Brasil

Crise de confiança

Redação DM

Publicado em 9 de fevereiro de 2016 às 00:15 | Atualizado há 10 anos

Divulgando há alguns anos o livro de minha autoria “O Agronegócio passa pelo Centro-Oeste” a alunos da Faculdade Anhanguera no auditório da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), dei aos jovens explicações sobre a importância da integridade nos negócios.

Exemplifiquei o caso das exportações de café em que algumas empresas o misturavam a pequenas pedras nas secas de juta para ganhar mais peso. Eu na oportunidade comparei à traição afetiva a então prática. Asseverei que a reconquista do mercado é mais difícil do que a conquista, assim como no amor.

No mercado internacional, o procedimento brasileiro levou os importadores a outras fontes, como a Colômbia e países africanos. Os brasileiros demoraram anos para o processo de reconquista do mercado.

Com o produtor nacional compreendeu a lição, o café brasileiro voltou a ser consumido nos grandes centros internacionais. O cafeicultor foi inclusive mais longe. Adotou um produto de melhor qualidade. Inclusive o Cerrado está produzindo um excelente café, tipo exportação, e garantiu os sofisticados mercados da Itália e França.

O Brasil tem um parque cafeeiro de 6,7 bilhões de covas, entre pés em formação e produção, segundo dados da Conab. Destas quase cinco bilhões são de plantas de Coffea arabica, da qual fazem parte a Mundo Novo e a Catuaí.

O País tem na atualidade 120 cultivares de café arábica registradas no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), mas nem todas são adotadas no campo. O número crescente demonstra o bom investimento em pesquisas de melhoramento genético e a preocupação dos pesquisadores em buscar cultivares cada vez mais adaptáveis às diferentes exigências de produtividade, clima, solo etc. A questão da longevidade, visto que o café é uma cultura perene, é também um dos fatores preponderantes na escolha de uma cultivar.

Nas variedades mais recentes, o índice de produtividade e as características de resistência a pragas e doenças têm sido aspectos alcançados com sucesso, mas o pesquisador Luiz Carlos Fazuoli destaca a importância do produtor seguir algumas recomendações antes de optar pela introdução de uma nova cultivar em sua fazenda. Segundo ele, em uma mesma fazenda pode haver diferenças na produtividade da mesma cultivar.

Mas, fugindo do tema café, assistindo ao lançamento do Manual das Eleições 2016, de autoria do senador Wilder Moraes e advogado Leonardo Batista, na noite de sexta-feira no Shopping Bougainville, senti a sua percepção contra os atos que desabonam a conduta política no Brasil. Wilder, que teve uma infância de dificuldades e soube vencê-las com o trabalho e tornou-se um empresário bem sucedido no ramo da construção civil, nos mostra como certo o caminho da ética.

A corrupção brasileira me lembra quando se percorre os capinzais nas fazendas infestadas de carrapatos. Esses parasitas causam danos aos animais domésticos e aos homens. Eles chupam o sangue das vítimas. Assim como os corruptos sugam o que a nação verde-amarela constrói com muito suor e lágrima. É uma lástima. Esses carrapatos se multiplicaram nos últimos tempos.

Felizmente, temos um certo consolo da Polícia Federal quando prende os ladrões de casaca, donos de grandes empreiteiras, e lideranças políticas. Sentimos, também, certo alento quando autoridades jurídicas do porte de Joaquim Barbosa, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, e do juiz Sérgio Moro, de Curitiba, punem com a cadeia esses carrapatos que sangram o povo brasileiro.

Dá para imaginar a angústia desses juízes envolvidos no processo contra a corrupção. Colocar gente assim nas grades com certeza é ameaça à garantia de vida de seus familiares. Pelo que se viu de Joaquim Barbosa ao pedir a sua aposentadoria dá para pensar as dificuldades pessoais de sua conduta. Como diria o cidadão comum: não é mole, não.

Mas, é isso que a sociedade espera. O procedimento ético em todos os escalões dos poderes executivo, legislativo e judiciário para restaurar a crise de confiança brasileira.

 

(Wandell Seixas é jornalista)

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