Brasil

Ele não nasceu numa manjedoura

Redação DM

Publicado em 26 de dezembro de 2017 às 22:55 | Atualizado há 9 anos

 

Ele não nas­ceu nu­ma man­je­dou­ra, tam­bém não che­gou aos 33 anos e nem sur­pre­en­deu os dou­to­res do tem­plo com a sua sa­be­do­ria. Há, po­rém, um par de co­in­ci­dên­cias en­tre os dois ga­ro­tos. Pa­ra co­me­ço de con­ver­sa, os dois vi­e­ram ao mun­do nu­ma fa­mí­lia po­bre. Ne­nhu­ma boa es­tre­la anun­ciou a che­ga­da de Car­los, mas a mãe o re­ce­beu, no­ve anos após o nas­ci­men­to da sua fi­lha, co­mo se fos­se tra­zi­do por um an­jo. Foi um ga­ro­to co­mum en­tre to­dos os ga­ro­tos co­muns de Bau­ru, com uma mãe e uma ir­mã, co­mo to­das as mã­es e ir­mãs que lu­tam ca­da dia pa­ra man­ter a ca­sa em pé com a mai­or de­cên­cia.

Mes­mo que es­te­ja num can­to da sa­la, a má­qui­na de cos­tu­ra é o co­ra­ção da ca­sa. Ne­la se re­ve­zam mãe e fi­lha pa­ra pa­gar as con­tas. Aque­la má­qui­na, elas pen­sam, é uma bên­ção. Sem ela, não te­ri­am se­gu­ra­do as pon­tas. O me­ni­no cres­ceu ou­vin­do aque­le ba­ru­lho in­ter­mi­ten­te co­mo um aca­lan­to. Rrrrrrrr (si­lên­cio) Rrrrrrrr (si­lên­cio). Não há fe­ri­a­do. Só pa­ram o ba­ru­lho pa­ra não atra­pa­lhar o so­no dos vi­zi­nhos. Do seu quar­to, era só ou­vir o ba­ru­lho e o Car­li­nhos po­dia adi­vi­nhar o ges­to de ca­da uma das mu­lhe­res da ca­sa. A ir­mã mais rá­pi­da, com in­ter­va­los me­no­res. Rrrr (…) Rrrr (…). A mãe, mais cui­da­do­sa, fa­zen­do olhi­nho de ja­po­nês, já não en­xer­gan­do. Ela sem­pre es­que­ce de acen­der a luz. Tra­ba­lhan­do no es­cu­ro? Acen­de a luz, mãe. Nos úl­ti­mos tem­pos, Car­los co­me­çou a ter rai­va do ba­ru­lho da má­qui­na, rai­va do es­for­ço das mu­lhe­res que ape­nas lhes dei­xa­va tem­po pa­ra co­mer, dor­mir e to­mar ba­nho. Ser­vi­ço não se re­jei­ta. A con­ver­sa, o fil­me, o ca­fu­né e os pla­nos de es­tu­dar jun­to, tu­do que é bom fi­ca­va adi­a­do. Ano pró­xi­mo a gen­te vol­ta, fa­ze­mos su­ple­ti­vo.

Tu­do nes­sa ca­sa fi­ca­va pa­ra de­pois. Eles ten­ta­ram, bem que ten­ta­ram. Foi bem di­fí­cil com Car­li­nhos. Ele não era bom pros es­tu­dos. To­do mês mu­da­va a pro­fes­so­ra. E as que du­ra­vam mais tam­bém não ti­nham pa­ci­ên­cia com aque­le ban­do de mo­le­ques. Car­li­nhos ia fi­can­do pa­ra trás e a pro­fes­so­ra não re­pa­ra­va. A mãe tam­bém não sa­bia aju­dá-lo com a li­ção. Fi­cou 3 anos na quar­ta sé­rie. Deu uma es­ti­ca­da boa de re­pen­te, os pe­los cres­cen­do nas per­nas. Ti­nha ver­go­nha de fi­car en­tre as cri­an­ças me­no­res e foi fi­can­do ca­da vez mais ca­la­dão. Mais tris­te. Ca­da vez com mais rai­va do ba­ru­lho da má­qui­na. Ia lo­go pro quar­to ou­vir mú­si­ca de fo­ne de ou­vi­do.

