Brasil

Coisas que acontecem

Redação DM

Publicado em 26 de julho de 2016 às 22:08 | Atualizado há 10 anos

Para Guilherme a manhã sempre começa da mesma forma. O alarme dispara às cinco horas e levantar da cama é um desafio não muito animador para quem enfrentará ao longo do dia uma maratona de serviços e, a noite, de estudos. Olhos quase abertos. Só mais cinco minutos? Sim, claro. Por que não? Logo o som irritante do alarme rompe o silêncio outra vez e quer dizer uma coisa: passaram-se dez minutos! Guilherme está atrasado, mas confiante em um dia menos tumultuoso. Ainda sonolento salta da cama e dá início ao corre-corre pela casa.

Aventura-se a procurar o interruptor – parece que sempre está em um lugar diferente da parede. Até que finalmente luz. Ufa! Mas… E os chinelos? Benditos chinelos! Onde foram parar? Encontra-os debaixo do sofá, mas não se lembra de tê-los deixados ali. Não importa. O ônibus passará daqui a pouco e se perdê-lo chegará tarde ao estágio. E convencer o supervisor a dobrar a moça do departamento de Recursos Humanos para que o deixe assinar a folha de ponto – já que o relógio não registra entrada depois das oito horas e dez minutos – será bem difícil.

Corre para o banheiro. A água do chuveiro não cai de imediato. Cada segundo é precioso. Esfrega daqui, esfrega dali. Pronto. É o primeiro banho do dia – e o único. Escova os dentes. Morde a língua. Hum, doeu! Ainda assim consegue dar um berro na dona Alberta que levantou mais cedo e já prepara o café.

– Mãe, traga-me a toalha! – grita desesperado e cospe sangue na pia.

– Não tem como, meu filho. Estou coando o café. – reponde dona Alberta.

Ainda molhado, Guilherme sai do banheiro direto para o quarto, escorrega no tapete e acerta o queixo na porta.

– Hoje é meu dia – pensa.

Outra aventura é encontrar a toalha, todavia, nessas horas, até a cortina da janela serve. Em um minuto está pronto. O tênis surrado, companheiro de longas caminhadas, não está com um cheiro muito agradável. As meias, lavadas na noite anterior com sabão em pó, ainda úmidas, completam a parceria. Pelo menos a mochila e os livros, já organizados de antemão, deram pouco trabalho – teoria refutável se levarmos em consideração que o zíper insistia em não fechar e o bendito livro do Nelson Traquina teimava em não aparecer. O tempo voa. Guilherme corre para a cozinha e toma um gole de café que desce queimando a garganta. A mordida no pão de queijo – com gosto de tudo, menos queijo – é auxiliada por goles de água gelada para aliviar a queimação.

– Menino, você vai sofrer um derrame! – salienta dona Alberta e começa a contar a história da Tia Domingas que desde a infância sofre as consequências de um acidente vascular cerebral.

– Já conheço mãe! – interrompe Guilherme com a boca cheia de bolachas após desistir de comer o pão de queijo. Ele olha as horas. – Putz! Perdi meu ônibus! – Empurra algumas bolachas nos bolsos e provavelmente se esquecerá de comê-las. Põe a mochila nas costas e pede a bênção da mãe. Ao passar pelo portão quase deixa um pedaço da camisa no ferro que serve para fechá-lo. Anda apressado e levanta poeira da Rua Eternidade. Vira a próxima esquina encontra seu Rufino subindo a Avenida Pontalina e também atrasado para pegar o busão.

– Bom dia, seu Rufino!

– Bom dia, garoto! – Ele nunca lembra o nome de Guilherme.

A conversa é sempre a mesma: sobre futebol. Após fazerem uma análise da rodada do Campeonato Brasileiro da Série B, divisão em que seus times se encontram, os dois reclamam com voz ofegante do clima seco. Ao avistarem o ponto percebem que o ônibus acabou de encostar. A correria agora é mais intensa. Seu Rufino segura a carteira no bolso pra não cair e tenta alcançar Guilherme já um pouco à frente lutando com alguns livros. Para a sorte deles – ou azar – há muitas pessoas no ponto. Até todos subirem os dois chegam e tranquilizam-se por terem conseguido. Seu Rufino sobe primeiro e logo desaparece no amontoado de gente e conversas sem fim. Guilherme entra em seguida e ainda encontra dificuldades para achar a carteirinha e assim rodar a catraca. Após este desafio superado, rapidamente tenta arrumar espaço para se segurar em meio à pluralidade de mãos enlouquecidas que buscam a estabilidade física do corpo dentro do ônibus lotado. Mesmo com a temperatura acima dos 25 graus ainda é possível avistar pessoas escondendo-se dentro dos moletons – na ausência de casacos de pele – como se fossem esquimós. Guilherme tenta abrir caminho entre os homens e mulheres e logo está acomodado no meio do veículo. Movimentar-se um pouco, nem que seja para coçar o nariz, é quase impossível e se for feito constantemente muitos consideram suspeito. Guilherme, enfim, alivia-se por não perder o ônibus e mesmo em pé apoia o rosto no braço esquerdo para tentar tirar uma soneca ao longo da viagem.

– Mais um dia! – exclama Guilherme satisfeito ao conversar com seus botões.

O ônibus então começa a brecar até parar por completo. O motorista liga o motor novamente. Acelera. Em vão. Ele levanta do banco e dá um recado:

– Bom dia, pessoal! Desçam todos! O ônibus quebrou!

 

(Renan Castro, acadêmico do 8º período de Jornalismo da Faculdade Araguaia)

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