Brasil

Ela lava louças

Redação DM

Publicado em 28 de março de 2017 às 02:17 | Atualizado há 9 anos

Distante milhas e milhas de sua casa, ali estava a moça que nunca lavara um prato sequer. Minto, ela já o fez algumas e raras vezes. Porém a proposta era de mão única: ou cozinhava (nem fritar um ovo sabia) ou lavava. O dinheiro até pagaria os restaurantes daquela ilha sofisticada e longínqua, mas o tempo era exíguo e a casa tinha todos os recursos de cozinha, quarto, sal, varanda, piscina, píer e o escambau.

Sua companheira compraria com ela os alimentos que desejasse e escolhesse. Com bom vinho, música e tempo. Topou na hora. Sua primeira preocupação fora as unhas. Uma luva de borracha resolveu esse dilema. Depois o detergente. Sabia que tinha que fazer espuma. Mas enquanto a outra comprava os ingredientes de uma paella, levou a mais barata.

Regra número um de cozinha: tudo que é baratinho é ruim. Aliás, péssimo.  Aprendeu fazendo. Copos são fácies, mas batom é uma desgraça. Lembrou-se da mamãe que mordia o guardanapo e nunca viu uma xícara manchada. Uma lava-louças seria o ideal, mas não tinha. Primeira fase é retirar o excesso deixando tudo de molho. Lógico! Mas para ela não o era.

Seu primeiro desafio foi a colher de pau. Esse negócio comprido e antiquada era uma maravilha para ficar sorvendo e experimentando as comidas cheirosas e não deixava o macarrão grudar. Mas para limpar, um suplício. Mas viu que sendo rápida no gatilho, usando água morna e deixando secar no sol, resolvia. Para tirar o cheiro, água e vinagre meio a meio. Afinal era médica e não permitiria aquele instrumento se encher de bactérias.

Manchas de vinho na taça seria um crime. O cristal absorve mais a sujeira, devido a sua porosidade, das duas faces – ela nunca tinha reparado isso – da esponja (entre a amarela macia e a verde abrasiva) ela limpou delicadamente e forrou a pia com a toalha de salto ornamental para não quebrar se caísse. Secando de cabeça para baixo, na toalha felpuda de rosto que achou no quarto. Taças incólumes. Ficou lindo!

Panelas é questão de fazer muito apoio, barra e paralela. Só força nas crostas. Uma palha de aço, que no Brasil se chama Bombril, ajuda demais. Ali eram redondas, e esquisitas. Mas dava certo. Até que se deparou com o suplício em forma de panela. Aquele forro preto fosco, o tal do teflon. Desafio à sua inteligência. Isso não pode, aquilo não dá, a panela é caríssima, risca… ouviu mil recomendações. O tal do politetrafluoretileno era um monstro. Primeiro ela foi ao supermercado Van den Tweel e comprou um sapólio cremoso, nada de sapólio normal ou o tal do TIF que dá um cheiro esquisitíssimo nas mãos. Depois passou água fervente para desengordurar. E as panelas ficaram novinhas.

De faca ela entendia. Seu pai caçava e pescava. Tinha uma coleção de facas de todos os tipos. Ali ela sabia que água fervente e descascar cebola não tira o fio. Lenda de cozinheira despreparada. Como seu velho pai dizia, faca tem que morar na bainha e sozinha. Nada de misturar com outros utensílios domésticos. Um terço da lâmina é dentro do cabo. E faca boa se vê pelo aço, na hora do revenimento, pode perder um pouco da dureza da têmpera se a temperatura ultrapassar mais de 200 graus. Isso não acontece na cozinha. Então, diante do time de facas espetaculares que viu, só restou lavar com desvelo e sem emoção. Nada de utilizar sobre vido ou porcelana, superfícies mais duras do que ela. O resto tirou de letra.

Ao final de duas semanas estava tão hábil no lavar, enxugar e secar que desistiu do seu primeiro plano de comprar uma lava louças. Primeiro porque teria de tirar os resíduos do mesmo jeito, segundo que só de ficar calculando o ciclo de lavagem seria uma chatice, terceiro que teria de utilizar na capacidade máxima e como ela vivia só com seu marido, detestaria ver a pia enchendo de pratos e garfos e facas e taças. Depois não concordava com a colocação dos utensílios dentro da infeliz da máquina e também comprar aqueles detergentes picaretas e tabletes seria uma ofensa às suas hábeis mãos. E por fim como lavadora raiz que havia se tornado, para fazer a manutenção mensal teria que chamar um homem. E vai que chega um senhor nutella que não entende nada de lavar louças?

 

(JB Alencastro, médico)


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