Do amor ao próximo como a si mesmo
Redação DM
Publicado em 24 de dezembro de 2016 às 02:15 | Atualizado há 10 anosAos sentimentos positivos do amor, da caridade e da justiça, opõem-se os sentimentos negativos do egoísmo, da indiferença e da ambição, que colocam as criaturas humanas diante do desafio entre o bem e o mal. O amor não é um instinto, que se confunde com o egoísmo, mas um sentimento de afeição e simpatia, que liga as criaturas humanas em busca de si mesmas. Daí o sentido do mandamento: amar o próximo como a si próprio.
EgoÍsmo e orgulho
O homem egoista só deseja sua própria felicidade, minando a do outro. O egoismo é filho do orgulho e inimigo da caridade. A caridade é irmã da fé, sendo uma inseparável da outra. A caridade não é condicionada á esmola, mas á beneficência: há quem não precise de esmola, mas de consolação. Difícil amar o próximo sem laços de simpatia, amizade e confiança, que pressupõe a ternura devotada a um irmão ou amigo.
Amar, mesmo o inimigo
O inimigo nos é útil como prova de expiação para nosso crescimento espiritual. Pode haver inimigos entre os encarnados e os desencarnados, considerando-se que o estágio de evolução prevalece tanto na vida quanto na morte, em que haverá a superação do mal pelo bem. Amar, mesmo o inimigo, não é ter por ele afeição, mas é não ter-lhe rancor. É perdoá-lo, sem desejo de vingança. É desejar-lhe o bem em lugar do mal. É abster-se de prejudicá-lo em pensamentos, palavras ou atitudes.
Beneficência e caridade
Nunca se deve ficar indiferente quando se pode ser útil. A humildade e a beneficência nos unem ao próximo, como irmãos. A caridade nos conduz a Deus e a piedade nos aproxima dos anjos. Não deixemos nossos semelhantes sofrerem como órfãos. Muitos órfãos da vida se perdem no vício porque não tiveram a beneficência de quem os ampara tocando sua alma. O bem deve ser feito com desinteresse e não deve ser desencorajado pelas decepções.
Caridade e salvação
Fé, esperança e caridade são as três virtudes teologais. Como adverte Kardec, sem a fé não há esperança, sem a esperança não há caridade, sem a caridade não há salvação,. A salvação independe de crença que divide os homens entre si, enquanto que a caridade os une e eleva a Deus. Os verdadeiros irmãos, ou filhos e pais, o são pelo espírito e não pelo sangue. O espírito existe antes da formação do corpo. Por que há pessoas estranhas que se unem por simpatia e parentes consangüíneos que não têm afinidades? Fazer o bem depende da vontade e da ação, enquanto o mal decorre da inércia e da negligência. Todas as virtudes se resumem na caridade, que pressupõe um gesto de humildade e de amor ao próximo. Todos os vícios têm princípio no egoísmo e no orgulho, que são a sua negação.
Desigualdade e diversidade
Segundo Kardec, “tudo o que superexcita o sentimento da personalidade, destrói, ou pelo menos enfraquece, os elementos da verdadeira caridade, que são: a benevolência, a indulgência, a abnegação e o devotamento”. A desigualdade entre os homens vem antes da diversidade dos seus caracteres e aptidões. A desigualdade da riqueza é um bem para a sociedade em vista da competição para o progresso. Mas a riqueza não pertence absolutamente ao rico, vez que é para ele a prova da caridade e da abnegação. O melhor capital que deve render uma riqueza são as boas obras que patrocina. “A beneficência não é senão um modo do emprego da fortuna”. (Fénelon, apud Kardec).
Qualidades do homem de bem
Sigamos Kardec, extraindo, em síntese, de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, os seguintes tópicos:
O verdadeiro homem de bem é aquele que pratica a lei de justiça, de amor e de caridade em sua maior pureza. Tem fé em Deus, em sua bondade e em sua sabedoria. Sabe que nada ocorre sem a sua permissão. Tem fé no futuro, por isso coloca os bens espirituais acima dos bens temporais.
O verdadeiro homem de bem sabe que todas as virtudes da vida, todas as dores, todas as decepções, são provas ou expiações, e aceita-as sem murmurar. Possuído do sentimento de caridade e de amor ao próximo, faz o bem pelo bem, sem esperança de recompensa. Sua primeira ação será voltada aos outros antes de pensar em si ou de procurar seu próprio interesse. O egoísta, ao contrário, calcula os lucros e as perdas de toda ação supostamente generosa.
O homem de bem é benevolente para com todos, sem preferência de raças nem de crenças. Respeita nos outros todas as convicções sinceras e não lança o anátema àqueles que não pensam como ele. Em todas as circunstâncias, a caridade deve ser o seu guia. O homem de bem não tem ódio, nem rancor, nem desejo de vingança. É indulgente para com as fraquezas alheias, porque sabe que ele próprio tem necessidade de indulgência.
O homem de bem não se compraz em procurar os defeitos alheios, nem em colocá-los em evidência. Estuda as suas próprias imperfeições e trabalha, sem cessar, em combatê-las. O homem de bem não procura fazer valorizar nem seu espírito, nem seus talentos à conta de outrem. Não se envaidece nem com a fortuna, nem com as vantagens pessoais.
O homem de bem usa, mas não abusa dos bens que lhes são concedidos. Se a ordem social colocou homens sob a sua dependência, ele os trata com bondade e benevolência, porque são seus iguais perante Deus. O homem de bem, enfim, respeita em seus semelhantes todos os direitos dados pelas leis da natureza, como gostaria que os seus fossem respeitados.
(Emílio Vieira, professor universitário, advogado e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa. /E-mail: [email protected])