Compreendendo os atentados em Paris na perspectiva da gestão dos sentimentos políticos
Redação DM
Publicado em 18 de novembro de 2015 às 21:37 | Atualizado há 11 anosCom os recentes atentados em Paris, emergiram uma leva de textos buscando refletir sobre a tragédia, muitos pontuais e pertinentes e outros apressados e desacertados. Por isso, sabendo dos perigos de se escrever de sobre um evento tão próximo, com inúmeras variáveis e altamente chocante, proponho uma abordagem diferente, buscando aqui mostrar como que a tentativa de gestão de sentimentos que vem ganhando força na França abre espaço para a tragédia.
Que a vida é feita de sentimentos qualquer pessoa adulta já percebeu, aliás, percebemos isso bem cedo. Sentimentos permeiam nossas vidas, podendo ser eles “bons” ou “ruins”, mas que no fim, direciona nossas ações.
É bem verdade que o trato dos sentimentos demorou a aparecer em análises históricas e sociais, sendo estes vistos até mesmo na literatura como algo negativo e pejorativo, na medida que expressava fragilidades. Os governos totalitários do início do século XX logo notaram a importância dos sentimentos, o que os regimes democráticos notaram logo depois.
O sociólogo francês Pierre Ansart (2002) acredita que é justamente nos regimes pluralistas, tal como a democracia, que a gestão de sentimentos torna-se mais necessária, diferentemente do que possamos imaginar. Para o autor, em regimes unitários ou totalitários busca-se manter uma poderosa mobilização afetiva, manter as obediências através das grandes paixões e grandes ódios, já no regime pluralista há sempre uma desconfiança em relação as próprias paixões políticas. Como são paixões diversas e a democracia assegura essa possibilidade, aliás, tem isso em sua gênese, quem consegue redirecionar o maior numero de sentimentos (amor, ódio e outros) de grupos distintos, consegue direcionar a massa para seus desígnios pessoais.
Soma-se a isso, ainda, a questão do ressentimento: adota-se aqui um significado para ressentimento como algo negativo, que é envolto por mágoa, dor, pesar e rancor. Uma dor do passado que participa da construção voluntária de memórias e de esquecimentos, sendo mecanismo importantíssimo no que diz respeito à efetivação de demandas políticas. É a memória aliada a sentimentos negativos que envolvem humilhações, rancores e desejos de vingança, que guardamos em nós mesmos de forma íntima. Paul Zawadzki (2009) acredita que as reflexões sobre a expressão política e social acerca do ressentimento conduzem a regiões incertas em que razões e afetos se tornam dificilmente dissociáveis. Para tal, o autor destaca como argumento central a questão de justiça, ligando o ressentimento ao sentimento de ter sido tratado injustamente. Partindo daí, nota-se que existe uma dimensão vingativa do ressentimento, que aparece sobre forma passional. Só ressaltando que o ressentimento, em termos psicanalíticos, como afirma Maria Rita Khel (2014), não tem cura e, não tem, porque o ressentido não quer ser curado.
Pois bem, os atentados em Paris se dão em meio a uma constelação de fatos e eventos históricos, sendo que estes estão carregados de sentimentos e ressentimentos.
A extrema direita francesa cresce de forma gradual desde o início da década de 1990, o partido Front National antes liderado por Jean-Marie Le Pen ganhou espaço gradativo no cenário político francês. Substituído por sua filha, Marine Le Pen, que procura tratar da administração dos sentimentos de uma forma mais profissional, buscando antes de atacar o outro, exaltar os franceses, se tornou a deputada parlamentar européia mais bem votada nas eleições de 2014 e aparece como favorita em diversas pesquisas de intenção de votos para presidente, eleições que ocorrerão em 2017. Após os atentados, Marine Le Pen se pronunciou, aos franceses, “é inadmissível que os franceses vivam em insegurança, independente do que pensar a União Européia, a França tem que fechar as fronteiras e expulsar os árabes”.
O sucesso da FN se dá por conta de um revigoramento do discurso, buscando sempre emocionar os eleitores e promover o ódio aos árabes, o que vem sendo chamado de islamofobia. É simples, ou quase, o amor e o ódio sempre são muito próximos, desta forma, para se criar o amor por algo, cria-se o ódio por algo contrário, que nem precisa ser necessariamente contrário, mas é necessário que um grande número de pessoas acredite nisso.
