Dois por um
Redação DM
Publicado em 22 de outubro de 2016 às 01:39 | Atualizado há 10 anosDuas moedas por um cigarro, sempre foi assim. Seu pai o buscava na escola, lhe perguntava como havia sido o dia dele, contava alguma história ou dizia alguns conselhos. Eles iam caminhando juntos para casa e seu pai parava numa banca. A senhora que lá trabalhava olhava para ele e dizia “Você é a criança mais lindinha que eu já vi!”. Frequentemente lhe apertava as bochechas, sempre lhe dava algumas balinhas. Era muito simpática, ela gostava dele e ele gostava dela. Seu pai, então, dava duas moedas e ganhava um cigarro. O pequeno não entendia como aquilo funcionava, era errado. Seu pai entregava duas moedas, tinha que ganhar dois cigarros! Mais de uma vez pensou em reclamar, dizer para seu pai que a mulher o estava enganando. Mas ele lhe ensinara a respeitar os mais velhos e que “Seu pai sabe o que faz”. Se ele fazia então devia estar certo.
Ele não gostava de cigarros. A fumaça que eles soltavam deixava seu nariz coçando por muito tempo. Ele só não reclamava por causa de seu pai. Aquela curta caminhada da escola até em casa era, quase sempre, o único momento em que o tinha por perto. Quando ele acordava seu pai já havia saído e logo após chegar com o pequeno da escola ele almoçava e voltava para o trabalho. Quando seu pai chegava do trabalho já havia passado da hora de ele ir para a cama. Por seu pai ele podia aguentar os cigarros.
Um dia, porém, seu pai não fora lhe buscar na escola. Nem a sua mãe ou irmãos. Todos pareciam ter se esquecido dele. Quando o pequeno começou a achar que moraria na escola, comeria só da comida da cantina e teria que chamar a professora de mamãe e a diretora de vovó, um tio apareceu para buscá-lo. Chegou com seu carro velho e barulhento, com tanta fumaça quanto um cigarro. Ele lhe perguntou onde estava seu pai, o tio não respondeu, perguntou novamente e uma terceira vez. Na quarta o irmão de sua mãe mandou que se calasse. Ele não gostava mais daquele tio.
Quando chegou a sua casa sua mãe estava chorando, seus irmãos tinham sumido e seu pai não estava almoçando. O pequeno foi até a mãe e perguntou por que ela chorava. Ela não respondeu, apenas o abraçou e chorou em seus ombros e pescoço. Ele perguntou muitas outras vezes o que estava acontecendo. Ela não o respondeu. O pequeno apenas desistiu e tentou consolar sua mãe. Por fim, quando ela parou um pouco de chorar ele perguntou por seu pai. Ela o olhou e novamente caiu em lágrimas.
Isso continuou por três dias. Seu pai desaparecido, sua mãe chorando, seus dois irmãos mais velhos nunca estando ao mesmo tempo em casa. Quando um estava o outro não estava. O pequeno, completamente perdido, exigia deles alguma explicação. Ninguém, porém, lhe dava.
No final do terceiro dia o pequeno estava revoltado com todos, ninguém falava nada com ele. Ali ninguém gostava dele! Eram todos idiotas! Ele odiava todos! Seu irmão entrou no quarto dele. De pronto seu ódio se amainou e ele questionou seu irmão a cerco do que estava acontecendo.
— Como você está? – Seu irmão lhe pergunta. Que idiota! Como ele poderia estar bem sendo excluído do que quer que estivesse acontecendo!
— Você vai me explicar?
— Vou, só primeiro tenho que te dizer algumas coisas. Olhe só… Bem… Sabe? As coisas mudam. As pessoas mudam. Nada dura para sempre, você entende?
— Não! Claro que não! Do que você está falando!?
— Calma, por favor, se acalma. – Ele queria bater no irmão dele, queria bater até que aquela cara de idiota saísse de seu rosto… Ele olha para seu irmão e vê que ele está chorando…
— Não sei te explicar, – diz entre soluços, – realmente não sei! Vou ser direto! – Olha bem no fundo dos olhos dele. – Nosso pai morreu!
Naquele momento o mundo parou de fazer sentido. Tudo caiu. O chão desmoronou. Era mentira! Tinha que ser mentira!
Mas não era mentira… No outro dia de manhã trouxeram o caixão. Trouxeram com seu pai dentro. Ele o olhou e pediu explicações, ninguém lhe deu. Quando perguntou o porquê de tudo aquilo um tio dele, irmão de seu pai disse apenas “Foi culpa do cigarro”.
Nada daquilo fazia sentido! Seu pai, seu tão lindo pai! Como o cigarro fez aquilo? Como tudo podia acontecer? Como ninguém lhe explicava nada? Seu pai que abraça tão forte, seu pai que lhe cutucava com a barba, seu pai que tinha um coração tão forte… Ele queria seu pai de volta, queria que o buscasse na escola…
Depois de alguns dias ele teve de voltar para a escola. Sua mãe agora o buscava. Ela não lhe perguntava nada, ela não lhe contava histórias, ela não lhe dava conselhos. Ela nem falava mais com ele. O silêncio era tudo que ela fazia desde que seu pai morrera.
Ainda passavam na frente da banca. A banca da velha que matara seu pai! Da mulher que o enganara, fazendo-o acreditar que ela gostava dele só para matar seu pai. Ele a odiava, ele odiava a escola, odiava seus irmãos, odiava sua mãe, odiava tudo…
Ele queria seu pai de volta.
(Antônio Ribeiro Gugel, acadêmico de Psicologia da PUC-GO)