Brasil

Conversa de árvore

Redação DM

Publicado em 13 de novembro de 2016 às 01:17 | Atualizado há 10 anos

Diante da ampla varanda do seu apartamento, somente uma visão o toma por inteiro. Uma árvore do mesmo tamanho do seu prédio que ali com ele conversa praticamente todas as noites. Sua casca grossa lhe dá uma imponência peculiar e suas folhas bipinadas fornecem uma sombra e frescor que o cerrado não está acostumado.

Antes de ser uma cidade ali era um campo arenoso. Passagem de tropas, descanso noturno de animais. E até sustento de rede para uma caça em espera, apesar dela nunca ter gostado disso. Sua madeira compacta, pesada, não elástica, rija e duradoura é idêntica aos seus conselhos. Sempre escute uma árvore.

Na construção civil de Goiânia, suas irmãs foram muito usadas como vigas, caibros e tábuas para assoalhos. Ela restou incólume e hoje mora numa minúscula pracinha, e apesar de não ter fiação por perto a estúpida prefeitura teima em podá-la sem regras ou dó. Seu palavreado é duro em relação aos homens em geral. E particularmente áspero com os políticos. Como planta pioneira que é não perdoa crimes lesa-pátria.

Anualmente suas sementes viáveis são disseminadas pelo vento e infelizmente caem no asfalto. Seus longos e sábios discursos não mais cabem em terrenos altos e bem drenados. Porém aquele homem a escuta com muita atenção. Pois planta decídua, heliófita, seletiva xerófita é característica do cerrado. Fala de tudo um pouco, principalmente da fluidez do tempo, sem fatalismos, mas com a sábia qualidade de resignação dos vegetais. Cada lição é absorvida sem pressa.

Agora, logo depois de florescer em setembro, totalmente nua – assim como as grandes mulheres, ela é mais plena sem vestes e coberta de água – os frutos amadurecem. São favas que fornecem um som belíssimo nos vendavais de novembro. Nesse momento é que a maioria dos seres humanos a ouve, mas não a escutam. Seus frutos abrem espontaneamente, o saber também é assim. Brota e espalha, são milhares em um quilo apenas, não duram mais do que uma estação.

Convivem raízes superficiais com tronco em que a casca adstringente vai para os curtumes. As flores branquinhas e delicadas, algumas de um amarelo esvanecido combinam com as favas. Tudo junto e misturado. Ela serve um chá de sua pele para a falta de ar que a secura leva aos pulmões de seu interlocutor. Necessário oxigênio para clarear a mente dos homens. Nada melhor do que um diálogo interno com uma frondosa planta.

Agraciado com tanta beleza, ele agradece suas conversas e nem percebe que poucos entabulam diálogos com vegetais. Na varanda cheia de bonsais, tenta reproduzir uma floresta de sabedoria que não possui, ele é novo. Mas como bom ouvinte, vai aprendendo. Mas mal sabe ela que ele já fez mudas e rega duas vezes por dia, a germinação foi espetacular. Transplantou para um canteiro individual e irá fazer uma alameda daqui uns quatro meses. Em dois anos terão mais de quatro metros de altura.

O leitor urbano deve ter ficado curioso em identificar qual árvore é essa. Com a modernidade dos meios de procura eletrônicos, ficou fácil. Se chegar até o final desse relato é porque ama as árvores e tudo que elas nos proporcionam. Sugiro que tente escolher um exemplar qualquer–bem antigo de preferência–e conte à ele seus problemas, aflições e porque não as realizações, sonhos e desejos. O personagem fez amizade duradoura com o angico do cerrado, o curupaí. Devem estar frente a frente enquanto você lê. Árvores falantes existem, basta procurar à sua volta ou se não encontrar, vire-se para dentro e para o centro de você. E ouça.

(JB Alencastro, médico, escritor e aventureiro)

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