Brasil

De volta para casa

Redação DM

Publicado em 13 de outubro de 2015 às 23:47 | Atualizado há 11 anos

Houve dias em que o tempo era muito curto para a extensão do que eu tinha a caminhar.

As vinte e quatro horas eram muito poucas para tanta tarefa que eu precisava estender por toda à noite, até o amanhecer para completar o trabalho e recomeçá-lo algumas horas adiante.

Eram dias agitados que minhas forças multiplicavam as horas de serviço. E foi assim que o tempo passou sem que eu percebesse.

Agora que o tempo há passado ou passado, eu fico a imaginar o quão curtas são as horas do dia – e quanto demora chegar a noite.

Fiz o que tinha a realizar, mas minh’alma fica a me cobrar trabalhos a fazer, embora eu os faça, mas tão facilmente, que me acho inútil, com tempo a sobrar. E sou por isso muito infeliz.

O caminho é longo e meus passos são lentos, tardios o suficiente para chegar ao término – exatamente ao final do dia.

Penso que eu não soube viver, que devo ter vivido muito em tão pouco tempo, e hoje me sobra porvir, ainda, para viver. Então o tempo fica longo e a tarefa terminada.

Não posso mudar nada sem que meus passos sejam medidos, pois acontece que às vezes eles não querem andar.

Vou fazer o trabalho que me aguarda, e quando chego ao local dele, já está executado. Se vou reclamar quem o adiantou executando-o, descubro que fui eu, com sobra de tempo.

Fico relegado à solitude do caminho, que se alonga sinuoso, à minha frente, todo dourado de sol, cujo calor dorme ao rés da trilha.

Procuro a sombra fresca de fronde amiga para descansar da caminhada que foi curta e, ao terminá-la, noto que o dia ainda demora.

Fico a imaginar se posso criar outro ideal, e percebo que posso e quero, mas meu corpo não pode e nem quer.

O que fazer então? Olho o que os outros fazem e assombro ao vê-los fazendo tudo o que já fiz, mas muito calma e serenamente. O tempo hoje não tem pressa. O tempo não cobra de todos a agilidade que cobrou de mim. “E eu não posso agilizar meus carmas porque seu peso pode ser muito para minhas forças. Devo agradecer que eles cheguem lentamente, conforme minhas forças.”

Bom… Estive parado aqui por certo tempo, olhando este caminho, o horizonte calmo e azul à distância… Agora vou prosseguir conduzindo uma saudade muito grande dos tempos que ficaram para trás… e eu tenho a impressão de que essa época ficou no começo dessa estrada percorrida…

Dou uma espiada para trás a ver se vejo de onde venho… Mas o que diviso é só o horizonte beijando a terra, e a terra beijando o horizonte… Se olho para os lados, há muita solidão anilada abraçando silhuetas de frondes, como que a fechar o ciclo da minha vida, num trecho pequeno em que andei, vivi e venci…

Entretanto, sei que foi esse o prazo e o limite da minha vida… No espaço que vejo e alcanço com os meus passos, é de fato a extensão do que vivi… como a vida é mínima e a gente tem a impressão de que era bem maior…

E se a gente se dispuser a lembrar das vidas que cruzaram com as nossas, é que temos a certeza de que foi longa a caminhada, pois os entes queridos que passaram já o fizeram há tanto tempo, que tenho a impressão que já é tarde na vida e que talvez eu tenha esquecido o caminho de volta…

Ainda bem que Deus não perde o endereço da gente… e me leva de volta para casa…

 

(Iron Junqueira, escritor)

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