, arranjar um meio de ele se afastar do maldito vício. O velho, meio tirado a misterioso, conversou com ele e disse categoricamente:
– Isto foi coisa botada!
E recomendou que ele fizesse um determinado “trabalho”, que nem sei qual foi mesmo. Curioso, Moreno indagou-lhe quem fizera aquilo, transformando-o num pinguço, se antes de se casar ele não bebia. Como de costume, os curadores nunca declinam nomes, mas mostram os meios pelos quais se revelam os mandraqueiros responsáveis. E informou-lhe que, logo após fazer o “trabalho”, ele saberia quem era o culpado, pois este seria alvo de uma perseguição policial. E ainda lhe recomendou que não aceitasse nada que viesse das mãos do tal homem que o fizera cair na cachaça.
Moreno ficou sem acreditar, pois naquele ermo, que nem polícia havia, como poderia alguém sofrer perseguição, ainda mais que todo mundo era pacífico, não havendo a mínima probabilidade de crime, quanto mais perseguição por uma polícia que sequer existia?
Mesmo assim, ele se prontificou a fazer o “trabalho” de desfazimento do feitiço, que seria num determinado ponto do lugar por nome Água Boa, a coisa de meia légua da rua. No local, malmente acabou de seguir as instruções do velho Severiano, notou que passava uma chusma de soldados no rumo da Santaninha, onde morava um fazendeiro muito conceituado, até compadre de meu pai, homem de vida misteriosa e hábitos rígidos, o qual, mercê de ser eu amigo da família, acho melhor não lhe dizer o nome, por não ser de bom preceito mexer com gente amiga nesses particulares.
O tal fazendeiro, a quem lhe tomava a benção quando menino, produzia de um tudo no seu sítio, não dependendo de nada da cidade, tirante o sal e a roupa, que até as macacoas da família ele curava com as mixilangas e meizinhas do mato. No mais, tudo ele produzia na Santaninha: cereais, café, rapadura, açúcar, remédios do mato e até as alpercatas arreadas que os filhos calçavam, que ele era homem entendido de tudo. Conquanto misterioso (em suas terras, nem cobra a gente podia matar, porque ele não deixava, dizendo que o que estivesse dentro de sua cerca era dele) era pessoa muito bem relacionada na rua, com amizades e compadragens, inclusive com meu pai, conforme eu disse antes.
Quando Moreno viu a soldadama seguir rumo a Santaninha, começou a acreditar no que dissera o velho Severiano.
E de fato parou de beber repentinamente, ficando assim vários anos. Foi morar na nossa fazenda Santo Antônio, a meia légua da Santaninha, exercendo a vaqueirice.
O leitor deve estar curioso por saber como e por que os soldados aparecerem por ali, se todos sabiam que o povo era pacato e que ninguém cometera crime algum.
O tal homem chegara ali havia coisa de trinta anos vindo de Posse, cidade goiana. Lá – soube-se depois – ele matara uma pessoa (segundo consta, em legítima defesa), e após mais de vinte anos a família decidiu desenterrar o caso, por vingança ou por receio de prescrição (prescrito já estava àquela época), e mandou soldados para prenderem o fazendeiro, coincidindo com o dia do “trabalho” de Moreno, como que para cumprir a predição do velho Severiano.
O povo conta que ao chegarem a Santaninha os soldados, o dito cujo desapareceu na frente deles como que por encanto, e não houve jeito de ser encontrado, embora um sexto sentido dissesse que ele estava por ali. Em compensação, de volta à rua foram seguidos à distância por um gato preto de aspecto inamistoso, que miava e arreganhava os dentes para eles. Passados alguns dias na rua (que na Santaninha eles não foram bestas de pisar mais), os soldados foram-se embora, e o caso morreu. O desaparecido reapareceu.
Tempos depois, Moreno já morava na rua, quando o tal homem apareceu lá em casa para ver o compadre e levar o filho para tomar a bênção ao padrinho, meu pai. Na oportunidade, deu uma manga espada para Moreno, que a recebeu e guardou na geladeira, esquecido da recomendação do velho Severino de não receber nada das mãos da pessoa responsável pelo feitiço anterior. E um dia, ao abrir a geladeira, ele pegou a manga, que lhe caiu das mãos. Recolocou-a na geladeira, mas estranhamente a manga tornou a cair. Aí, ele pensou: “Só porque você está fugindo, eu vou comer assim mesmo!”
E comeu a manga espada, saindo pra rua. Já voltou bêbado. E nunca mais parou de beber.
(Liberato Póvoa, [email protected] (Desembargador aposentado do TJ-TO, escritor, jurista, historiador e advogado)