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Droga de filme que não é uma droga – IV

Redação DM

Publicado em 29 de junho de 2016 às 03:00 | Atualizado há 10 anos

“A miséria da razão é a expressão teórica – deformada e deformante – do mundo burocratizado do capitalismo” (Coutinho)

 

De racionalidade formal-abstrata e irracionalismo velado, a mídia impressa referente à drogadição, revela uma das expressões da questão social em Goiás. O paradigma social expõe a necessidade da elucidação científica do fenômeno – mazela de saúde – trespassa a intersetorialidade em suas dimensões econômicas, políticas e socioculturais engendradas por determinações históricas desta relação de conflito resultante na contemporaneidade envolta pelas diretrizes da ordem burguesa, em suas múltiplas e diversificadas crises periódicas capitalistas.

Historicamente e, de acordo com Hobsbawm (2007), “a tragédia histórica das Décadas de Crise foi a de que a produção agora dispensava, visivelmente, trabalhadores mais rapidamente do que a economia de mercado gerava novos empregos para eles, estratégia capitalista, neoliberal, fundamentada no exército de reserva enquanto pilar da política de baixos salários e disponibilidade de mão de obra, os sobrantes. O aperto financeiro dos governos – maiores empregadores –, acentuado pela conjuntura global, acelera este processo após a década de 1980”. Segundo o autor, a teologia do mercado livre, em favor da transferência de emprego, com foco na maximização dos lucros, principalmente das empresas privadas.

Fato midiático e histórico importante o fenômeno do uso de drogas ou novas substâncias é relatado nas conclusões do Relatório Mundial sobre Drogas 2013, dispostas na Declaração Política e Plano de Ação em Cooperação Internacional para uma estratégia integrada e balanceada no enfrentamento do fenômeno, mundial, com considerável aumento em sua produção devido às novas tecnologias que originam substâncias psicoativas. A nível mundial, uma realidade cuja imediaticidade e mediaticidade, em meio à “flexibilização’ do capitalismo tardio, leva ‘a-classe-que-só-vive-do-trabalho’ à defensiva e penaliza duramente a esmagadora maioria da sociedade” (NETTO, 1996, p. 102), relação histórica onde se inserem a mídia, instituições de saúde e a drogadição, envoltos por mediações dinâmicas, e sob o espectro das contradições das relações sociais em uma coletividade onde, segundo Marx, in (NETTO, 2005) “o homem é o mundo dos homens, o Estado, a sociedade” (p.145).

A articulação marketing e drogadição é elemento de fomento ao mercado consumidor de substâncias lícitas e ilícitas –mercadoria engendrada na coletividade goiana capitalista e periférica – onde os antagonismos de classe expressam-se no coletivo não igualitário, imersos em um padrão de acumulação de capital, que domina as relações sociais com hegemonia, ou “o crescente alargamento da distância entre o mundo rico e o mundo pobre (e provavelmente dentro do mundo rico, entre os seus ricos e os seus pobres); a ascensão do racismo e da xenofobia; e a crise ecológica do globo, que nos afetará a todos” (HOBSBAWM, 1992, p. 104).

O uso de drogas, hoje, chamadas substâncias psicoativas (SPA) é entendido pelo senso comum como transgressão, desvio, disfunção à ordem vigente quer seja por razões sociais, culturais, religiosas ou moralistas, recreativas devido à curiosidade ou forma de enfrentamento dos problemas pelas famílias, ou ainda necessidade de inserção na vida social, aguçada na banalização de valores e fetichismo presentes na sociedade moderna e consumista, a qual, segundo Guimarães (2007) “afasta o trabalhador do debate e atividade política, transforma hábitos sociais e culturais sob a influência da TV, exacerba o individualismo, fomenta o consumo exacerbado, reforça o culto ao corpo enquanto moda que empobrece a ação intelectual e deprecia a cultura que não seja pop, deixa de ter algum valor ou fazer sentido” (p. 69-70).

Na região de Goiânia, Goiás, (e pelo resto do mundo, urbanizado e globalizado) a drogadição, expressa na mídia, é uma das expressões da questão social relacionada, principalmente, à precarização do trabalho na cidade desfigurada pela concentração urbana enquanto consequência da desmobilização dos assentamentos agrícolas de trabalhadores expulsos do campo pela força do capital – braço do sistema com poder de desmobilizar e instalar os sobrantes, ou integrantes do exército de reserva, às margens da urbe planejada e explorada pelo mercado imobiliário – expressão social imediata da gestão de perfil neoliberal que fomenta a vulnerabilidade social.

Sobre esta expressão de violência e estigma social, cultural e político, conivente e conveniente, denuncia Belém (2011) que, “para satisfazer grupos parlamentares – reacionários – o Sistema Único de Saúde (SUS), através do governo federal, financia comunidades terapêuticas, em sua grande maioria, orientadas na religiosidade moralista, hoje, esteio das práticas de sequestro, resgate e cárcere privado do usuário de drogas, preso em clínicas ditas médicas as quais alimentam do mercado das toxicomanias, e que desloca, rapidamente, do tráfico para a área de cuidados” (p. 3).

Há uma coletividade subjugada à prática cotidiana do marketing com o fomento ao mercado consumidor de drogas, dividido em “duas frentes: os ganchos factuais, que estão sempre no noticiário da emissora, e as matérias especiais, incluindo campanhas” (ANDI, 2003, p. 97), retratada pela mídia impressa, a qual problematiza a drogadição como expressão no Estado de Goiás, abrangendo o Brasil, cuja problemática é engendrada pela lógica sociocultural, econômica e política, em face das mazelas da ordem burguesa que agudiza a questão de saúde mundial.

A correlação entre a mídia impressa “livre”, que, de acordo com Marx: “A primeira liberdade da imprensa consiste em que ela não seja um ofício” (1999, p. 77) é processo histórico, revela o “veículo de informação e conscientização política da classe operária” (MARX, 2006), ainda no século XIX, onde já denuncia a existência acorrentada dos veículos de informação. As manchetes midiáticas passam pela exploração e tráfico, guerras e lavagem de dinheiro, hegemonia de poder e acumulação de capital como expressões do mundo contemporâneo, retratam uma sociedade modernizada e eletrônica – atrelada à informação impressa, televisada ou através do alcance das ondas do rádio –, a qual abarca grande parte das classes sociais, estando elas de posse do jornal do dia ou mesmo aquelas fadadas a estampar as páginas policiais, realidade e expressão social que remonta aos primórdios da coletividade.

O mercado lucrativo da violência e correção promove o alijamento do ser social de seu direito à discussão – paradigma midiático –, revela que nenhum crime se presta melhor para demonstrar serviço, engordar estatísticas criminais, simular flagrantes, discriminar certos grupos sociais, desestabilizar desafetos políticos ou pessoais, levantando a falácia moral que desmoraliza e despersonaliza o ser social, quer seja no discurso, quer seja na fala parlamentar ou publicação da imprensa. Razões econômicas, políticas e socioculturais impulsionam a mídia impressa e sua relação de conflito com a discussão da drogadição enquanto questão de saúde pública, portanto, como uma das expressões da questão social.

E o pulso, ainda pulsa!

 

(Antônio Lopes, filósofo, assistente social, mestre em Serviço Social/PUC-Goiás e aluno-ouvinte em Direitos Humanos/UFG)

 

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