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Encontro/desencontro: Confaloni/Siron

Redação DM

Publicado em 25 de maio de 2017 às 01:27 | Atualizado há 9 anos

Neste ano comemorativo do centenário de nascimento do Frei Nazareno Confaloni, considerado mestre e pioneiro da pintura moderna em Goiás, é oportuno atualizar alguns aspectos de sua vasta produção artística, destacando, por exemplo, uma experiência conjunta realizada por Confaloni e Siron em 1977, quando os dois artistas produziram uma série de desenhos e pinturas de Madonne, trabalhando no ateliê de Confaloni, junto ao Convento São Judas Tadeu em Goiânia. (Este artigo mostra alguns pontos de identidade e diversidade entre os dois pintores: o italiano que se abrasileirou, o brasileiro que se internacionalizou.  Esta matéria foi publicada originalmente em O Popular, 2º caderno, Goiânia, 30/01/1977, p. 21).

Os dois artistas são originários de sociedades e culturas diferentes. Um, o italiano Nazareno Confaloni, que, vindo para Goiás em 1950, trouxe a contribuição de uma vivência e de uma bagagem cultural européia. O outro, o goiano Siron Franco, que leva pela frente toda a  potencialidade criadora de um artista tropicalista. Confaloni, mestre de muitos artistas novos de Goiás, trouxe para cá as contribuições válidas do passado como história, e elaborou as bases para o futuro da pintura goiana – como professor e cofundador da Escola de Belas Artes de Goiás. Siron Franco – que é já filho desse futuro – mostra em sua arte o que foi capaz de aprender – justiça seja feita ao antigo mestre – e o que foi capaz de descobrir, para impor em Goiás uma nova pintura.

De uma convivência condicionada por uma afinidade que havia entre os dois artistas,  resultaram interessantes experiências estéticas que se projetaram  nas madonas pintadas por  Siron, as quais ficaram mais comportadas, e nas madonas pintadas por  Confaloni, que aparentaram mais inquietas. Um assimilando técnicas, outro assimilando idéias, ao menos por um momento seus trabalhos se identificaram, como se fossem feitos a quatro mãos. Embora não dependesse um do outro, nem quanto à pesquisa formal, nem quanto às soluções compositivas.

 

Identidade e diversidade

1 —  A obra de Siron Franco insiste desde o início na busca expressiva dos valores ideológicos e, para tanto, se utiliza de uma linguagem expressionista, fortemente caracterizada de traços incisivos, imagens deformadas e car-regamento cromático. Sua pintura é, pela própria temática – questionando sempre a realidade humana, polêmica e inquieta — traz a intenção da denúncia e expressa a ânsia do imediato.

2 — Na obra de Nazareno Confaloni nota-se, antes de tudo, uma vontade de clareza moral, assim expressando não uma ideologia, mas uma ética. E esta evidência leva-o a procurar uma linguagem capaz de colher e fixar a realidade sensível e espiritual do homem. Sua pintura pretende satisfazer, sobretudo a uma exigência de sentimento e sinceridade quanto aos temas por ele desenvolvidos, revestidos de serenidade e lirismo, reveladores de uma posição conciliadora e de equilíbrio.

3— Ao lermos as telas de Siron, somos levados e refletir e a assumir sua angustiosa busca de identificação do homem – no presente, ou de um projeto de homem, no futuro — ficando, embora, a lúcida impressão de que não encontrará ou não reencontrará a imagem perene e íntegra do homem de sempre, que se perdeu — restando apenas alguns monstrengos filhos do absurdo existencial e da caótica vida de nossos dias.

4 — Ao lermos as telas de Confaloni, somos levados a pensar e a sentir que, quanto mais angustiosos se tornam os nossos dias, tanto mais parece que a arte deva constituir-se numa nostalgia de outros tempos – ou já elegia de um mundo que não existe mais – de pureza e poesia perdida.

5 — A pintura de Siron se define e se impõe corajosamente numa linha de vanguarda expressionista. A pintura de Confaloni não se tendenciona, mas se constitui num sincretismo em que as conquistas da linguagem tradicional são incorporadas às experiências pessoais de expressão, sem deixar de ser um clássico, no sentido da organização da imagem, da ordem das linhas, do equilíbrio compositivo.

6 — O desenho de Siron é mais genérico — o rosto de seus personagens é preenchido com uma única máscara. O desenho de Confaloni é mais incisivo e definido — há uma variada caracterização de tipos humanos. Em Siron, o quadro se estrutura com intenção de assumir e antecipar uma imagem que se pretende futura. Em Confaloni, é sempre uma antiga estrutura que é assumida para conferir maior valor ao presente.

7 — Na pintura de Siron evidencia-se a experiência da cor como expressão de estados de espírito, antagônicos e sofridos. Em Confaloni, há tons combinatórios e harmoniosos  numa pintura clara e serena que elimina a tristeza e a dúvida em busca do equilíbrio, segundo uma cômoda percepção visual. Siron mostra que já perdemos o que há de mais belo, simples e verdadeiro – olhamos para nós mesmos com ar de interrogação. Confaloni nos propõe a busca de uma certeza que há em nós mesmos – para sermos mais verdadeiros, mais simples, mais humanos.

8 — As obras de Siron Franco e de Nazareno Confaloni se aproximam pela mesma temática, tendo por preocupação central o homem. Com diferença que Siron colhe o homem em crise e se metamorfoseando kafkianamente. Confaloni colhe o homem cristão, estratificado e sem revolta. Siron mostra o homem vítima da poluição, no amplo sentido sociológico. Confaloni mostra o homem, ainda sobrevivente, que conseguiu resguardar-se da poluição e preferindo coexistir em harmonia intima com a própria natureza.

9 — Em ambos os artistas a pintura nasce espontânea, do respeito e sensibilidade pela vida, pelo homem, em busca de valores positivos, embora focalizados sob polos diferentes.

10 — Em ambos os artistas a pintura significa a proposta de uma nova condição para o ser humano — em Siron como acusação e crítica, em Confaloni como motivação e convite — para que ele se liberte desse ritmo frenético, dessa febre de nervos, dessa angústia existencial de hoje, frente a uma forma mais inteligente de viver,  recuperando o equilíbrio perdido e a coerência consigo mesmo e com o mundo.

 

(Emílio Vieira, professor universitário, advogado e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa. E-mail: [email protected].)

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