Contexto histórico do evangelho de Cristo
Redação DM
Publicado em 27 de novembro de 2016 às 00:56 | Atualizado há 10 anosAllan Kardec dá notícias históricas de certas passagens do Evangelho desde o contexto da primitiva sociedade judaica, fazendo-nos entender a discrepância das interpretações que foram se formando na relação entre os judeus, divididos em grupos de samaritanos, nazarenos, fariseus, seduceus, essênios e até pelos escribas, terapeutas e doutores da lei, atuantes nas sinagogas. As discrepâncias religiosas nasciam principalmente da interpretação da lei de Moisés contida no Pentateuco em face das escrituras antigas. A linguagem simbólica e as figuras alegóricas dos textos sagrados foram sofrendo, com o tempo, versões diversas nas diferentes traduções, com desvio semântico.
Judeus e samaritanos
Divergindo dos judeus (de Judá), os samaritanos (de Israel) deixaram Jerusalém e elegeram Samaria como sua capital, que posteriormente passou a chamar-se Augusta, já sob o domínio dos romanos, como homenagem do rei Herodes ao imperador Augusto. Os samaritanos viviam em conflito com o reino de Judá tendo por principal motivo a divergência de opiniões religiosas. Seguiam só o Pentateuco contendo as leis de Moisés e por isso eram renegados pelos judeus ortodoxos.
Nazarenos e fariseus
Eram chamados nazarenos os membros de uma seita herédica dos primeiros séculos da era cristã: judeus que faziam voto de pureza e castidade, de abstinência de álcool e uso de cabeleira longa, a exemplo de Sansão, Samuel, João Batista. Por alusão a Jesus de Nazaré, também se chamavam nazarenos os primeiros cristãos. Os fariseus eram seus opostos, dominadores, radicais, tomavam partido nas controvérsias religiosas, mas sempre visando ao poder que detinham em Jerusalém. Misturavam fé com hipocrisia. Tornaram-se inimigos dos cristãos e aliaram-se aos sacerdotes para mobilizar o povo contra Cristo, promovendo o levante que resultou na sua crucificação, sob o poder do representante romano Pôncio Pilatos.
Publicanos e portageiros
Eram duas classes formadas sob a égide do Império romano. Os publicanos se encarregavam de arrematar as taxas públicas e arrecadar impostos, levando vantagens, tornando-se mais tarde administradores do erário público. Cobrar impostos dos judeus era motivo de revolta religiosa, pois julgavam tal prática contrária á lei. Já os portageiros eram modestos cobradores de entrada nas cidades, como viriam a ser os guardas alfandegários. Por analogia com os publicanos, eram também rejeitados como pessoas desprezíveis e, portanto, excluídos socialmente.
Essênios e saduceus
Os saduceus (seguidores de Sadoc) formavam uma seita judia prendendo-se às escrituras antigas, ao pé da letra, acima da tradição e de qualquer interpretação sobre o que entendiam ser a prática das boas obras. Opunham-se politicamente aos fariseus. Acreditavam em Deus no plano da vida terrena, mas não em anjos, nem na ressurreição ou imortalidade da alma. Já os essênios formavam uma espécie de associação religiosa, recuada em monastérios, vivendo como celibatários e sob costumes austeros, tendo seus bens em comum nas atividades agrícolas. Opunham-se naturalmente aos seduceus e fariseus por suas práticas estereotipadas de mera aparência religiosa, mas não tomavam parte em suas querelas políticas. Muitos chegaram a associar Jesus Cristo aos essênios pelo fato de os primeiros cristãos se identificarem com eles quanto aos princípios morais.
Escribas e terapeutas
Como servidores burocráticos – de secretários dos reis de Judá a intendentes dos exércitos judeus – os escribas tornaram-se também doutores como intérpretes da lei de Moisés. Fora do templo de Salomão, único em Jerusalém, em outras cidades os judeus se reuniam em sinagogas para suas preces públicas. Aí também Jesus comparecia, aos sábados, para suas pregações. Os terapeutas (ou curandeiros de Deus), procedentes de Alexandria, no Egito, dedicavam-se à vida solitária e contemplativa, devotados ao celibato ao modo dos essênios. De certa forma formaram um traço de aproximação entre o judaísmo e o cristianismo.
Precursores do espiritismo
Pode-se dizer que os filósofos gregos, Sócrates e Platão, foram os precursores das idéias básicas do espiritismo, assimiladas pelo cristianismo. Vale lembrar que Cristo morreu como Sócrates, vítima do fanatismo religioso. Cristo foi processado como insurgente e Sócrates, como corruptor da juventude. Ambos por pregarem a virtude verdadeira contra a hipocrisia e o simulacro da fé eivada de preconceito religioso. Ambos sustentavam a unicidade de Deus, a imortalidade da alma e a vida futura. Não deixaram escritos, senão Cristo por seus apóstolos e Sócrates por seu discípulo Platão. À diferença de Cristo, Sócrates não era esperado como Salvador, Cristo o fora, mas decepcionou os judeus ao anunciar que o seu reino não era deste mundo.
Evangelho segundo o espiritismo
Sugerimos a leitura do paralelo traçado por Kardec entre as idéias de Sócrates e os conceitos evangélicos de Cristo, no seu livro O Evangelho segundo o Espiritismo, para não furtar aos caros leitores o prazer de suas próprias verificações. Vejamos, em síntese, os conceitos exordiais deste livro. Na introdução de O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec define como principal objetivo do livro os núcleos temáticos do Evangelho, que se resumem em cinco: 1. Atos comuns da vida de Cristo. 2. Os milagres. 3. As profecias. 4. As palavras que serviram para o estabelecimento dos dogmas. 5. O ensinamento moral. Observa Kardec que as disputas religiosas se ocuparam mais da parte mística do que da parte moral, esta que é o objetivo exclusivo deste enfoque.
Código universal
O conceito de moral, como valor absoluto, passou a ser relativo de época para época, de sociedade para sociedade, por conta das versões simbólicas da linguagem evangélica decodificada pelas religiões. Mas é preciso que seja resgatado o Evangelho como um código de moral universal, como o faz o Espiritismo, que se inclui entre as doutrinas cristãs, embora preexista ao próprio Cristo – desde Sócrates e Platão, na antiguidade clássica – e mesmo em precedentes épocas de toda a humanidade.
Princípios básicos
Três são os princípios básicos – da concordância, da unanimidade e da universalidade – que consolidam o espiritismo como doutrina cristã (mesmo tendo surgido antes de Cristo) com o fundamento de que há uma essência que precede a existência humana, como já o afirmavam Sócrates e Platão.
Da concordância
“A presunção da verdade não pode estar com aquele que está só, ou quase só, em sua opinião – pretender ter razão sozinho contra todos, seria tão ilógico da parte de um espírito, como da parte dos homens” – afirma Kardec, deduzindo que “todas as pretensões isoladas cairão, pela força das coisas, diante do grande e poderoso critério do controle universal”. – “Não é à opinião de um homem que deverá aliar-se, mas à voz unânime dos espíritos” – enfatiza o codificador do espiritismo.
Da unanimidade
Foi a unanimidade de opiniões que fez que caíssem por terra “todos os sistemas parciais que despontaram na origem do espiritismo, antes que se conhecessem as leis que regem as relações do mundo visível e do mundo invisível”.
Da universalidade
– “Não é um só homem, nem mais nós que um outro, que fundamenta a ortodoxia do espírito. Não é, tampouco, um espírito vindo se impor a quem quer que seja: é a universalidade dos espíritos se comunicando sobre toda a Terra por ordem de Deus” – deduz Kardec, e pontifica: “A opinião universal, eis, pois, o juiz supremo, aquele que pronuncia em última instância: ela se forma de todas as opiniões individuais”.
Mensagens questionáveis
Mensagens recebidas de médiuns (como intermediários dos espíritos) atuando em um único centro – adverte Kardec – não bastam para garantir a unanimidade, a concordância e a universalidade das revelações, visto que podem receber influência de espíritos enganadores. “A garantia única, séria do ensinamento dos espíritos está na concordância que existe entre as revelações feitas espontaneamente, por intermédio de um grande número de médiuns, estranhos uns aos outros, e em diversos lugares“.
Inteligência dos espíritos
Os homens de limitam aos seus próprios espaços, os espíritos se expandem no espaço universal. Lá onde os homens não alcançam em razão de suas limitações, os espíritos os socorrem por força de seus atributos ilimitados. Não acreditar nos espíritos porque são seres invisíveis é como não acreditar nos humanos como seres inteligentes. A inteligência humana se manifesta por suas operações abstratas, enquanto que a inteligência dos espíritos se revela por suas manifestações concretas. O espiritismo se estriba na fé associada à filosofia e à ciência, e nada há na filosofia espírita que não passe pelo crivo da razão lógica. Kardec pondera que “o primeiro controle é, sem contradita, o da razão, ao qual é preciso submeter, sem exceção, tudo o que vem dos espíritos”.
(Emílio Vieira, professor universitário, advogado e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa. E-mail: [email protected])