Brasil

Didaticamente 2

Redação DM

Publicado em 9 de abril de 2016 às 03:09 | Atualizado há 10 anos

Como professora de História, ensinei a muitos alunos sobre os quatro novos pensamentos surgidos no decorrer do século XIX, sendo que um deles é o comunismo. Comunismo, numa explicação bastante simples, é “(do latim communis – comum, universal ‘coisa pública’, segundo Platão)  uma ideologia política e socioeconômica, que pretende promover o estabelecimento de uma sociedade igualitária, sem classes sociais, baseada na propriedade comum dos meios de produção”.

Já contei outro dia das discussões que ouço num bar de bêbados que existe no bairro aonde moro, lugar onde passo diariamente, e onde se discute e se jura que o Brasil está em pleno comunismo. Haveria muito o que falar sobre o que é, realmente, comunismo, se ele já foi implantado de verdade sobre a face da terra, essas coisas mais sofisticadas, mas vamos nos ater à definição simplista que está acima, tirada de uma coisa muito rasteira em termos de reflexão, chamada Wikipédia.

Se estivéssemos num comunismo, como afirmam os bêbados da minha vizinhança e miles de ignorantes nas redes sociais, onde estaria a sociedade igualitária, sem classes sociais, baseada na propriedade comum dos meios de produção? Você é capaz de olhar ao seu redor e ver o que já foi citado duas vezes mais acima? Eu moro numa pequena rua que tem apenas 16 casas, e quase poderia dizer que é uma rua com 16 classes sociais, onde ninguém é igual e muito menos existe uma propriedade comum dos meios de produção.

Como é a sua rua? Vive-se uma igualdade, uma verdadeira irmandade onde tudo se divide e tudo é comum a todos? Nem duvido: tenho certeza de que não é assim. Mesmo naquelas ruas de casas mais abastadas, onde carros importados dormem nas garagens bonitas e gente comum, como nós, passa e pensa que é uma rua de ricos (Os ricos de verdade a gente nunca vê. Estão nos seus iates de luxo, viajando pelo Caribe, ou outros lugares assim – essa gente que vive nas ruas de casas bonitas e carros luxuosos são mera classe média), as diferenças entre as pessoas são gritantes. Para começar, aquelas pessoas não dividem nada: pagam pequenos salários para outras que moram lá, como as empregadas domésticas, os jardineiros ou motoristas, enquanto gastam fortunas com coisas tolas como roupas de marca e outras bobagens assim, exatamente para deixarem bem claro as diferenças sociais, que as pessoas pertencem a classes sociais diferentes, e por nada do mundo aceitariam fazer parte de uma sociedade igualitária, partilhando a sua loja, a sua fábrica ou qualquer coisa que fosse sua.

Sei que às vezes tentam lhe enganar e lhe dizem coisas como dizem os bêbados do bar por aonde passo; sei que talvez nunca ninguém lhe explicou detalhadamente algumas coisas, e então você não é obrigado a saber sem receber uma explicação, e então estou aqui a lhe afirmar: o mundo em que vivemos, notadamente aqui no Brasil, está tão longe de um mundo comunista quanto Vênus ou Marte – vivemos num mundo extremamente capitalista (que é o contrário do comunismo), onde as diferenças sociais são gritantes – e mesmo que você tenha uma alma comunista e queira viver de acordo com aquela filosofia nascida no século XIX, não vai conseguir, pois seu entorno pensa diferente de você, e falta muito, mas muito mesmo, para que as pessoas comecem a pensar na possibilidade de compartilhar em igualdade os meios de produção.

Portanto, não acredite em bobagens e não dê atestado de ignorante berrando aos quatro ventos, em bares de bêbados ou nas redes sociais, de que quem não pensa como você é comunista, ou que o Brasil é um país comunista. Se não conseguiu entender, peço que releia atentamente a definição de comunismo acima, lá no primeiro parágrafo. Dói-me o coração quando vejo as pessoas fazendo questão de mostrar sua ignorância. É por causa desta pena que tenho estou tirando um tempinho do meu sono para escrever isto.

 

(Urda Alice Klueger, escritora, historiadora e doutora em Geografia)

Tags

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia