Brasil

Djalma Barreto Neves, 50 anos de sacerdócio

Redação DM

Publicado em 29 de dezembro de 2015 às 00:37 | Atualizado há 11 anos

Tenho 63 anos, fui publicitário, jornalista, radialista e contador. Hoje sou advogado e estive 11 anos no Seminário Redentorista São José, na Vila Aurora, em Goiânia. Muito – ou quase tudo do que sei e sou – devo a este senhor especial que celebra, neste mês, 50 anos de sacerdócio.

Permitam-me uma volta no tempo. Foi num retorno de férias, 46 anos atrás, no Seminário São José, 29 de janeiro de 1969. Estamos ensaiando uma peça de teatro e um cara se vira pra mim e diz: “Ei, você não está aqui.” Pouco depois, eu me perguntava sozinho, perdido em pensamentos, um indeciso adolescente de 17 anos: “E então? Onde eu estaria?” Foi ali que abri os olhos e me encarei pela primeira e definitiva vez: decidi que, a partir daquele momento, eu iria construir a minha vida. O cara que perguntou era um padre novinho, um moreninho atrevido, sonhador, carinha de baiano, um baixinho que – fui descobrir depois – também decidira construir vidas: Djalma Barreto Neves.

Dali em frente, construímos uma amizade sólida, uma parceria de mudança, uma luta pra superar barreiras, um jeito de transpor desafios e desafiar limites. Foi naturalmente uma caminhada de tropeços e conquistas, de idas e vindas, de altos e baixos, mais altos que baixos, mas que sempre mirava o futuro, centrada na construção de um presente que fosse resposta aos anseios, aos incríveis sonhos e a todas as alvissareiras utopias de quem estava, de fato, se abrindo para a vida.

A mim e a nós, ex-seminaristas do Seminário São José, ensinava ele que “hilarem datorem diligit Deus” – Deus gosta de quem se entrega com alegria. E então aprendi, nas muitas conversas e na cotidiana busca, que é mais fácil entregar-se sem amarras, sem reticências, sem nenhum receio. Entendi que é mais fácil dar tudo do que dar muito. E deu no que deu.

O Djalma, pra mim e pra nós, foi o timoneiro no mar revolto e aventureiro de nossas adolescências e perguntas infinitas. Se logo ali havia um escuro, era ele a luz a nos aclarar caminhos. Se o medo batia no peito, lá vinha ele levando-nos a enfrentar, com coragem, nossos morcegos e vampiros. Se a incerteza turvava o olhar, tinha ele o dom de apontar caminhos. E se o caminho se fechava no emaranhado dos receios, ele nos ensinava a abrir picadas na mata dos medos, a jogar pinguelas nos ribeirões escuros de então, e, quando menos esperávamos, saíamos da noite escura para a madrugada de luz, entregando-nos a paz de mais um dia pra viver. O tempo que passamos com ele no Seminário São José – a gente a perguntar e temer, ele a responder e acenar soluções –, aquele tempo é das boas lembranças que carregamos vida afora, e são naqueles corredores de antes que fazemos caminhar hoje nossa saudade, revivendo pessoais e memoráveis batalhas e celebrando nossas conquistas, pequenas mas definitivas conquistas.

Por isso, podemos celebrar. Celebrar a vida que vivemos e que ele, sabiamente, nos ensinou a construir. Foi ele que inventou de escrever histórias, acolhendo jovens, ensinando caminhos. Apontou rumos, afugentou temores, acreditou nos amores, varou fundo a verdade que a gente teimava esconder, caminhou pelos intrincados vãos da alma humana, até sacramentar-se como um imponente angico, uma aroeira generosa de um grupo que, antes e hoje, parece não aceitar-se sem ele. Mas sem louros. Em uma simplicidade franciscana. Ou Redentorista, dentro do espírito afonsiano do desapego e da modéstia. Sem atavios. Como de seu feitio, despojado.

Por isso não carece de adjetivos o Djalma. Aliás, dispensa adjetivos. Ele é tão somente o Djalma. O da televisão. O da universidade. O do seminário. Um homem que ilumina. Que sossega. Que joga paz por onde passa. Mas, pra mim e pra nós, não é herói. Heróis são frágeis, distantes, coloridos pela imaginação mas esquecidos depois pelos cantos descuidados da vida. Djalma é muito mais: é padre, é escora, é referência. Mais que respeito e adoração, temos por ele um devotado amor. E dele recebemos, tenho certeza, o mais emocionado amor do mundo.

Foi ele que veio nos abrindo os olhos para a vida. Com seu jeito manso e tão especialmente forte, apontou-nos metas e dizia-nos, confiante: “Vão, busquem o futuro, lá é seu lugar.” E vida afora, caminhamos passos seguros, na segurança que ele nos deu. Djalma nos mostrou a luz. Infundiu-nos no peito o milagre da fé. Fé no Pai querido que nos fez peregrinos rumos ao seu céu de paz. Na Mãezinha querida que nos leva pra Jesus. Fé na vida que se abria, a cada manhã, diante de nós. Fé nas pessoas que nos rodeavam. Fé no futuro que, lado a lado, fomos construindo com nossas próprias mãos. Foi ele que nos acolheu em momentos de dor, enlaçou-nos em segurança nos instantes de indecisão, mostrou-nos a vida como um belo e necessário desafio. E ainda hoje nos motiva: “Vão! Vão desenhar seus próprios passos na areia inexplorada!”

Djalma é amigo. Do peito. De todo jeito. Pra toda obra. Homem simples da gente ser irmão em dois minutos. E de muito respeito. Pois é padre de boa cepa, de olhar comprido, sério e previdente, de quem se gosta de graça, um homem bom da gente olhar, admirar, conviver, celebrar.

Parabéns, Djalma! Padre Djalma Barreto Neves. Parabéns pela vida. Sua vida. E pela vida que vivemos por sua causa. Se somos hoje realizados e felizes, você tem aí uma generosa e indisfarçada culpa. Muito bom saber disso, viver isso, celebrar tudo isso. 50 anos! Se der conta, caminhe pros 100. Mas saiba que estes 50 já são uma resposta intensa, generosa, completa, serena e, também, atrevida e simplesmente bela. Parabéns e obrigado.

 

(Ladislau Gonçalves do Couto Neto, advogado e estudou no Seminário  São José, em Goiânia, de 1964 a 1975)

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