Em busca da perfeição
Redação DM
Publicado em 7 de janeiro de 2017 às 01:40 | Atualizado há 10 anos
Para produzirmos a cultura da paz temos que nos habituar a buscar o silêncio – o que não é fácil – pois vivemos num mundo excessivamente barulhento.
Faz-se necessário aprender a desenvolver a tolerância ante a provocação de coabitar com tantos ruídos se quisermos ouvir o próprio coração.
Conseguindo realizar o encontro consigo mesma, a pessoa encontra seu eixo e alcança a introspecção, que é um mergulho no seu mundo interior.
Essa imersão revela algo que está além das palavras porque é da ordem do sentir.
Silenciosamente verá que essa prática revela, a quem tenha persistência de insistir nela, que toda criatura é, na sua essência, de índole boa, um verdadeiro cristal que deverá ser preservado de todo desrespeito.
Será que você consegue perceber isso na concepção de si mesmo?
O hábito de recolher-se, em silêncio, propiciará a oportunidade dessa confirmação.
A impressão exterior que projetar e as circunstâncias que criar para si mesmo são resultado de sua autoimagem, que se constitui de tudo o que emocionalmente vai sendo gravado em sua mente, positiva ou negativamente, sob a forma de imagens.
Para o cérebro não há diferença entre imaginar algo ou viver, de fato, a ocorrência.
Daí a necessidade de cultivar imagens mentais que levem a refletir sobre o que estamos fazendo de nós mesmos.
Façamos uma reflexão sobre um texto de Franz Kafka, que diz: “Não é necessário que você saia de casa. Permaneça à mesa e escute. Nem mesmo escute, espere apenas. Nem mesmo espere, esteja absolutamente silencioso e só. O mundo virá apresentar-se para que você lhe tire a máscara, ele não pode fazer de outra forma; extasiado curvar-se á diante de você.”
Nessa mesma tônica encontramos no Tao dos relacionamentos uma referência ao silêncio reconfortante e produtivo: “quando palavras ocultarem o silêncio, escute o silêncio e não as palavras. As palavras confortantes são o silêncio do companheirismo. O silêncio confortante transmite o bem à união.”
O silêncio faz tudo crescer; nele escutamos o que escondemos de nós mesmos; nossos ruídos internos , acalmados, revelam quem realmente somos; o que herdamos de vidas pregressas; como estamos agora, o que servirá para nos preparar o futuro que nos aguarda.
Observemos também o quanto nos sabotamos para sermos o centro das atenções, sendo gentis com o propósito de chamar a atenção para que nos vejam, nos admirem, nos papariquem, reforçando nosso orgulho nas suas variadas nuances: quando consideramos inferiores todos aqueles que estão no mesmo nível que nós; quando nos comparamos com os que nos são superiores em conhecimento e assumimos uma humildade falsa, sentindo-nos nobres por sermos capazes de reconhecer que ainda temos muito o que aprender.
É comum assumirmos uma atitude egóica.
Esses arroubos de vaidade, se não forem percebidos através da meditação, nos proporcionam uma imagem distorcida de nós mesmos. É quando recrudesce a solidão como consequência do exagerado apego à própria imagem e o sofrimento aumenta, inevitavelmente, porque todos estamos em busca da perfeição.
(Elzi Nascimento, psicóloga clínica e escritora / Elzita Melo Quinta, pedagoga, especialista em Educação e escritora.)