Brasil

Eleição temporona, nos tempos de pessidê e udeene

Redação DM

Publicado em 22 de junho de 2016 às 03:27 | Atualizado há 10 anos

Está sendo anunciada para breve uma eleição suplementar em São Domingos, município do Vão do Paranã, depois de o TSE haver cassado a prefeita e o vice, num vaivém de “cassa-descassa” que dura desde 2013, a ponto de ter o TSE ordenado uma eleição suplementar indireta, pois não se justificaria uma despesa enorme para o prefeito-tampão ficar seis meses no cargo. Assim, sendo o colégio eleitoral composto de apenas nove vereadores, tudo se resolve em poucas horas.

Desde meus tempos de menino, só me recordo de uma vez, em que houve uma chamada eleição suplementar, nos anos sessenta, e conto o causo mais adi-ante, pois é preciso traçar um desenho do que eram as eleições daquele tempo, em que nem rádio havia direito, quanto mais a urna eletrônica de hoje.

Na época das eleições a cidade fervilhava de gente do mato, muitos analfabetos e poucos elei tores (pois analfabeto não votava ainda), entupindo a casa dos ca-bos eleitorais e chefes políticos, que na quele tempo não havia a “Lei Etelvino Lins” para impedir a compra de votos através da muda de roupa nova e da pança cheia. No dia 3 de outubro, consinado pra se votar, o matuto se ex ta si ava, sentindo-se o rei do acontecimento: a corrida atrás de voto era incansável, e a vitória, apertada, pois o eleitorado era escasso. Nas imediações das seções eleito rais, moças bonitas e cheirosas de ambas as partes, procuravam cativar os barirus com promessas de presentes e de dançar com eles no baile da vitória, em troca do preci-oso voto. E havia tabaréus, que nada tinham de bestas, tirando proveito de tudo, pois em dia de eleição o trabareu enchia-se de finuras, ofendendo-se por um és-não-és qualquer:

– O xente, moço, cê lavô a égua!

– Uai, e pro mode quê?

– Rôpa nova, precata nova… Adonde ranjô?

– O pessoal de Dito Póvoa qui me deu nas inleição.

– E cê votô nele mesmo!

– Uai, eu nem num voto!… Sei lá assiná meu nome?

Enquanto o PSD formava seus currais eleitorais, a UDN tinha seus eleitores de cabresto, e isto se transformava no fiel da balança que decidia o pleito.

As filhas de Augusto Rodrigues – Diran, Nem, Quiniana, Dasse, Lélia – eram terríveis, movimentando os comícios, de um lado. Do outro, as de Totó Aires – Dolores, Todinha, Iracema, Leda – não ficavam para trás, agarrando com unhas e dentes os preciosos votos para o partido apoiado aquele ano.

Por tradição, os Póvoa sempre foram udenistas, e os Costa, nossos parentes perto – e no arrebentar das cordas uma só família –, eram pessedistas. Os Rodrigues, assim, gozavam da cômoda situação de ser assediados de todas as formas pelos chefes políticos de ambos os partidos, à cata do precioso apoio. E apesar da movimentação eleiçoeira e dos bate-bocas nos comícios, as diferenças eram esquecidas logo após as apurações, quando uns chegavam a fazer caçoada com a cara dos outros alegando que haviam tomado tantos eleitores. A briga ficava para o pleito seguinte.

Agora vem a história da eleição suplementar a que me referi.

