Brasil

Comércio exterior: começar de novo

Redação DM

Publicado em 11 de maio de 2016 às 02:47 | Atualizado há 10 anos

Se o no­vo pre­si­den­te qui­ser mos­trar ser­vi­ço, em vez de ex­tin­guir o Mi­nis­té­rio do De­sen­vol­vi­men­to, In­dús­tria e Co­mér­cio Ex­te­ri­or (Mdic), pas­san­do su­as atri­bu­i­ções ao Mi­nis­té­rio das Re­la­ções Ex­te­rio­res, co­mo já foi co­gi­ta­do, a pre­tex­to de eli­mi­nar ór­gã­os e car­gos des­ne­ces­sá­rios, de­ve co­me­çar por aca­bar com a fun­ção de as­ses­sor es­pe­ci­al da Pre­si­dên­cia da Re­pú­bli­ca pa­ra as­sun­tos in­ter­na­cio­nais. É de se lem­brar que foi exa­ta­men­te a atu­a­ção des­se ti­po de as­ses­sor que, nos úl­ti­mos tre­ze anos, le­vou o nos­so co­mér­cio ex­te­ri­or à si­tu­a­ção crí­ti­ca de ho­je.

Com o Ita­ma­raty sem a fun­ção pri­mor­di­al de tra­çar a po­lí­ti­ca ex­ter­na, os três úl­ti­mos go­ver­nos apos­ta­ram na ori­en­ta­ção do as­ses­sor es­pe­ci­al, que aca­bou por re­dun­dar em ro­tun­do fra­cas­so. Co­mo se sa­be, o go­ver­no bra­si­lei­ro, ao la­do do go­ver­no ar­gen­ti­no, tra­ba­lhou com afin­co em fa­vor do fra­cas­so das ne­go­ci­a­ções pa­ra a for­ma­ção da Área de Li­vre Co­mér­cio das Amé­ri­cas (Al­ca), que ga­ran­ti­ria aos pro­du­tos na­ci­o­nais aces­so ao mer­ca­do nor­te-ame­ri­ca­no, que é cons­ti­tu­í­do por cer­ca de 300 mi­lhões de con­su­mi­do­res, que gas­tam mais de US$ 2,2 tri­lhões por ano. Em con­tra­par­ti­da, pre­fe­riu se ali­ar aos ini­mi­gos dos EUA, ao ade­rir à po­lí­ti­ca Sul-Sul, ao la­do dos seus par­cei­ros bo­li­va­ri­a­nos da Amé­ri­ca La­ti­na e de paí­ses sub­de­sen­vol­vi­dos da Ásia e da Áfri­ca.

O re­sul­ta­do des­sa po­lí­ti­ca equi­vo­ca­da é que a par­ti­ci­pa­ção dos EUA no to­tal das ex­por­ta­ções bra­si­lei­ras caiu de 25,7% em 2002 pa­ra 6% em 2014 (US$ 13,7 bi­lhões de um to­tal de US$ 225,1 bi­lhões). Ou se­ja, a par­ce­la do Bra­sil nas com­pras nor­te-ame­ri­ca­nas es­tá ao re­dor de 1%, um pe­so ex­tre­ma­men­te in­sig­ni­fi­can­te. Mes­mo as­sim, nos úl­ti­mos anos, o Bra­sil se deu ao lu­xo de ser uma das pou­quís­si­mas na­ções com as qua­is os EUA têm su­pe­rá­vit co­mer­cial.

Ao mes­mo tem­po, o go­ver­no bra­si­lei­ro fez vis­tas gros­sas ao que se pas­sa­va no res­to do mun­do: nos úl­ti­mos 15 anos, fo­ram as­si­na­dos mais de 400 acor­dos co­mer­ci­ais, mas o Bra­sil só man­tém tra­ta­dos com a Ín­dia e Is­ra­el e mais três em fa­se de ra­ti­fi­ca­ção com Pa­les­ti­na, Egi­to e Uni­ão Adua­nei­ra da Áfri­ca Aus­tral (Sa­cu, na si­gla em in­glês). Só pa­ra se ter uma ideia da pa­ra­li­sia que mar­cou a nos­sa po­lí­ti­ca co­mer­cial ex­ter­na nos úl­ti­mos tem­pos, bas­ta di­zer que Mé­xi­co e Chi­le têm acor­dos ca­da um com mais de 50 paí­ses e blo­cos.

Co­mo re­ver­ter es­sa si­tu­a­ção? Além de ex­clu­ir a in­flu­ên­cia po­lí­ti­co-par­ti­dá­ria da ques­tão co­mer­cial, é pre­ci­so, em pou­cas pa­la­vras, aca­bar com es­se iso­la­men­to, re­du­zin­do o cus­to Bra­sil pa­ra in­cen­ti­var as ex­por­ta­ções. Ou se­ja, é pre­ci­so di­mi­nu­ir a car­ga tri­bu­tá­ria, me­lho­rar a in­fra­es­tru­tu­ra lo­gís­ti­ca e pra­ti­car iso­no­mia nos in­cen­ti­vos fis­cais.

Ex­por­tan­do-se mais (tan­to pro­du­tos bá­si­cos co­mo se­mi­ma­nu­fa­tu­ra­dos e ma­nu­fa­tu­ra­dos), se­rá pos­sí­vel ge­rar re­cur­sos pa­ra im­por­tar mais pro­du­tos ma­nu­fa­tu­ra­dos, ob­ten­do-se aces­so à ino­va­ção tec­no­ló­gi­ca, o que per­mi­ti­rá a pro­du­ção de ou­tros ma­nu­fa­tu­ra­dos que, por sua vez, tam­bém se­rão ex­por­ta­dos. En­fim, é pre­ci­so co­me­çar tu­do de no­vo em ter­mos de po­lí­ti­ca co­mer­cial ex­ter­na.

 

(Mil­ton Lou­ren­ço, pre­si­den­te da Fi­or­de Lo­gís­ti­ca In­ter­na­ci­o­nal e di­re­tor do Sin­di­ca­to dos Co­mis­sá­rios de Des­pa­chos, Agen­tes de Car­gas e Lo­gís­ti­ca do Es­ta­do de São Pau­lo (Sin­di­co­mis) e da As­so­cia­ção Na­ci­o­nal dos Co­mis­sá­rios de Des­pa­chos, Agen­tes de Car­gas e Lo­gís­ti­ca (ACTC). E-mail: fi­or­de@fi­or­de.com.br. Si­te: www.fi­or­de.com.br)

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