Diário de uma espera
Redação DM
Publicado em 17 de setembro de 2016 às 03:56 | Atualizado há 10 anosQuem te amo? Quem te espero? Quem é que te digo? Como te sorriso? Na lauda do desejo a faca que corta o fio do juízo funde quem imaginamos com quem de fato está ao nosso lado. Um dia uma camponesa vira rainha, uma lavadeira fidalga, o ser ninguém em pessoa especial, nos meandros de uma ficção que ocorre dentro de nossa alma, no imaginário, na metade de uma história de amor. Quem te amo?
O exemplo da saga de Dulcinea del Toboso, de Miguel de Cervantes, em Dom Quixote de la Mancha, ilustra o enigma das projeções no tratado do desejo. Um retrato de uma espera que diariamente consome, dá vida, força, ânimo, a musa idealizada, sonhada, querida, desejada, mas que de fato não existe no paradoxo das projeções de felicidade… um dia com ela serei feliz? Quem você ama existe?
O drama do amor não pertence a gênero, mas ao teor das expectativas, da fantasia, de nosso imaginário, da estrutura de nossa afetividade, no campo do sublime, das emoções. Mais que uma construção sócio-histórica, está na estrutura dos arquétipos, no drama do ser humano que quer colo, atenção, carinho, ter um bem – que jamais vai lhe pertencer de verdade. O até que a morte os separe, na alegria e tristeza, na saúde e doença… o dois em um que se requalifica em nosso mundo virtual de ideais e rara realidade. Qual poeta, compositor, ou ser romântico sobrevive sem uma musa? Qual seria a graça da Espanhola de Sá e Guarabira se acaso ela realmente existisse? Te amo espanhola… te amo… mas quem é este ser que invade, habita nosso desejo sem por vezes existir na realidade? O que é este ideal que nega e às vezes não percebe o outro com quem se relaciona?
Um dos maiores dramas da pós-modernidade está na invasão rotineira e constante do virtual frente à realidade. A fantasia que hoje consome boa parte da vida das pessoas. O eterno querer insaciável, que azeda toda sopa, no cenário mercadológico da insatisfação pragmática: “nada nem todos estão bons o suficiente”. A ruptura sistêmica do bem-estar transformando a existência no diário de uma espera de algo que jamais vai vir ou deixar qualquer um satisfeito. Anima e ilusão em conluio.
É notório que hoje em dia em nosso consultório na prática da psicoterapia encontremos pessoas inaptas a se relacionarem afetiva e socialmente. A indisposição constante e crescente para o outro. O desejo de algo tão idealizado, tão imaginado, criado, rotulado, tão fora da realidade que o real, quando aparece, o rompimento é certo. Muita exigência para pouca doação é o cerne do egoísmo pós-moderno que faz da masturbação e da reclamação o centro da existência, tornando o outro um objeto. A pessoa com quem se relaciona é apenas um receptáculo de projeções de um ideal, uma tela, uma fantasia intensa na qual o outro jamais participou, ou sequer foi consultado. A lavadeira transformada em fidalga que jamais deixou de ser uma camponesa. O dote imaginário de pedras preciosas que não passou de um amontoado de cascalhos… a pessoa que imaginei jamais existiu, utopia de coração! Mas onde está você agora? Por que te sonho?
(Jorge Antonio Monteiro de Lima, analista, pesquisador em saúde mental, psicólogo)