Em 1960, as eleições eram gerais, abrangendo de vereador a presidente da República: Jânio ganhou de Lott para o Palácio do Planalto (que na época ainda se chamava “Palácio dos Despachos”); aqui em Goiás, Mauro Borges ganhou do seu tio Juca Ludovico, e lá no Duro ganhou tio Dito, udenista, em cima de tio Joca, pessedista. O pleito foi acirrado: pela UDN, os candidatos, ambos, ex-prefeitos; ambos, de prestígio e cunhados entre si, eram tio Joca era casado com tia Culininha, irmã de tio Dito. Vencer a eleição seria uma espécie de tira-teima, e, apesar de todos os esforços, tio Dito venceu com apertadíssima margem de dois votos. Mas, para espanto geral, a velha raposa José Freire, do PSD, denunciou uma suposta fraude na Seção Eleitoral de Taipas, que somava apenas 126 eleitores ao todo, ao argumento de que o jovem tribuno e líder estudantil José Martins de Azevedo teria entrado na cabine de votação e induzido os eleitores a marcarem nas cédulas votos para tio Dito. Na Seção de Taipas tio Dito tinha tido 109 votos, e tio Joca, 17, com 94 votos de diferença. Um recurso com sabor de satisfação moral perante o governo estadual, que era pessedista (Juca Ludovico, que em eleição anterior perdera para Galeno Paranhos, e este ganhara na Justiça, mas a vitória foi anunciada depois que Juca tinha governado). Assim, pouca esperança era de ter sucesso num recurso de um distritozinho socado lá no sertão de maria valei-me e sem influência política nenhuma.

Não se sabe por que cargas d’água (talvez a influência do governo pesse-dista), o TRE de Goiás acor dou, julgou o recurso com uma rapidez nunca vista e declarou nulos os votos da Seção de Taipas, marcando eleições suplementares somente para aquela urna. Para o pequeno arraial dirigiu-se todo o poder econômico dos partidos e do governo, que arranjou até tropas do Exército, mas o resultado foi a confirmação do resultado anterior, com uma adição: Joca Costa obteve 15 votos, e Dito Póvoa, 111, elevando a diferença para 96 votos. Apesar de todo o aparato, o trabalho dos udenistas Azevedo fez foi aumentar a diferença, para desespero do PSD.

Antes, porém, da decisão do tribunal, houve inquérito para apurar a denúncia da dita fraude que dera origem ao recurso. Ambos os partidos apressaram-se em arrolar testemunhas, nem sempre esclarecidas. O fórum estourava de gente, e o dr.  Joaquim Ribeiro Magalhães Filho, juiz de Direito, dirigia os trabalhos, ouvindo e apurando tudo, mas, apesar de sua sisudez, nem sempre conseguia conter o riso dos matutos de poentes, que, entre tímidos e apavorados, prestavam depoimento, preocupados em dizer o que lhes havia sido mandado dizer pelo chefe político, geralmente ali presente conferindo a fala. Uma das testemunhas, por nome Joaquim Velho, da Terra Vermelha, em dado momento, foi interrogada pelo sisudo juiz eleitoral, dr. Magalhães.

– O senhor confirma que viu Zé Martins colocar votos a mais na urna de Taipas?

– É verdade, inhô sim!

O juiz, olhando por riba dos óculos, encarou o pobre Joaquim Velho, já literalmente acossado pelo povaréu que entupia o fórum, fechou a cara e voltou à carga:

– O senhor sabe que mentir na Justiça dá cadeia. O senhor Viu mesmo?

O velho roceiro assuntou o ambiente, cofiou a barba e respondeu, quebrando aquele silêncio de claustro:

– Quê dizê, “seo” dotô juiz, qui vê… Vê mesmo eu num vi não…

O juiz cerrou o cenho e estranhou:

– Mas o senhor não disse há pouco que gente da UDN tinha colocado voto a mais na urna?

O depoente coçou a cabeça, olhou nas rodeanças caçando prumo e desembuchou:

– É verdade qui falei, e isso eu num nego! Mas meu cumpadre ali – e apontou um chefe político, que procurou esconder-se no meio do povão – falô qu’eu dissesse assim, de formas qui o sinhô tem de assentá aí no papel é qu’eu vi mesmo, sinão eu fico mal cum meu cumpadre…

O fórum quase veio abaixo, de tanta gargalhada.

(Liberato Póvoa, desembargador aposentado do TJ-TO, membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras e da Academia Dianopolina deLetras, escritor, jurista, historiador e advogado, [email protected])

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