O ódio aos judeus, que propiciou os horrores do holocausto, ficou escondido durante muito tempo, agora ele é repotencializado, mas não mais em direção aos judeus (não que também não o seja), mas elegem-se um novo “inimigo”, os árabes. Pois são os árabes que vem “roubar os empregos, destruir a paz, acabar com o sossego, nos importunar e é claro, destruir nossa cultura”, sim, você já ouviu esse discurso, não necessariamente contra os árabes, ou seja, muda-se o a região, muda-se o “inimigo”, mas o discurso é o mesmo, alguém tem que ser escolhido e a partir disso construído como inimigo, não que isso mudará algo, pois culpar alguém não muda nada efetivamente falando, afinal trata-se de ressentimento, mas funciona de maneira magnífica como capital político.
É a gestão política dos sentimentos que faz com que o presidente francês Fraçois Hollande “doe”, ele assumiu publicamente em 2014, armamento do seu país aos grupos que buscaram derrubar o legítimo governo sírio, em grupos inclua o EI (Estado Islâmico) e fale em política de paz. Só criando um sentimento amor a democracia e ódio ao autoritarismo para apoiar grupos de tendências autoritárias na luta contra grupos políticos inimigos. Sim, parece paradoxal e irracional, mas em nenhum momento foi dito que essas questões circulam no nível racional, aliás, a razão é usada na manipulação dos sentimentos que permitem ações.
Obviamente, no que diz respeito a sentimentos, dificilmente alguém amará quem o odeia. Com a crescente islamofobia, a contrapartida, cresce o ódio de árabes contra o Ocidente, na França políticas de segregação aos árabes e a prática do islamismo são crescentes, na medida em que esses crescem no numero geral da população, as políticas específicas em relação a eles também crescem.
Gestão dos sentimentos também ocorre no lado dos árabes e especialmente os árabes mulçumanos, até porque a religião é um campo bem propício para tal, em especial nos grupos extremistas. Deste modo, a Revolução Francesa faz com que o país seja ameaçado recorrentemente por grupos que “elegem” o Ocidente como o inimigo, visto que os principais valores ocidentais, que ameaçam os valores islâmicos, nascem justamente na França. Não se ataca o país em si, se ataca o símbolo, isso é terrorismo. A Revolução Francesa ao mesmo tempo que é um símbolo de amor e orgulho para os franceses, é um símbolo de ódio para os árabes radicais.
A sociedade moderna é repleta de ressentimentos, tais sentimentos vingativos ficam em standy by, ficam escondidos e camuflados, podendo residir de maneira velada na religião, esporte, arte e em diversos outros espaços, até que sejam agrupados para um fim político, seja ele moderado (o que os ocidentais entendem por democracia) ou radical, que pode vir em forma de terrorismo.
As ações em Paris envolvem vingança, tal vingança por um passado de humilhações que não foi superado, pois não se quer superar, ele ganha mais força se não o for. Tanto de um lado quanto do outro, do lado francês por conta do histórico de imperialismo que coloca o outro como alguém que não é igual a si e, de outro lado dos radicais islâmicos que utilizam essas humilhações para dar força a suas ações.
Obviamente os ocorridos em Paris chocam, e devem chocar mesmo, afinal trata-se de algo assustador, mas a forma como nos chocamos também pode se tornar capital político no que diz respeito a gestão de sentimentos.
Gestão que já está em curso, pois pouco se fala da catástrofe de Mariana, das ações do governo de Israel na Palestina ou nos recentes atentados na Síria em detrimento do que ocorreu na França.
Não se engane, apoiar a causa francesa e se esquecer do que acontece em outras partes do mundo, inclusive aqui, também é ter o sentimento político gerido; apoiar as causas daqui e não se importar com outras, também é ter o sentimento político gerido; se importar com todas ou com um grande número, é louvável, mas também é passível de administração política dos sentimentos; não se importar com nenhuma é estupidez mesmo, mas não se engane, a estupidez também passa pela gestão de sentimentos. Criticar quem se indigna com qualquer causa, simplesmente por criticar e buscar hierarquizar o sofrimento humano é mais que estupidez, é se colocar em um nível inumano e principalmente, é se ressentir contra a humanidade.
Sentimentos são manipuláveis e direcionados para a utilização em diversos fins, o que não significa que não devemos nos indignar em diversas frentes, até porque os referidos fatos mostram que vivemos em uma época de calamidade, tanto na França quanto aqui, quanto na África ou Ásia. Se calar é se desumanizar, calar-se frente um e alardear o outro é relativizar, que em suma é uma espécie de terrorismo.
(Makchwell Coimbra Narcizo, professor na Faculdade de Educação/UFG, historiador, graduado em História pela UFG, mestre em História pela UFG, doutorando em História pela UFU)