Dos três reinos
Redação DM
Publicado em 19 de abril de 2016 às 03:36 | Atualizado há 10 anos1- Se entre cada duas pessoas houvesse um animal e uma planta, o homem seria melhor. Se entre uma planta e um animal houvesse um homem melhor, o mundo seria mais feliz.
2- Esta nossa cabeça vai-se enchendo de ideias vãs. Esta nossa cabeça vai-se inchando de sonhos voláteis. Esta nossa cabeça vai-se inflando de ilusões passageiras. Pela nossa cabeça passam mundos giragirando às pressas. Pela nossa cabeça passam vidas mundamundando às avessas. Pela nossa cabeça passam miragens com suas faces dispersas. Por que trocar não podemos esta nossa cabeça?
3- O cosmo e o homem formam o uno e o múltiplo. O uno criou o múltiplo: múltiplo é o universo e uno, o criador. O homem é soma de antíteses: luz e treva, tudo e nada, macho e fêmea, ódio e amor. Não há amor no reino: a harmonia é síntese de opostos. Não há belo nem feio: há sintonia. No reino da natureza, violenta a paz se faz com a morte. E tudo é contra tudo em luta cruenta: a vida não escapa à própria sorte. O ver do homem foi que inventou o mundo e a angústia do homem é a busca de quem o criou.
No mundo material há três reinos: mineral, vegetal e animal, neste destacando-se o ser humano. O cosmos ou ordem universal, como princípio inteligente, compreende tanto o ser humano quanto os entes da natureza, em diferentes escalas.
Os reinos, mineral e vegetal, são constituídos de matéria inerte: no primeiro reside a força mecânica, no segundo a vida orgânica. No reino animal surge a vitalidade animada por uma Inteligência instintiva.
Do reino animal exsurge o ser humano que, além de matéria, vitalidade e inteligência, é dotado de consciência, percepção do imaterial e pressentimento de Deus. O ser humano se destaca dos entes da natureza pela elevação da consciência que o liga a Deus.
As criações da natureza seguem uma escala crescente e harmonizam-se no todo com suas funções específicas. Assim é o existente em conjunto desde a matéria inerte ao mundo imaterial.
Os animais têm uma alma rudimentar como energia que sobrevive à matéria inerte. Uma coisa é a alma animal, outra coisa é a alma humana. Os animais não chegam aos mundos superiores nem conhecem Deus. Mas seguem a rigor as leis naturais, ao contrário dos homens que as transgridem.
Os animais são dotados do instinto de imitação. Assim como seguem uns aos outros, podem imitar também atos humanos. Entre os entes da natureza, que seguem as suas leis, só o ser humano, por estranho que pareça, as transgride.
A alma é sempre uma individualidade, tanto do homem quanto do animal. Há em ambos uma inteligência latente, que no homem se desenvolve segundo sua elevação de consciência.
Como o animal não tem consciência do seu eu, não possui livre arbítrio e nem age por escolha. Não é dotado do princípio intelectual e moral, que é inerente ao ser humano.
Os animais evoluem em função da evolução dos homens, como seus servidores inteligentes. Mas não se reencarnam: sua destinação encerra-se com uma única vida. Eles também têm alma, diríamos rudimentar, como energia que sobrevive à matéria. Os animais progridem pelas suas forças naturais. Como não têm discernimento, não têm expiação.
A inteligência do animal se aproxima da do homem, mas só a do homem se aproxima de Deus. O homem tem dupla natureza – uma natural e uma espiritual – com uma só alma. Eis sua diferença do animal, que só tem vida instintiva e não tem vida espiritual.
O crescimento do homem se dá na proporção que se afasta de sua natureza animal e se liberta da influência dos instintos. Em seu estado de humanidade o espírito esquece gradativamente as suas existências anteriores, na medida em que se desenvolve seu livre arbítrio em nova experiência existencial.
O espírito não nasce com o feto, preexiste a ele. Assim como a essência independe da forma na qual se manifesta. O espírito de uma criatura humana não migra: não se transmite de uma espécie para outra. Não há metempsicose no sentido de que o espírito do homem se encarna num animal ou vice-versa. Seria inverter a ordem natural criada por Deus.
(Emílio Vieira é professor universitário, advogado e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa – E-mail: [email protected])