Brasil

​De festas e escárnios

Redação DM

Publicado em 10 de dezembro de 2016 às 23:55 | Atualizado há 10 anos

Costumo dizer que a única coisa de que não tenho preguiça é de escrever. Sim, porque muitas vezes sinto preguiça até de falar, quanto mais praticar caminhada, ir à farmácia ou ao açougue, ligar para desejar Feliz Natal (a expressão se tornou tão automática que a pronunciamos sem considerar o real sentido) ou repetir bons-dias, quando sempre é possível expressar alegria e formular votos de modo diferente.

Agora, chegamos aos meados do último mês do ano – e aprendemos desde cedo a partilhar a vida em períodos. Ora, dias e noites são fáceis de se conceber, nosso relógio biológico nos sugere a fome e a sede, o sono e repouso, a disposição de encarar fatos e atos do quotidiano. As semanas, estas já medimos sem as barreiras das medidas artificias – já os meses e anos, ainda que com suas marcas fortes, pelos ciclos lunar e solar, estes nos exigem outra forma de atenção.

O tempo, as sete décadas já vividas, prenunciam-me a velhice. Quando será que vou me sentir de fato velho, hem? Por enquanto, tenho rugas e cãs… Pausa! Preciso explicar, por se tratar de palavra pouco usual, que “cãs” é como denominamos nossos cabelos grisalhos ou brancos; inseri a palavra num poema e ele foi publicado como “cães”. E o diagramador me acusa, hoje, de ser “agressivo com os pobres revisores”. Mas, convenhamos, como ser tolerante com revisor descuidado?

Reabro o tema, fecho a pausa. O tempo, que transforma nossas belezas visuais em material descartável, pronto para a reciclagem, o tempo costuma alumiar melhor nosso interior, sobretudo nosso pensamento, que nos sugere novos e saudáveis conselhos.

Nestes dias, tão marcados pelas confraternizações, tenho tido momentos agradáveis de convívio, de variação de cores e de luzes, de musicalidade (poxa! Que lindeza a apresentação da Orquestra Sinfônica Jovem na festa de encerramento do ano pela Academia Goiana de Letras!). Vivi também uma série de bonitas festas literárias, com novos livros de muitos amigos – e até mesmo um livro meu, conjugado com o de Iuri Godinho, quando trouxemos novos livros sob um só título, livros esses com capas que resultam da divisão mediana de uma belíssima tela de Alexandre Liah…

Contudo, amigos meus, contudo, houve também a vergonha escancarada, o deboche público que só mesmo os néscios se encorajam para praticar. Claro, claro: refiro-me a esse ser abominável que os alagoanos mandaram para o Senado e seus pares (os que nós outros, dos demais estados, também enviamos) elegeram para presidir nossa Câmara Alta. Renan Calheiros, que expôs seu desrespeito à própria família ao deixar vir a público um romance paralelo com uma bela jovem, romance esse com frutificação e arranjos para que uma empreiteira bancasse a pensão alimentícia, debochou do Senado, provocou e vilipendiou a Justiça e humilhou a Nação.

Mas ele não agiu só (outro alagoano, há um quarto de século, vociferava na solidão do Palácio da Alvorada – “Não me deixem só!” – mas nós o deixamos só, sim!). Contou com o apoio de um grupo de colegas sobre os quais lançamos nossas mais vis suspeitas. E conseguiu envolver pelo temor (ao que tudo indica) os nobilíssimos senhores da Justiça, e deu no que deu.

A idade é alta, eu sei. E gosto disso, gosto muito! A idade exige de mim posturas mais lúcidas e racionais, mais sóbrias e positivas. Mas, amigos meus, só de mim? Só de nós, trabalhadores, gente que rala sem limites para viver com o mínimo de dignidade?

Eles, os “excelências”, precisam tomar consciência. E se isso lhes for muito difícil, que tomem ao menos vergonha na cara.

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(Luiz de Aquino, professor, jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras)

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