Quan­do era mais no­vi­nho, a má­qui­na o fas­ci­na­va. Fi­ca­va em pé ob­ser­van­do a agu­lha su­bin­do e des­cen­do ra­pi­dão, mas­ti­gan­do o pa­no. Cui­da­do com a mão, Car­li­nhos, que vo­cê ma­chu­ca. Ele fi­ca­va olhan­do hip­no­ti­za­do. Mas, no úl­ti­mo ano, o olho de­le des­vi­a­va da agu­lha, des­vi­a­va da má­qui­na, des­vi­a­va dos olhos das mu­lhe­res da ca­sa. Ha­via san­gue no olho do me­ni­no. Não po­dia ou­vir o ba­ru­lho da má­qui­na que saía pra rua. Pra on­de vo­cê vai, me­ni­no? Vou co’s ami­gos. Es­ses ami­gos… Ele tem que fa­zer al­gu­ma coi­sa, mãe. Sem es­tu­do, não vai con­se­guir em­pre­go de­cen­te.

A mãe, Ele­ni­ce, se ma­tri­cu­lou com ele. To­da noi­te iam jun­tos pra au­la e de­pois fa­zi­am jun­tos a li­ção de ca­sa. Car­li­nhos re­cu­pe­rou a mãe da má­qui­na. Era tão bom po­der ser cri­an­ça ou­tra vez. Ele es­ta­va gos­tan­do, e apren­dia. Mas ti­nha as con­tas pra pa­gar, apa­re­cia ser­vi­ço ur­gen­te. Car­li­nhos, vou fi­car pa­ra ter­mi­nar es­te ser­vi­ço, vo­cê pe­ga a ma­té­ria e a gen­te es­tu­da jun­to de­pois. Fal­tou um dia e de­pois ou­tro. Se a se­nho­ra não for, eu tam­bém não vou. A do­na Ele­ni­ce fi­ca­va ago­nia­da, en­tre a es­pa­da e a pa­re­de. Co­mo que era? Se cor­rer o bi­cho pe­ga, se fi­car o bi­cho co­me.

O bi­cho co­meu. Car­li­nhos pa­rou de ir pra es­co­la. E saía di­re­to pra rua. A do­na Ele­ni­ce ten­ta­va se­gu­rar. Ele até tem seu quar­to. Mas co’ba­ru­lho da má­qui­na nem dá pra as­sis­tir te­le­vi­são. Lem­bra. Ela lem­bra da­que­le dia que olhou pro seu me­ni­no. Aque­le me­ni­no que ne­nhu­ma es­tre­la anun­ciou, mas que ela re­ce­beu co­mo se fos­se tra­zi­do por um an­jo. Olhou bem no fun­do do olho do me­ni­no de san­gue no olho, pra além do san­gue no olho, lá no fun­do. Ano pró­xi­mo a gen­te ma­tri­cu­la de no­vo. Sim, mãe. Ano pró­xi­mo a gen­te vol­ta. E saiu pra rua.

Na­que­la sex­ta-fei­ra, Car­li­nhos apa­re­ceu com uma mo­to. De quem é es­sa mo­to? De um co­le­ga, mãe, va­mos dar uma vol­ta na ave­ni­da e de­pois ele pe­ga.

Do­na Ele­ni­ce olha pra trás. Pen­sa co­mo as coi­sas che­ga­ram até es­se pon­to. Uma e ou­tra vez per­gun­ta a si mes­ma co­mo po­dia ter evi­ta­do. Na­que­la ma­dru­ga­da, che­ga­ram 6 po­li­ci­ais ba­ten­do com for­ça na sua por­ta e gri­tan­do. É um er­ro, pen­sou. Mas não, es­ta­vam atrás do Car­li­nhos. 5 fi­ca­ram tran­ca­dos com ele e um fi­cou na sa­la com as mu­lhe­res. Ho­ras a fio tran­ca­fi­a­dos. De­via ser um er­ro. Eles iam per­ce­ber. Meu fi­lho é um me­ni­no. Eles vão per­ce­ber. Ele só tem 15 anos. É pro­ce­di­men­to nor­mal, se­nho­ra. No co­me­ço, ela até con­fiou. Mas ou­viu, en­tre os gri­tos dos po­li­ci­ais, os ge­mi­dos do Car­los, mais me­ni­no que nun­ca no mes­mo quar­to on­de ele se dei­ta­va pa­ra ou­vir mú­si­ca. Na es­tan­te, ain­da, os ca­der­nos de es­co­la. A por­ta se abriu e viu seu fi­lho car­re­ga­do, in­con­sci­en­te, pa­ra fo­ra da ca­sa.

No quar­to, os CDs fo­ra das cai­xi­nhas, os ca­der­nos no chão, o fio de­sen­ca­pa­do. Na sa­la, a má­qui­na de cos­tu­ra, ago­ra si­len­cio­sa, sem aca­lan­tos pa­ra o me­ni­no que não nas­ceu na man­je­dou­ra.

 

(Sil­via Be­a­triz Adoue, pro­fes­so­ra da Fa­cul­da­de de Ci­ên­cias e Le­tras da Unesp de Ara­ra­qua­ra)

 


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