Construção de uma cooperativa agropecuária
Redação DM
Publicado em 5 de outubro de 2015 às 22:24 | Atualizado há 11 anosO cooperativismo em Goiás tem uma história, que começa praticamente a partir da década de 70. Justamente, neste período e a Co-operativa Agropecuária do Mato Grosso Goiano, sediada em Inhumas, estava insolvente. Títulos eram protestados na praça. Os estoques haviam se esgotado e nada era reposto. A má gestão, como ainda ocorre, era responsável pelo quadro crítico da cooperativa pioneira na região. Os altos e baixos se mesclavam à vontade de defender os produtores por preços mais justos aos seus produtos. O governo mantinha tabelamentos e nada melhor que os agricultores e criadores buscarem abrigos através de suas organizações.
Em Inhumas, um dos berços dessa história, personagens como José Brandão, Astolfo Duarte, Luís de Paula Silveira e Roberto Balestra resolveram sair da toca e assumir a cooperativa. Uma das primeiras medidas foi proceder a um acordo com os devedores. Para restabelecer o fornecimento dos insumos, os credores exigiram aval pessoal. Para não deixar a ideia do sistema cooperativista morrer na beira do praia, as assinaturas dos novos foram postas no papel.
Os efeitos do revigoramento da Cooperativa logo foram sentidos. As primeiras cinco mil toneladas de adubos chegaram às fazendas, objetivando o aumento da produção como era desejo dos associados. Um departamento de mudas surgiu, atendendo pleito dos produtores interessados. Os cultivos de banana, café e fumo dos associados floresceram, como era de se esperar.
Vicente Benjamim de Albuquerque, um paraibano que Goiás adotou ainda muito cedo, dava a sua contribuição agronômica no Ministério da Agricultura, em Brasília. A pedido das lideranças rurais de Inhumas abriu as portas do governo federal para os novos pleitos. A sua contribuição ascendeu à cafeicultura regional, graças aos viveiros de mudas, misturadores minerais e fábrica de ração. Neste Estado, Vicente Benjamim presidiu a Emater e norteou o comportamento da instituição pelo associativismo e pelo cooperativismo.
Câmaras de climatização de lavouras foram instaladas em Goiânia e no Distrito Federal em decorrência do entrosamento do Ministério da Agricultura com a Cooperativa e o Sindicato Rural de Inhumas. A assistência técnica passou a ser levada pela Emater-Goiás aos produtores de café e laranja. Sem dúvida, os resultados foram notados no desenvolvimento dessas culturas e na economia do produtor.
Infelizmente, por falta de gestão, a cooperativa mais uma vez vai ao chão e o que sobrou do seu patrimônio foi vendido a Purina. O cooperativismo brasileiro comete um pecado capital desde o seu nascedouro. O critério de sua administração é fortemente muito personalista. No caso da Co-operativa de Inhumas o Plano Cruzado, posto em prática durante o governo José Sarney, contribuiu para a sua desagregação.
Noutras partes do mundo, como Estados Unidos, Canadá, Europa, Nova Zelândia, o sistema cooperativista é forte. Os produtores se agregam e vão para a administração pessoas realmente preparadas.
Na Nova Zelândia se tem exemplo de cooperativismo bem sucedido. Se ele começa dentro da porteira, estende-se pelos meios de transporte e pelos sistemas de comercialização internos e externos. Um escritório cuida da comercialização do leite em pó para o mundo. Inclusive, os brasileiros importam os lácteos daquele país da Oceania. Os recursos humanos são sempre profissionais de alto padrão em número suficiente para o cumprimento de sua tarefa.
No Brasil, não se pode criticar todo o sistema. Há cooperativas operando com inteiro sucesso no Rio Grande do Sul, Paraná e em Santa Catarina. Em Goiás, temos exemplos claros de cooperativa bem sucedida, como é a Comigo, sediada em Rio Verde. A história da Comigo teve um baluarte: Paulo Roberto Cunha. Exigente, brigador, buscou conhecimentos de cooperativismo prático no Sul. A Comigo, hoje uma potência internacional, teve em Paulo Roberto e outros companheiros fieis, o deslanche de um sistema bem-sucedido.
(Wandell Seixas é jornalista voltado para o agro, bacharel em Direito e Economia pela PUC-Goiás, ex-bolsista em cooperativismo agrícola pela Histradut, em Tel Aviv, Israel, autor do livro O Agronegócio passa pelo Centro-Oeste, e assessor de imprensa da Emater)