Colheres
Redação DM
Publicado em 15 de janeiro de 2018 às 22:57 | Atualizado há 9 anos
Faltando dois dias para a véspera de Natal e consequentemente a viagem de férias, todas as atividades familiares ficam atribuladas. Mesmo com quatro pessoas e dois gatos, o apartamento estava vazio no exato momento em que a filha abriu a porta.
Alagamento. Nenhuma palavra mais adequada que essa poderia explicar a cena dantesca do ralo da área de serviço vomitando lama. A enorme caixa de papelão do ninho do pai – nome carinhoso dado por ele para o seu escritório – boiava em meio a fotos amareladas um sem número de papéis, livros e… colheres!
Foram chegando: a mãe, o irmão e o pai. Os felinos já devidamente ocultos em qualquer fresta por eles considerada segura e o caos estabelecido. Enquanto a mãe recebia o especialista em desentupir canos, o pai e o filho catavam mil lembranças pelo chão. E objetos de prata.
E nada da água parar, inserindo um longo e flexível cano articulado. Nada servia. Nadavam dezenas de colheres submersas ao papelão roto e aberto ao fundo. Ele não sabia que havia uma coleção ali. A primeira coleta foram umas três com três pontas. As famosas trifólias, inglesas. Com elas ele foi colhendo as fotografias delicadamente.
No meio da bagunça umas mais pesadonas, e quase uma caindo pelo ralo, de cabo hexagonal e concha em forma de figo. Diferente de outras bem simples, em que a concha não parecia mais com uma lágrima e se estreitava no fim. Era uma puritana. Encantado com a descoberta nem ligou para a sujeira e o cheiro. O pai estava extasiado.
O filho percebendo a raridade do achado, tentou abrir o fundo da caixa e aí tudo se espalhou. Como era muito forte, ao carregar pela primeira vez, não notou o peso da prata ali escondida. Muitas tinham o cabo ricamente adornado, imagens de frutas, leões, bolotas de carvalho. Lindas.
A mãe chamou a atenção para que essa exploração cessasse e ajudassem a filha a passar o rodo. E nenhum sinal de desobstrução do já fatídico “cotovelo” que deveria estar cheio de dejetos. Mas era impossível deixar de admirar o brilho incomum de cada exemplar e até o funcionário contratado parou um pouco sua tentativa de aspiração.
Uma azul e branca era exceção, pois seu material era porcelana. A mãe então se lembrou de um ótimo wonton que tomara no Vietnã. Ou então aquela de madrepérola para comer ovos quentes, já que o ovo mancha a prata… e isso foi aguçando a memória do pai até que ele encontrou a colher que mais admirara em toda sua vida.
A haste era desproporcionalmente longa. Reinava no meio de meia dúzia de colheres de chá, as mais úteis e universalmente conhecidas. Aquela não. Sua ponta bem fina, desafiava a todos qual seria a sua função. Então a mãe e a filha, com a criatividade e praticidade que bem definem as mulheres, sugeriram amarrar na ponta do instrumento de trabalho do desentupidor profissional.
Este então ainda ousou questionar se não quebraria peça tão rara e diferente. Mas a ordem foi firme. – “Bota logo isso aí.” O pai e o filho ainda que tentaram impedir, o filho por curiosidade e o pai por ter a memória da sua avó maranhense revivida de maneira intensa. E o rapaz girou para lá, girou para cá e a água milagrosamente escoou.
Mas ao recolher a mangueira metálica ouviu-se nitidamente o barulho de metal caindo e batendo fundo, ao longe. Eles moravam no primeiro andar. E a colher foi-se pelo ralo, parando no poço do subsolo. Demoraram dias para resgatá-la. A família viajou e pesquisou – os filhos nas redes sociais, a mãe entre seus parentes mais velhos e o pai nos desvãos de sua memória – para que servia tão bela peça de museu.
Aí que, ao pedirem um pernil de zebra e terem comido-o todo, os atenciosos cozinheiros locais, ofereceram a mesmíssima colher do século XVIII. Abriram uma cavidade no fêmur e a família inteira pode comer o tutano gelatinoso que ali se escondia. Só quando a família está unida verdadeiramente, chega-se nesse ponto. No tutano. Com cooperação e colher de prata.
(JB Alencastro é médico)