Como ser um homem
Redação DM
Publicado em 11 de junho de 2016 às 02:42 | Atualizado há 10 anos
O serviçal mais se queixava que trabalhava.
Clamava contra aqueles que lhe ofertavam o trabalho, ensejando-lhe a conquista honesta do pão. Pretendia lhe valorizassem os esforços e, se aspirava melhor salário, não fazia por onde merecê-lo. Era um preguiçoso.
Lamuriava e resmungava, constantemente, a seus colegas, destilando seus recalques e sua revolta. Um dia, vendo-o reclamar agitado a segundos, disse-lhe o patrão, um bom velhinho:
– Perdeis muito tempo em lastimares. Não te descobri esforço, ação, disciplina, embora as procurasse, em ti! E como pretendes melhor crédito, se nada produzes? Como sonhas melhor sorte se, ao invés de agires, lastimas?
O tempo que perdes em clamares, porque não o ocupas no aprimoramento de tuas funções? Sejas, antes, uma autoridade no teu ofício para, depois, proclamares melhor sorte. Lembra: “A cada um segundo os seus merecimentos…”
Senhor de tuas responsabilidades, produze o melhor que possas – e receberás em dobro.
Movimenta todos os teus recursos! Luta com ânimo, com alegria, com amor. E quando te ordenarem: “Trabalhes oito horas”, mostra que podes fazer muito mais – e trabalha doze horas, em oito!
Honra a ti mesmo, laborando com acerto, incansavelmente!
Trabalha requisitando méritos para o teu espírito – não apenas cifrões para os teus bolsos.
Antes do dinheiro, o acrisolamento do “eu”. O pão vem do Pai: “olha as aves dos céus! Não ceifam nem colhem” – mas comem!
Os amoedados não conquistaram o seu patrimônio com queixumes, acomodados no ócio, como tu! Não se fizeram com azedumes – mas com ação! Não te falo de herança e, muito menos, do tesouro mal ganho. Não vem ao caso. Falo dos que lutaram dentro dos preceitos de retidão. E tanto se desdobraram – que venceram. “Por que não fazes também o mesmo?”
Como aspiras a posição de diretor, numa empresa, quando não sabes, sequer, ser empregado?
“A águia – dizia o filósofo, não precisa de escadas para subir.” Mas não és uma águia. Por conseguinte, é melhor que subas a escada, degrau por degrau.
Se desejas, pois, ser valorizado, valoriza a ti mesmo, laborando com amor, aproveitando todos os minutos da vida: cada sessenta segundos é oportunidade de soerguimento.
Mesmo a hora do descanso – é ocasião para estudo.
Utiliza todos os teus talentos, acendrando o teu “eu”, em conquista das virtudes – que são tesouros reais.
Aperfeiçoa o teu trabalho, seja qual for, mesmo que o mais humilde: trabalho bem feito – caráter do trabalhador.
No exercício de tuas atribuições, com alegria e otimismo, faze o melhor que possas, primando pela ordem, pela retidão, exemplificando a honradez, e estarás não apenas ganhando o teu pão, como também enriquecendo o teu espírito, porque “só o trabalho enobrece”.
Não sejas como os negligentes que apenas “passam pela vida, e não vivem – vegetam”.
Nem como os parvos que só se movimentam quando é tarde, que só agem melhor quando solicitados. Que o teu esforço seja espontâneo, que ninguém precise solicitá-lo.
Sê, finalmente, como os grandes – que “não têm onde reclinar a cabeça”.
Labora meu amigo, porque, enquanto laboras, acendras o teu “eu”, e estás livre de erros, mentalizando inferioridades: o trabalho é o escudo contra o mal – a chave para a Luz!
Aceita o roteiro que te sugiro, e um dia te compreenderão as grandezas – e serão grandes os teus méritos! Se não, pelo menos aprendeste a ser correto, amando as coisas certas!… A lutares sozinho e com amor – conquistando a tua liberdade.
Trabalha meu caro. Antes, porém, de mentalizares o soldo, recorda a tua elevação.
O soldo é necessário. Mas o tesouro das virtudes é mais. Apenas para a conquista do pão, de pouco vale o labor. Todavia, para se ser homem realmente, ele é imprescindível.
O serviçal ouviu-o atentamente, e reconhecendo a própria fraqueza, as próprias falhas, ante as realidades da vida, exclamou, com visível e sincera contrariedade:
– Tens razão! Se o trabalho é esta verdade, então nunca trabalhei. Vegetei, apenas, resmungando. Doravante, entretanto, não terei “onde reclinar a cabeça” – e serei um Homem!
(Iron Junqueira, escritor)